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Medalius · Codex de Personalidades · Tomás de Kempis
Tomás de Kempis

Frederick Bloemaert (gravador), segundo Abraham Bloemaert, 1719 — Rijksmuseum · fonte · CC0

🏛 Padre da Igreja
Período
1380–1471 (91 anos)
Lugar
Monte Santa Inês, Zwolle
Estado canônico
Servo_de_deus
Escola
Devotio Moderna
Idioma principal
Latim
Servo_de_deus

Tomás de Kempis

1380–1471
Autor d'A Imitação de Cristo Cônegos Regulares (Congregação de Windesheim)

Tomás de Kempis (c. 1380–1471) foi cônego regular agostiniano da Congregação de Windesheim, no mosteiro de Monte Santa Inês, perto de Zwolle (Países Baixos), e um dos grandes mestres da Devotio Moderna. É o autor tradicionalmente creditado de A Imitação de Cristo — depois da Bíblia, um dos livros de espiritualidade mais lidos da história. Homem de oração, humildade e vida interior, dedicou-se à cópia de manuscritos e à formação dos noviços. Não foi canonizado (uma causa de beatificação iniciada no século XVII não prosseguiu), mas sua influência espiritual atravessa os séculos, entre católicos e cristãos de outras tradições.

Biografia

Infância e formação

Tomás Hemerken nasceu por volta de 1379–1380 em Kempen, na Renânia (então Diocese de Colônia, hoje Alemanha), filho de João e Gertrudes Haemerken, gente da classe artesã: o pai trabalhava com metais — de onde o sobrenome Hemerken (“martelinho”, latinizado Malleolus) — e a mãe mantinha a escola da aldeia. O cognome “à Kempis” (de Kempen) recorda sua cidade natal.


Por volta de 1392, com cerca de treze anos, foi estudar em Deventer, nos Países Baixos, na escola ligada aos Irmãos da Vida Comum, sob a orientação de Florentius Radewijns. Ali respirou o espírito da Devotio Moderna, movimento de renovação interior nascido em torno de Geert Groote, que marcaria toda a sua vida.


Cônego regular em Monte Santa Inês

No outono de 1399 ingressou entre os Cônegos Regulares de Santo Agostinho da Congregação de Windesheim, no mosteiro de Monte Santa Inês (Agnietenberg), perto de Zwolle, onde seu irmão João já era prior. Recebeu o hábito de noviço em 1406 e foi ordenado sacerdote em 1413.


Passou ali quase setenta anos, em vida simples e escondida, ocupado sobretudo com a cópia de manuscritos — chegou a copiar a Bíblia inteira várias vezes — e com a formação espiritual dos jovens religiosos, função ligada ao cargo de subprior, que exerceu mais de uma vez. Em 1441 concluiu e assinou de próprio punho um códice com os quatro livros da Imitação de Cristo, ainda hoje conservado na Biblioteca Real de Bruxelas.


Provações: o exílio de 1429–1432

O episódio mais duro de sua vida foi o exílio da comunidade entre 1429 e 1432. Numa disputa pela sé de Utrecht, o papa Martinho V lançou um interdito sobre a região; fiéis à observância, os cônegos de Windesheim acataram a censura e, por isso impopulares, tiveram de deixar Monte Santa Inês, refugiando-se num canonato em Lunenkerk, na Frísia, até que a questão se resolvesse. Nesse período Tomás assistiu o irmão João, prior em Betânia, até a morte deste, em 1432.


Últimos anos e legado

Cronista do mosteiro quase até o fim, Tomás morreu em 25 de julho de 1471, com cerca de noventa anos. Foi sepultado no claustro oriental de Monte Santa Inês; suas relíquias, exumadas em 1672, repousam desde 2006 na Basílica de Nossa Senhora, em Zwolle, hoje local de peregrinação.


Seu nome ficou para sempre ligado à Imitação de Cristo, lida e amada por santos e por cristãos de todas as tradições. Nunca foi canonizado — a causa de beatificação iniciada no século XVII não avançou —, mas sua mensagem de humildade, vida interior e seguimento de Cristo continua viva.

Contexto

O contexto em que viveu

Tomás de Kempis viveu entre os séculos XIV e XV, num tempo de crise e renovação da cristandade. O Grande Cisma do Ocidente, com papas rivais, só terminou com o Concílio de Constança (1414–1418), que também condenou Jan Hus (1415). Era a baixa Idade Média, às vésperas da invenção da imprensa por Gutenberg (c. 1450) e da queda de Constantinopla (1453).


Nesse cenário floresceu nos Países Baixos a Devotio Moderna, reação espiritual ao formalismo e à teologia puramente especulativa, propondo uma piedade interior, simples e prática. Os Irmãos da Vida Comum e a Congregação de Windesheim, em cujo seio Tomás se formou e viveu, foram seus principais focos.

Fatos contextuais
Nascimento em Kempen
Nasce em Kempen, na Renânia (Diocese de Colônia), por volta de 1379/1380, filho...
Estudos em Deventer
Por volta de 1392, aos cerca de treze anos, vai para as escolas de Deventer, lig...
Ingresso em Monte Santa Inês
No outono de 1399, ingressa entre os Cônegos Regulares da Congregação de Windesh...
Recebe o hábito de noviço
Recebe o hábito de noviço em 1406, quando o claustro acabava de ser concluído, d...
Ordenação sacerdotal
É ordenado sacerdote em 1413, no ano seguinte à consagração da igreja do mosteir...

Suas contribuições à teologia

O pensamento de Tomás de Kempis é eminentemente prático e afetivo, não especulativo. Para ele, a santidade não está em saber muito, mas em amar e imitar a Cristo: de que vale falar com erudição da Trindade, se falta a humildade que agrada a Deus? A verdadeira sabedoria é desprezar o mundo para tender ao Reino dos céus.


Seus eixos são a humildade, o conhecimento de si, a vida interior, a compunção do coração, a renúncia ao próprio juízo e a conformação à vontade de Deus, coroados pelo amor a Cristo — “grande coisa é o amor” — e pela devoção ao Santíssimo Sacramento, tema do quarto livro da Imitação.

"Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade, senão amar a Deus e só a Ele servir. A suprema sabedoria é esta: pelo desprezo do mundo tender ao reino dos céus." A Imitação de Cristo, I, 1
Influência

Quem ele influenciou

Pela Imitação de Cristo, Tomás de Kempis influenciou profundamente a espiritualidade cristã. Santo Inácio de Loyola a descobriu em Manresa e deu-lhe lugar entre os exercícios dos jesuítas; São Tomás Morus, Santa Teresa de Ávila, São Francisco de Sales e Santa Teresa de Lisieux estiveram entre seus leitores. Foi lida também fora da Igreja Católica — por figuras como John Wesley —, tornando-se um clássico universal da devoção.Sua escola, a Devotio Moderna, com o método de meditação e de leitura espiritual, preparou o terreno de espiritualidades posteriores, em especial a inaciana.

Debates

Debates e controvérsias

A autoria da Imitação de Cristo

A autoria da Imitação de Cristo foi longamente disputada. Por circular a princípio de forma anônima, a obra foi atribuída a diversos nomes — entre eles o chanceler parisiense Jean Gerson e um suposto abade italiano, Giovanni Gersen, além de São Boaventura e outros.


Os estudiosos modernos, porém, reconhecem majoritariamente Tomás de Kempis como autor, apoiados sobretudo no códice autógrafo de 1441, assinado por ele. Importa distinguir: a incerteza histórica diz respeito à autoria do livro, e não à existência da pessoa — Tomás é figura sólida e bem documentada.

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