Gravura de André Thevet, Paris, 1584 (British Museum 1879,1213.105) · fonte · PD
Teodoreto de Ciro
Teodoreto de Ciro (c. 393 – c. 458/466) foi bispo de Ciro (Cirro), na Síria, teólogo da Escola de Antioquia, exegeta e um dos mais importantes historiadores eclesiásticos do cristianismo antigo, autor de uma célebre História Eclesiástica e da História dos Monges da Síria. Nascido em Antioquia e formado na tradição antioquena de Diodoro de Tarso e Teodoro de Mopsuéstia, foi um pastor zeloso, que distribuiu seus bens aos pobres, viveu como monge e, à frente de uma diocese pobre e extensa, combateu heresias e ergueu obras públicas para o seu povo. Defensor da distinção entre as duas naturezas em Cristo, envolveu-se na controvérsia cristológica contra Cirilo de Alexandria — chegando a escrever contra os doze anátemas cirilianos e a apoiar inicialmente Nestório e João de Antioquia —, o que lhe valeu a deposição no “Latrocínio” de Éfeso (449). Reabilitado, porém, no Concílio de Calcedônia (451), depois de anatematizar Nestório, morreu em comunhão com a Igreja. Um século mais tarde, na controvérsia dos Três Capítulos, o II Concílio de Constantinopla (553) condenou os seus escritos contra Cirilo — note-se: a obra, não a pessoa —, de modo que Teodoreto, embora venerado entre os Padres orientais, não é santo canonizado na Igreja latina e permanece figura controversa.
Biografia
Infância, formação e vida monástica
Teodoreto nasceu por volta de 393, em Antioquia, na Síria, então um dos grandes centros do cristianismo e da cultura grega no Oriente. Segundo a tradição registrada nas fontes antigas, seus pais eram abastados e por muito tempo sem filhos: a mãe teria sido curada de um mal nos olhos pelo monge Pedro da Galácia, e o nascimento do menino foi atribuído às orações do monge Macedônio, o “comedor de cevada”. Em sinal de gratidão, a criança foi consagrada a Deus e recebeu o nome Theodoretos, “dado por Deus”.
Educado pelos monges Macedônio e Pedro e ordenado leitor ainda jovem, Teodoreto recebeu sólida formação retórica, filosófica e teológica, marcada pela tradição da Escola de Antioquia — sobretudo pelos escritos de Diodoro de Tarso, São João Crisóstomo e Teodoro de Mopsuéstia. Conhecia o grego e o siríaco e citava com desenvoltura os autores clássicos.
Por volta dos vinte e três anos, após a morte dos pais, Teodoreto distribuiu aos pobres toda a fortuna que herdara e retirou-se para a vida monástica no mosteiro de Nicerte (Nicertai), aldeia situada a poucos quilômetros de Apameia e a cerca de setenta e cinco milhas de Antioquia, onde passou aproximadamente sete anos dedicado à oração e ao estudo.
Bispo de Ciro e ação pastoral
Por volta de 423, e muito contra a sua vontade, Teodoreto foi feito bispo de Ciro (Cirro), pequena cidade da Síria não muito distante de Antioquia, na fronteira com a Anatólia. A diocese era pobre e extensa: as fontes descrevem um território amplo que compreendia cerca de oitocentas paróquias, cada uma com a sua igreja, além de mosteiros e eremitérios, mas povoado também por muitos pagãos e hereges.
Pastor incansável, Teodoreto entregou-se à evangelização e ao combate às heresias que infestavam a região: converteu à fé católica mais de mil marcionitas e numerosos arianos e seguidores de outras seitas, e mandou recolher e destruir mais de duzentas cópias do Diatessaron de Taciano que circulavam em suas igrejas. À pregação juntou intensa ação caritativa e obras públicas em benefício do povo: sem aceitar doações e usando as rendas do episcopado, ergueu igrejas, pontes, pórticos, aquedutos e banhos para a sua cidade.
Controvérsia cristológica, deposição e reabilitação
A partir do fim de 430, Teodoreto envolveu-se na controvérsia cristológica que dividiu o Oriente. Fiel à tradição antioquena, defendia com firmeza a distinção das duas naturezas em Cristo — a divina e a humana — e tornou-se o principal expoente literário do partido antioqueno. Nesse contexto entrou em conflito aberto com Cirilo de Alexandria: escreveu uma refutação contra os doze anátemas que Cirilo dirigira a Nestório, denunciando-os como tendentes a confundir as naturezas de Cristo.
No Concílio de Éfeso (431), Teodoreto pôs-se ao lado de João de Antioquia e de Nestório, recusando-se a subscrever a condenação deste e participando do sínodo antioqueno que chegou a declarar a deposição do próprio Cirilo. Mesmo depois da reconciliação entre Cirilo e João de Antioquia (433), continuou a resistir à condenação pessoal de Nestório. Anos mais tarde, sob a pressão do partido alexandrino liderado por Dióscoro, foi deposto no chamado “Latrocínio” ou Sínodo Ladrão de Éfeso (449) e mandado recolher-se ao seu antigo mosteiro perto de Apameia.
