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Tertuliano

André Thevet (1584), Les vrais pourtraits et vies des hommes illustres · fonte · PD

⚡ Heresiarca
Período
160–220 (60 anos)
Lugar
Cartago
Escola
Patrística latina / apologética; depois Montanismo (Nova Profecia)
Idioma principal
Latim

Tertuliano

160–220
Pai da Teologia Latina

Tertuliano (Quintus Septimius Florens Tertullianus, Cartago, c. 155/160 — c. 220/240) foi o primeiro grande escritor, teólogo e apologista cristão de língua latina, motivo pelo qual é chamado “Pai da Teologia Latina” e “fundador da teologia ocidental”. Filho de um centurião em serviço proconsular em Cartago e formado em retórica e cultura jurídica, converteu-se já adulto, por volta de 197, e tornou-se autor de obras fundamentais como o Apologeticum, o Adversus Praxean, o De Praescriptione Haereticorum e o Adversus Marcionem. Foi ele quem forjou boa parte do vocabulário teológico latino, cunhando ou fixando termos como trinitas, persona, substantia e sacramentum, e propondo a fórmula de “três Pessoas, uma só substância” que influenciaria toda a tradição trinitária. Mais tarde, porém, aderiu ao montanismo (a “Nova Profecia”), tornou-se cada vez mais rigorista e rompeu com a Igreja, atacando o clero como “psíquico”. Por causa dessa ruptura, jamais foi venerado como santo nem reconhecido como Doutor ou Padre da Igreja no sentido estrito, ainda que suas obras ortodoxas tenham sido lidíssimas e moldado a teologia do Ocidente.

Biografia

Origem, formação e conversão

Tertuliano nasceu em Cartago, na província romana da África, por volta de 155/160 d.C. Segundo São Jerônimo, era filho de um centurião em serviço proconsular e recebeu sólida formação em retórica, literatura e cultura jurídica — domínio do direito romano que transparece em seus escritos. A tradição que o identifica com o jurista Tertullianus citado no Digesto (as Pandectas) é, contudo, disputada: a própria Catholic Encyclopedia a considera “duvidosa”, e o estudo clássico de Timothy D. Barnes a refutou, mostrando que o conhecimento jurídico de Tertuliano não excede o que se esperaria de um homem culto da época. Pagão até a vida adulta, converteu-se ao cristianismo por volta de 197, atraído — segundo ele próprio relata — pela coragem dos mártires diante da perseguição.


O apologista e teólogo de Cartago

Tornou-se o primeiro grande escritor cristão em latim, abrindo caminho para toda a teologia ocidental. Por volta de 197 escreveu o Apologeticum, endereçado aos governadores do Império, defendendo os cristãos das calúnias e injustiças de que eram alvo. Compôs ainda o De Praescriptione Haereticorum contra os gnósticos, o vasto Adversus Marcionem e o Adversus Praxean. Foi nesta última obra que fixou o vocabulário trinitário latino, falando de três Pessoas — Pai, Filho e Espírito Santo — “de uma só substância, de uma só condição e de um só poder”, e empregando termos como trinitas, persona, substantia e sacramentum que se tornariam padrão na tradição da Igreja.


A virada montanista e a ruptura

Por volta de 207 (depois de 206), Tertuliano aderiu à “Nova Profecia”, o movimento profético rigorista conhecido como montanismo, de Montano, Priscila e Maximila. Jerônimo atribui esse desvio à inveja e às afrontas do clero da igreja de Roma. Daí em diante seu rigorismo moral só cresceu, refletido em obras como o De Pudicitia, o De Monogamia, o De Ieiunio e o De Fuga in Persecutione, nas quais ataca duramente a Igreja maioritária, que chamava de “psíquica”. Segundo Santo Agostinho (De Haeresibus 86), teria depois rompido até com os montanistas e fundado uma seita própria, os tertulianistas, cujos últimos membros, em Cartago, só se reconciliaram com a Igreja católica por volta do ano 400 — embora alguns estudiosos vejam nesse grupo apenas um ramo africano do montanismo.


