Atenágoras de Atenas
Atenágoras de Atenas foi um filósofo ateniense convertido ao cristianismo e um dos mais notáveis apologistas cristãos da segunda metade do século II (floresceu c. 133 – c. 190, com datas incertas). Pouquíssimo se sabe de sua vida: as fontes antigas o descrevem apenas como filósofo de Atenas e converso ao cristianismo. Dele se preservaram duas obras: a “Embaixada (ou Súplica) em favor dos cristãos” (Legatio pro Christianis, c. 176/177), dirigida aos imperadores Marco Aurélio e seu filho Cômodo, e o tratado “Sobre a Ressurreição dos Mortos”, cuja autoria é debatida pelos estudiosos. Na Legatio, defendeu os cristãos das três grandes calúnias da época — ateísmo, banquetes tiésteos (canibalismo) e uniões edipianas (incesto) — e legou a primeira demonstração racional bem articulada da unidade de Deus na literatura cristã, uma notável exposição da Trindade, a primeira exposição completa da doutrina da ressurreição e uma firme condenação do aborto como homicídio. Atenágoras não figura no Martirológio Romano (não é santo do calendário católico), mas é venerado como santo na tradição ortodoxa do Oriente, com festa em 24 de julho.
Biografia
Origem, formação e conversão
Sobre a vida de Atenágoras sabe-se muito pouco. As fontes antigas o descrevem apenas como um filósofo ateniense convertido ao cristianismo, ativo na segunda metade do século II. A tradição o apresenta como formado na filosofia grega — em particular no platonismo médio e, segundo algumas fontes, também no estoicismo —, antes de abraçar a fé cristã. As circunstâncias de sua conversão e da maior parte de sua biografia permanecem desconhecidas; uma tradição afirma que ele teria começado como adversário do cristianismo e se converteu ao estudar de perto o que os apóstolos e a Igreja ensinavam, mas os detalhes são escassos e mal documentados.
O apologista: a Embaixada aos imperadores
A obra que o tornou célebre é a Legatio pro Christianis — a “Embaixada” (ou “Súplica”) em favor dos cristãos —, composta por volta de 176/177 e dirigida aos imperadores Marco Aurélio Antonino e seu filho Cômodo, saudados no cabeçalho como vencedores e, “acima de tudo, filósofos”. Atenágoras escreve como quem pede justiça e tolerância para os cristãos, perseguidos apenas pelo nome que levavam. Ele enfrenta as três acusações então lançadas contra os fiéis: como ele mesmo resume, “três coisas são alegadas contra nós: ateísmo, banquetes tiésteos e uniões edipianas” — isto é, a negação dos deuses pagãos, o suposto canibalismo ritual (devorar crianças nos banquetes) e o incesto. A cada calúnia ele responde com argumentação racional e apelo à conduta moral irrepreensível dos cristãos.
Em sua defesa, expõe o monoteísmo cristão, afirmando que os cristãos reconhecem “um só Deus, o Criador deste universo, que é Ele próprio incriado”, e articula a fé no Pai, no Filho (o Logos) e no Espírito Santo, oferecendo uma das primeiras exposições da Trindade na literatura cristã. Contra a acusação de canibalismo, lembra que os cristãos recusam até assistir aos combates de gladiadores para não se contaminarem com sangue, e condena com veemência o aborto: declara que “as mulheres que usam drogas para provocar o aborto cometem homicídio”, pois é incoerente “considerar o próprio feto no ventre como um ser criado e, portanto, objeto do cuidado de Deus” e depois matá-lo.
A tradição alexandrina
Uma tradição tardia, transmitida por Filipe de Side (historiador do século V), afirma que Atenágoras teria dirigido a Escola Catequética de Alexandria antes de Panteno e teria sido mestre de Clemente de Alexandria. Essa alegação, porém, é considerada duvidosa e pouco confiável pelos estudiosos: o relato de Filipe contém impossibilidades cronológicas e é contradito pelo testemunho de Eusébio de Cesareia. Por isso, o vínculo com a escola de Alexandria deve ser tratado como tradição incerta, e não como fato histórico estabelecido.