Teodoreto, porém, apelou ao papa São Leão Magno, que declarou inválida a sua deposição. Após a morte do imperador Teodósio II, foi convocado ao Concílio de Calcedônia (451), onde, na oitava sessão, foi readmitido à plena comunhão e reconhecido entre os bispos ortodoxos depois de anatematizar Nestório — selando, assim, a sua reabilitação eclesiástica.
Últimos anos, morte e condenação póstuma dos escritos
Reabilitado em Calcedônia e reconduzido à sua sede, Teodoreto passou os últimos anos entre Ciro e o mosteiro, dedicado à escrita e ao cuidado pastoral. Morreu em comunhão com a Igreja por volta de 457/458 — embora algumas fontes estendam a data até cerca de 466 —, deixando uma vasta obra de exegese, apologética, controvérsia e, sobretudo, de história eclesiástica.
No século seguinte, contudo, seu nome voltou ao centro de uma polêmica. Na chamada controvérsia dos Três Capítulos, o imperador Justiniano promoveu a condenação de escritos de três autores antioquenos, e o II Concílio de Constantinopla (553), quinto concílio ecumênico, condenou os escritos de Teodoreto contra Cirilo de Alexandria. É importante notar que se condenaram as obras polêmicas, e não a pessoa de Teodoreto: tendo ele morrido em paz com a Igreja e sido reabilitado em Calcedônia, não foi anatematizado como herege em pessoa. Por isso Teodoreto, venerado entre os Padres do Oriente e tido como um dos grandes historiadores e teólogos da Antiguidade cristã, não é venerado como santo canonizado na Igreja latina e permanece uma figura teologicamente controversa.
O contexto em que viveu
Teodoreto de Ciro viveu no Império Romano do Oriente do século V, num tempo em que a fé cristã, já amparada pelo Estado desde Constantino, procurava traduzir em fórmulas precisas o mistério central do cristianismo: como Jesus Cristo pode ser, ao mesmo tempo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. As grandes definições de Niceia (325) sobre a divindade do Filho haviam aberto, em seguida, a questão cristológica propriamente dita — a da união, em Cristo, da natureza divina e da natureza humana —, e foi em torno dela que se travaram as batalhas teológicas que marcaram toda a vida de Teodoreto.
Essas batalhas opunham, sobretudo, duas grandes escolas teológicas. A de Antioquia, à qual Teodoreto pertencia, insistia na distinção real das duas naturezas em Cristo e praticava uma exegese de tipo literal-histórico, atenta à letra e ao contexto humano das Escrituras. A de Alexandria, por sua vez, acentuava a unidade do sujeito em Cristo — “uma só” realidade encarnada — e cultivava uma leitura alegórica e espiritual da Bíblia. Quando bem equilibradas, as duas ênfases se completavam; levadas ao extremo, geravam erros opostos: o de separar Cristo em “dois” (a tendência atribuída a Nestório) e o de confundir as naturezas numa só (o monofisismo de Êutiques).
O estopim foi a controvérsia nestoriana. Por volta de 428, Nestório, patriarca de Constantinopla e formado no ambiente antioqueno, recusou-se a chamar a Virgem Maria de Theotokos (“Mãe de Deus”, “a que gerou Deus”), preferindo Christotokos (“Mãe de Cristo”). Contra ele ergueu-se Cirilo de Alexandria, que redigiu doze anátemas em defesa do título Theotokos e da unidade de Cristo. O Concílio de Éfeso (431) condenou e depôs Nestório; mas a paz só veio com a Fórmula de União de 433, reconciliação entre Cirilo e os bispos de Antioquia, cujo texto, segundo a tradição, fora redigido pelo próprio Teodoreto. Por defender a herança antioquena e ter escrito contra os anátemas de Cirilo, Teodoreto ficou no centro exato dessas tensões.
As décadas seguintes radicalizaram o conflito. No “Latrocínio” de Éfeso (449) — sínodo dominado por Dióscoro de Alexandria e pelos partidários do monofisismo, que o papa São Leão Magno apelidou de Latrocinium (“concílio de bandidos”) —, Teodoreto foi deposto e desterrado. Dois anos depois, o Concílio de Calcedônia (451), quarto concílio ecumênico, definiu que Cristo subsiste “em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação”, condenou o monofisismo e reabilitou Teodoreto, readmitido na oitava sessão (26 de outubro de 451) após anatematizar Nestório. Um século mais tarde, porém, sob o imperador Justiniano, a tentativa de reconciliar os monofisistas reacendeu o caso: na questão dos “Três Capítulos”, o II Concílio de Constantinopla (553) condenou os escritos de Teodoreto compostos contra Cirilo e contra o primeiro Concílio de Éfeso. Reabilitado em pessoa em Calcedônia, mas com parte da obra condenada em 553, Teodoreto tornou-se a figura emblemática de toda essa época de tensões — e a razão pela qual nunca foi canonizado na Igreja Católica.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
Cristologia antioquena: as duas naturezas
Teodoreto foi o mais hábil teólogo da Escola de Antioquia na primeira metade do séc. V e o grande defensor da cristologia das duas naturezas. Contra o monofisismo, ele insistia na distinção entre a natureza divina e a natureza humana de Cristo: o Verbo permanece imutável, une-se à humanidade sem confusão e a divindade é impassível. Atribuía a Cristo uma humanidade íntegra, com consciência e psicologia humanas plenas, distinguindo cuidadosamente os conceitos de natureza (o que é comum) e de pessoa / hipóstase (o que é próprio do indivíduo).