Últimos anos e legado

Tertuliano morreu em Cartago, em data incerta (entre c. 220 e c. 240), tendo, segundo Jerônimo, vivido até idade muito avançada. Aí está o paradoxo de sua figura: por causa do montanismo e da ruptura com a Igreja, nunca foi canonizado nem reconhecido como Padre da Igreja no sentido estrito, e o Decretum Gelasianum (séc. VI) chegou a listar suas obras entre os escritos “não recebidos” (opuscula Tertulliani apocrypha). Ainda assim, seus escritos ortodoxos foram lidíssimos e moldaram profundamente a teologia latina: Jerônimo conta que São Cipriano não passava um só dia sem ler Tertuliano e costumava pedir “dá-me o Mestre”, referindo-se a ele. Por tudo isso é justamente celebrado como o “Pai da Teologia Latina”, mesmo não figurando entre os santos.

Contexto

O contexto em que viveu

Tertuliano viveu entre os séculos II e III, quando o Império Romano atravessava o fim da dinastia dos Antoninos e a ascensão dos Severos. O imperador Cômodo, último dos Antoninos, foi assassinado em 31 de dezembro de 192; em 13 de abril de 193 as tropas proclamaram imperador Sétimo Severo (193–211), fundador de uma dinastia própria que associou ao trono o filho Caracala e cujos descendentes governaram, com breve interrupção, até 235. Nesse cenário, a África Proconsular romana — e sobretudo Cartago, sua grande metrópole — firmava-se como um vibrante centro intelectual e jurídico de língua latina, ambiente em que se formou Tertuliano, filho de um centurião a serviço do proconsulado.


Naquele tempo o cristianismo era ainda uma religião ilícita, exposta a perseguições locais e esporádicas. A África deu à Igreja alguns de seus testemunhos mais célebres: os Mártires Escilitanos, condenados à espada em 17 de julho de 180 pelo procônsul Vigélio Saturnino — cujas Atas são o documento cristão mais antigo da província da África — e, já sob Sétimo Severo, as santas Perpétua e Felicidade, martirizadas em Cartago em 7 de março de 203, depois de um rescrito imperial que proibia, sob graves penas, fazer-se cristão. Esse heroísmo dos mártires africanos é o pano de fundo que Tertuliano invoca em sua apologia.


Antes de Tertuliano, o cristianismo se exprimia sobretudo em grego. Coube a ele, de formação retórica e jurídica e de pena vigorosa, criar a própria língua teológica latina: cunhou termos e fórmulas que moldariam o pensamento do Ocidente cristão, sendo por isso considerado iniciador da teologia e da literatura cristãs em latim. São Cipriano, segundo relata São Jerônimo, não passava um dia sem ler suas obras, pedindo-as com as palavras “dá-me o mestre”.


Era também uma época de intensa efervescência doutrinal, um verdadeiro caldeirão de heresias e correntes que os Padres tiveram de refutar: o gnosticismo de Valentino, o dualismo de Marcião, e o monarquianismo modalista de Práxeas, contra quem Tertuliano escreveu. Da Frígia, na Ásia Menor, irrompera ainda a chamada “Nova Profecia” montanista, movimento profético e rigorista nascido em torno de Montano e das profetisas Priscila e Maximila, com pretensões de revelação direta do Paráclito. Foi a esse rigorismo entusiasta que Tertuliano acabou aderindo, afastando-se da comunhão da Igreja.


Tudo isso se passava numa Igreja pré-nicena, ainda sem as grandes definições dos concílios ecumênicos. A ortodoxia firmava-se pela regra de fé transmitida desde os apóstolos e pela refutação dos erros conduzida pelos Padres. É nesse mundo — de mártires, apologistas e disputas doutrinais — que se compreende a grandeza e também o drama de Tertuliano: gênio fecundo da teologia latina que, arrastado pelo seu temperamento extremado e, segundo Jerônimo, pela inveja e maus-tratos do clero romano, terminou seus dias longe da Igreja, em idade avançada, sem nunca ter sido reconhecido santo.