Obras e legado
Conservaram-se em seu nome duas obras: a já citada Legatio pro Christianis e o tratado “Sobre a Ressurreição dos Mortos” (De resurrectione mortuorum), tido como a primeira exposição completa dessa doutrina na literatura cristã, embora sua autoria atenagórica seja hoje debatida e atribuída a ele apenas com cautela por muitos especialistas. Atenágoras ocupa um lugar importante na apologética cristã dos dois primeiros séculos, pela elegância filosófica de sua defesa da fé. As circunstâncias e a data de sua morte são desconhecidas. Embora ausente do Martirológio Romano — não sendo, portanto, santo do calendário católico —, é venerado como santo na Igreja Ortodoxa do Oriente, que celebra sua memória em 24 de julho.
O contexto em que viveu
Atenágoras viveu na segunda metade do século II, sob a dinastia dos Antoninos, no auge do Império Romano governado por Marco Aurélio (161–180) e por seu filho Cômodo (180–192). Nesse período o cristianismo era ainda uma religião ilícita, tolerada de modo irregular e exposta a perseguições locais e esporádicas, em que cristãos eram denunciados, julgados e executados não tanto por crimes provados, mas pelo próprio nome de cristão.
Foi também o tempo do florescimento dos Apologistas gregos — autores cultos que, dominando a filosofia e a retórica pagãs, escreviam em defesa da fé endereçando-se aos próprios imperadores e ao público letrado. Entre eles destacam-se Justino Mártir, Taciano, Atenágoras, Teófilo de Antioquia e Melitão de Sardes. Atenágoras, filósofo ateniense convertido, distingue-se pela elegância do estilo e pelo rigor do argumento, apresentando-se como “Atenágoras, o Ateniense, Filósofo e Cristão”.
Sua Súplica (ou Embaixada) em favor dos cristãos (Presbeia peri Christianon, c. 176/177) responde a três grandes calúnias que então corriam contra os fiéis: o ateísmo (por recusarem os deuses pagãos), os “banquetes tiésteos” (acusação de canibalismo, de comerem crianças em suas reuniões) e as “uniões edipianas” (acusação de incesto). Atenágoras rebate cada uma demonstrando o monoteísmo cristão, a santidade da vida e a pureza moral exigida aos cristãos, inclusive nos pensamentos.
Sua obra dialoga intensamente com a filosofia grega — o platonismo (médio-platonismo) e o estoicismo — que ele põe a serviço da exposição da fé cristã, da unidade de Deus e da defesa da ressurreição dos mortos, tema de seu segundo tratado. Por isso é tido como um dos mais hábeis e cultos apologistas do seu século.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
A unidade de Deus: a primeira demonstração racional do monoteísmo cristão
Acusados de ateísmo por recusarem os deuses pagãos, Atenágoras responde com a primeira argumentação rigorosamente racional da unicidade de Deus na literatura cristã. Distingue radicalmente Deus da matéria — “ensinamos que a matéria é uma coisa e Deus outra, e que estão separados por um vasto intervalo, pois a Divindade é incriada e eterna, percebida só pelo entendimento e pela razão, enquanto a matéria é criada e perecível” (Legatio, cap. 4). Reúne o testemunho dos poetas e filósofos gregos para mostrar que “a unidade da Divindade é confessada por quase todos, ainda que contra a sua vontade” (cap. 5–7). E demonstra por pura razão que não pode haver dois ou mais deuses incriados: o Criador está acima de tudo o que fez e enche todo o espaço, de modo que não resta lugar para um segundo deus — “este Ser de quem falamos é o único Deus desde o princípio, o único Criador do mundo” (cap. 8).
A doutrina trinitária: Pai, Filho/Logos e Espírito Santo
A Legatio contém uma das mais antigas e elaboradas exposições da Trindade. Atenágoras professa “um só Deus, incriado, eterno, invisível, impassível, incompreensível, ilimitado”, “por quem o universo foi criado por meio do seu Logos” (cap. 10). Confessa também o Filho: “o Filho de Deus é o Logos do Pai, em ideia e em operação; pois segundo o seu modelo e por meio dele foram feitas todas as coisas, sendo o Pai e o Filho um só” — “estando o Filho no Pai e o Pai no Filho, na unidade e poder do Espírito” (cap. 10). Precisa que o Filho é “o primeiro produto do Pai”, não como tendo começado a existir, “pois desde o princípio Deus, que é a Mente eterna, tinha em si o Logos, sendo desde a eternidade dotado de Logos” (cap. 10). E professa o Espírito Santo “que atua nos profetas”, o qual “afirmamos ser um eflúvio de Deus, fluindo dele e a ele retornando como um raio de sol” — declarando assim “o poder deles na união e a sua distinção na ordem” (cap. 10).