Fatos contextuais
Nascimento em Cartago
Quinto Setímio Florente Tertuliano nasce por volta de 155/160 em Cartago, na Áfr...
Mártires Escilitanos em Cartago
Em 17 de julho de 180, seis cristãos de Escílio são condenados à espada em Carta...
Sétimo Severo torna-se imperador
Após o assassinato de Cômodo (31 dez. 192), Lúcio Sétimo Severo é proclamado imp...
Conversão ao cristianismo e primeiras apologias
Já cristão (conversão não posterior a 197), Tertuliano compõe o Apologeticum e o...
Período católico: tratados ortodoxos
Entre c. 198 e 206 Tertuliano escreve, ainda na comunhão da Igreja, obras como D...

Suas contribuições à teologia

A teologia trinitária e o vocabulário latino

Tertuliano é reconhecido como o primeiro grande teólogo cristão latino: foi ele quem forjou boa parte do vocabulário com que o Ocidente passou a falar de Deus. Na obra Adversus Praxean (Contra Práxeas), escrita contra o modalismo de Práxeas — que confundia Pai, Filho e Espírito numa só Pessoa —, Tertuliano fixa a distinção de três Pessoas numa só substância. É o primeiro autor a usar a palavra trinitas (trindade) em latim, e a consolidar os termos persona, substantia e status.

No capítulo 2 ele afirma que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são de uma só substância, de uma só condição e de um só poder (unius substantiae et unius status et unius potestatis), distintos não em substância, mas em grau, ordem e aspecto — de modo que a unidade de Deus, longe de ser destruída, distribui a Unidade numa Trindade (unitatem in trinitatem disponit).

No campo cristológico, contra o docetismo, sustenta a realidade da carne de Cristo e a permanência das duas substâncias (naturezas) numa só Pessoa, sem confusão entre elas — uma formulação que antecipa em muito o Concílio de Calcedônia (451).


Fé e razão: Atenas e Jerusalém

Tertuliano nutria forte desconfiança da filosofia pagã, que considerava a mãe das heresias. Em De Praescriptione Haereticorum 7 lança a célebre pergunta: Que tem, pois, Atenas a ver com Jerusalém? Que concórdia há entre a Academia e a Igreja? (Quid ergo Athenis et Hierosolymis?). O critério da verdade, para ele, é a regra de fé guardada pela Igreja apostólica, e não a especulação filosófica.

A ele costuma-se atribuir o lema credo quia absurdum (creio porque é absurdo) — mas isso é apócrifo: tal frase não se encontra em seus escritos. O que ele de fato escreveu está em De Carne Christi 5: a respeito do Filho de Deus que morreu, é plenamente crível, porque é inepto (prorsus credibile est, quia ineptum est); e, sepultado, ressuscitou: é certo, porque é impossível (certum est, quia impossibile) — um paradoxo retórico contra o docetismo, não um elogio do irracional.


A alma, o testemunho da alma e o traducianismo

Em De Testimonio Animae e no Apologeticum 17, Tertuliano observa que a alma, em suas exclamações espontâneas (Deus o queira, Deus vê, Deus o pague), confessa naturalmente um só Deus, justo e juiz: Ó testemunho da alma naturalmente cristã! (O testimonium animae naturaliter christianae).

Em De Anima, porém, defende teses que a Igreja depois não seguiu: que a alma é corpórea/material (um materialismo refinado de inspiração estoica) e que ela é gerada e transmitida com o corpo a partir da alma dos pais — o traducianismo (ex traduce). A doutrina católica posterior firmou-se no criacionismo, ensinando que cada alma é criada imediatamente por Deus.


Moral rigorista e a deriva montanista

O traço mais decisivo de sua trajetória é o rigorismo moral, que o levou ao montanismo (a Nova Profecia). Tertuliano abraçou disciplina austera: jejuns severos, recusa das segundas núpcias (De Monogamia), proibição de fugir na perseguição e, sobretudo, a recusa de que a Igreja perdoasse certos pecados graves como o adultério (De Pudicitia). Entusiasmado pelo profetismo extático do Paráclito anunciado por Montano, passou a opor os espirituais aos católicos, que chamava de psíquicos (carnais). Foi assim que o rigorismo o conduziu à ruptura com a Igreja: não é santo, e sua obra deve ser lida discernindo a herança ortodoxa do desvio sectário.