A ressurreição dos mortos
No tratado Sobre a Ressurreição dos Mortos — a primeira exposição completa dessa doutrina na literatura cristã — Atenágoras argumenta sobretudo a partir do poder e da sabedoria de Deus: “aquele poder que pôde dar forma à matéria informe… esse mesmo poder pode reunir o que foi dissolvido, e levantar o que jaz prostrado, e restaurar os mortos à vida” (cap. 3). Argumenta, depois, a partir do fim para o qual o homem foi criado: o homem foi feito “de uma alma imortal e de um corpo” e dotado de tudo o que pertence à perpetuidade, pelo que deve ser conservado para sempre (cap. 12–13). Finalmente, a partir do juízo: como o homem é composto de alma e corpo e age pelos dois juntos, a retribuição justa exige a reunião de ambos — “este corruptível deve revestir-se de incorrupção, para que… cada um receba, segundo a justiça, o que fez por meio do corpo, seja bem, seja mal” (cap. 18). Atenágoras adverte, porém, que a ressurreição não se funda apenas no juízo: prova-o o fato de que também as criancinhas, que não fizeram nem bem nem mal, ressuscitam (cap. 14).
A defesa moral cristã: pureza, vida nascente e matrimônio único
Contra a calúnia de imoralidade e canibalismo, Atenágoras opõe a santidade de vida dos cristãos. Defende a pureza até no pensamento, valorizando a virgindade e o matrimônio único: “que cada um permaneça como nasceu, ou se contente com um só matrimônio; pois um segundo matrimônio não é senão um adultério dissimulado” (Legatio, cap. 33). Formula uma das mais antigas condenações cristãs do aborto: “as mulheres que usam drogas para provocar o aborto cometem homicídio, e terão de prestar contas a Deus pelo aborto”, porque é incoerente “ter o próprio feto no ventre por um ser criado, e portanto objeto do cuidado de Deus, e, depois que ele veio à vida, matá-lo” (cap. 35). Condena igualmente a exposição/infanticídio de recém-nascidos e rejeita os espetáculos de gladiadores: “considerando que ver matar um homem é quase o mesmo que matá-lo, abjuramos tais espetáculos” (cap. 35).
"Mas, visto que a nossa doutrina reconhece um só Deus, o Criador deste universo, que é Ele mesmo incriado (pois aquilo que é não vem a ser, mas aquilo que não é), e que fez todas as coisas pelo Logos que dele procede." Súplica em favor dos cristãos, cap. 4
Obras catalogadas
Súplica em favor dos cristãos
Defesa de Atenágoras aos imperadores romanos, refutando acusações contra os cristãos e afirmando a fé em um só Deus, a m...
No CodexSobre a Ressurreição dos Mortos
A obra “Sobre a Ressurreição dos Mortos”, de Atenágoras de Atenas, é um tratado do século II que defende a ressurreição...
Quem ele influenciou
Lugar entre os apologistas gregosAtenágoras ocupa um lugar de destaque entre os apologistas gregos do século II, ao lado de Justino Mártir e Taciano. A Enciclopédia Católica considera sua Legatio “a primeira demonstração fortemente argumentada da unidade de Deus na literatura cristã”, e a Britannica o aponta como autor de uma das primeiras obras a usar conceitos (neo)platônicos para interpretar a fé e o culto cristãos para o mundo greco-romano. Sua reputação repousa sobre a elegância filosófica e retórica da apologia, frequentemente julgada a mais bem escrita do gênero no seu século.Transmissão do textoSuas duas obras sobreviveram graças a um único manuscrito: o chamado códice de Aretas (Parisinus graecus 451), copiado entre 913 e 914 pelo notário Baanes a mando de Aretas, arcebispo de Cesareia da Capadócia. Esse códice, um verdadeiro primeiro “corpus” da literatura apologética grega, transmitiu a Súplica e o Sobre a Ressurreição junto de obras atribuídas a Justino Mártir, Clemente de Alexandria e Eusébio. Por circularem anonimamente e ligadas a Justino, as obras de Atenágoras chegaram a ser por algum tempo tomadas como de outro apologista.Recepção antiga e redescobertaAtenágoras foi pouquíssimo citado pelos antigos: há apenas duas menções na literatura cristã primitiva, entre elas citações fidedignas da sua Súplica num fragmento de Metódio de Olimpo (m. 312). Uma tradição tardia e duvidosa, registrada por Filipe de Side (séc. V), o associa à escola de Alexandria. Seu nome ganha relevo sobretudo na erudição patrística moderna, que o reabilitou como testemunha precoce da teologia trinitária e da defesa da vida.Influência na bioética e na doutrina pró-vidaO capítulo 35 da Súplica, em que Atenágoras chama de homicidas as mulheres que tomam drogas para abortar e descreve o feto no ventre como “ser criado e, portanto, objeto do cuidado de Deus”, é hoje um dos testemunhos cristãos mais antigos e citados na argumentação pró-vida e na bioética contemporânea sobre o estatuto do embrião.
Debates e controvérsias
A autoria do “Sobre a Ressurreição dos Mortos”
Por séculos o tratado Sobre a Ressurreição dos Mortos foi atribuído sem hesitação a Atenágoras. A partir de meados do século XX a atribuição passou a ser contestada: em 1950 P. Keseling a considerou “não acima de suspeita” e Robert M. Grant, no artigo “Athenagoras or Pseudo-Athenagoras” (Harvard Theological Review, 1954), argumentou que Atenágoras não poderia ter escrito o De resurrectione; N. Zeegers seguiu na mesma linha. A autenticidade foi defendida por Bernard Pouderon na sua edição crítica (Sources Chrétiennes 379, 1992) e em estudos posteriores, hipótese reconhecida como a mais provável por estudiosos como D. Rankin. O debate continua sem consenso fechado.
A alegação de Filipe de Side sobre a escola de Alexandria
Filipe de Side (séc. V) afirma que Atenágoras teria precedido Panteno à frente da Escola Catequética de Alexandria e teria sido mestre de Clemente de Alexandria. A notícia é geralmente tida por anacrônica e improvável, sendo contradita pelo testemunho de Eusébio de Cesareia sobre a sucessão na escola alexandrina. Trata-se de tradição tardia e isolada, não confirmada pelas fontes antigas mais seguras.
O rigorismo sobre as segundas núpcias
Na Súplica (cap. 33), Atenágoras sustenta que a pessoa deve permanecer como nasceu ou contentar-se com um único casamento, pois “um segundo casamento não passa de um adultério disfarçado” (“a specious adultery”). Essa posição rigorista — apoiada na sua leitura de Mateus 19,9 — é discutida quanto ao seu alcance: até que ponto exprime uma disciplina cristã comum do séc. II ou um rigor pessoal mais severo do que o que viria a prevalecer na Igreja.
Fontes e referências
- newadvent.org/cathen/02042b.htm
- newadvent.org/fathers/0205.htm
- newadvent.org/fathers/0206.htm
- britannica.com/biography/Athenagoras
- ec.aciprensa.com/wiki/Aten%C3%A1goras
- equip.org/articles/athenagoras-of-athens/
- oca.org/saints/lives/2025/07/24/206388-saint-athenagoras-of-athens
- orthodoxwiki.org/Athenagoras_of_Athens
- cambridge.org/core/journals/harvard-theological-review/article/abs/athenagoras-or-pseudoathenagoras/E0F4A0CEFC3EF97C92E45609FFA64EFD
- sourceschretiennes.org/collection/sc379
- en.wikipedia.org/wiki/Athenagoras_of_Athens
Links externos abrem em nova aba.
Outras personalidades
Encontrou algo incorreto?
Por mais que tentemos manter o conteúdo verificado e fiel às fontes, erros podem acontecer. Nos avise para que possamos verificar e corrigir.
Conheça mais pessoas.
O Codex de Personalidades cataloga as figuras da história cristã.