"Quanto mais somos ceifados por vós, tanto mais numerosos nos tornamos: o sangue dos cristãos é semente." Apologeticum, 50
Influência

Quem ele influenciou

Criador da língua teológica latinaTertuliano é o primeiro grande escritor teológico cristão em língua latina. Inaugurou a literatura cristã latina e, como observou Bento XVI, iniciou o uso da teologia em latim, forjando o vocabulário com que o Ocidente passou a exprimir a fé. A ele se deve a cunhagem ou fixação de termos decisivos — trinitas, persona, substantia — e da fórmula de uma substância em três Pessoas, que se tornou a gramática da teologia trinitária ocidental e passou a Hilário, Ambrósio, Agostinho e à tradição latina.O Mestre de São CiprianoSão Cipriano de Cartago não passava um único dia sem ler Tertuliano, e costumava pedir ao secretário: dá-me o mestre (da magistrum), referindo-se a ele (São Jerônimo, De Viris Illustribus 53). Por esse canal — Cipriano — o pensamento de Tertuliano entrou na vida da Igreja apesar do montanismo do autor.Cristologia e TrindadeNa cristologia, falou de duas substâncias numa só Pessoa, unidas sem confusão e distintas em suas operações, preparando o vocabulário que Calcedônia consagraria. Na teologia trinitária, deu ao Ocidente a fórmula correta da Trindade.O paradoxo da sua influênciaEis o paradoxo: herege e montanista, jamais canonizado, com obras listadas como não recebidas — e, ainda assim, dos autores mais lidos e citados da Antiguidade cristã. Suas obras ortodoxas tornaram-se clássicos que moldaram a ortodoxia latina que ele próprio acabou abandonando.

Debates

Debates e controvérsias

A adesão ao montanismo e a ruptura com a Igreja

O fato mais grave da sua biografia é a passagem ao montanismo e a ruptura com a Igreja católica. Segundo São Jerônimo, foi movido pela inveja e pelas afrontas do clero da Igreja romana que ele caiu na doutrina de Montano (De Viris Illustribus 53). Bento XVI atribui o desvio a uma busca demasiado individualista da verdade, junto com o seu caráter intransigente, que pouco a pouco o afastaram da comunhão eclesial.


O rigorismo

Já montanista, mergulhou num rigorismo extremo, em conflito aberto com a Igreja psíquica (assim chamava os católicos). As principais obras desse período foram o De Pudicitia (recusa reconciliar adúlteros penitentes), o De Monogamia (condena as segundas núpcias como ilícitas), o De Fuga in Persecutione (proíbe fugir diante da perseguição) e o De Ieiunio (defende jejuns rigorosos contra a praxe da Igreja).


Os tertulianistas

Santo Agostinho (De Haeresibus 86) afirma que Tertuliano, após romper também com os próprios montanistas, fundou conventículos seus (sua conventicula propagavit), e que esse pequeno grupo sobreviveu em Cartago até reduzir-se a quase nada: os últimos remanescentes passaram para a Igreja católica e entregaram a sua basílica aos católicos. Ressalva: parte da crítica moderna duvida da existência de uma seita própria, vendo nos tertulianistas apenas o montanismo africano (ou um grupo de admiradores), por falta de outras fontes.


Por que não é santo nem Padre da Igreja em sentido estrito

Apesar do gênio, Tertuliano morreu fora da comunhão católica e nunca foi canonizado nem é contado entre os Padres da Igreja em sentido próprio. Suas obras chegaram a ser arroladas como apócrifas / não recebidas no Decretum Gelasianum (os opúsculos de Tertuliano, entre os escritos a não receber), decreto atribuído ao papa Gelásio I e fixado entre os séculos V e VI.

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