Foi nesse contexto que se opôs ao bispo Cirilo de Alexandria. A pedido de João de Antioquia, redigiu a Refutação dos Doze Anátemas (Refutatio duodecim anathematum) contra as fórmulas de Cirilo, acusando-as de tender ao apolinarismo — isto é, de negar um intelecto humano em Cristo. Ele e os antioquenos hesitaram diante do título Theotókos (“Mãe de Deus”), temendo que confundisse as naturezas, e Teodoreto resistiu longamente à reconciliação, ainda que tenha aderido ao Ato de União de 433 entre Antioquia e Alexandria.
É preciso ser justo e preciso: o que havia de ortodoxo na sua posição — duas naturezas, divina e humana, unidas numa só pessoa — foi precisamente o que a Igreja consagrou. No Concílio de Calcedônia (451), a teologia antioquena moderada (“duas naturezas numa só pessoa e hipóstase, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação”) foi integrada à Definição de fé, ao lado do Tomo do papa Leão Magno. Teodoreto, deposto no “Latrocínio” de Éfeso (449) por influência de Dióscoro, foi reabilitado em Calcedônia — mas sob a condição de anatematizar Nestório, o que fez (segundo as atas, com reservas: dirigindo o anátema à ideia de “dois Filhos em Cristo” e à negação do Theotókos). O que foi problemático, portanto, não foi a defesa das duas naturezas em si, mas a resistência prolongada a Cirilo e a hesitação quanto ao Theotókos — uma linguagem que, levada ao extremo, beirava o nestorianismo que ele próprio acabou por condenar. Postumamente, no contexto da controvérsia dos Três Capítulos, seus escritos contra Cirilo foram anatematizados no II Concílio de Constantinopla (553) — note-se: condenaram-se aqueles escritos, não a sua pessoa, que morrera em comunhão com a Igreja.
Exegese bíblica antioquena
Como exegeta, Teodoreto é um dos maiores representantes do método histórico-literal e gramatical de Antioquia, em contraste com a alegoria da escola alexandrina. A sua interpretação situa-se num equilíbrio: a meio caminho entre o literalismo histórico de Teodoro de Mopsuéstia e uma exegese puramente espiritual, evitando os excessos de ambos os lados. Comentou quase todo o Antigo Testamento — Salmos, Cântico dos Cânticos, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel e os Profetas Menores, além das Questões sobre o Octateuco e os Reis — e as cartas de São Paulo (antes de 448). A clareza, a sobriedade e o bom senso dos seus comentários tornaram-no uma das fontes exegéticas mais lidas do Oriente cristão.
Apologética e refutação de heresias
Teodoreto deixou também uma obra apologética e polêmica de primeira ordem. A Cura das doenças gregas (Graecarum affectionum curatio), em doze livros, é tida como a última grande apologia do cristianismo da Antiguidade contra o paganismo: confronta a sabedoria grega com a verdade cristã e inclui uma defesa do culto dos mártires. Os dez Discursos sobre a Providência (De providentia) completam essa face apologética.
Contra o monofisismo de Êutiques, compôs em c. 447 o Eranistes (“O Mendigo” ou “O Colecionador de Retalhos”) — assim chamado porque os hereges, dizia ele, juntam de muitas fontes infelizes as suas doutrinas e produzem a sua colcha de retalhos. São três diálogos — o Imutável, o Inconfundível e o Impassível (Átreptos, Asýnchytos, Apathés) — sustentados por centenas de citações dos Padres, demonstrando que a divindade de Cristo é imutável, que a união das naturezas se dá sem confusão e que a divindade não padece. Por fim, o Compêndio das fábulas heréticas (Haereticarum fabularum compendium), em cinco livros, descreve com notável concisão as heresias desde os começos. A elas somam-se a História Eclesiástica, continuação de Eusébio até cerca de 428/429, e numerosas Cartas, fonte preciosa para a história do seu tempo.
"Eis o eixo do ensino deles: é como os mantos dos mendigos — uma colcha de retalhos mal-ajustados (cento de farrapos descombinados). Pois chamar a nosso Senhor Cristo apenas de Deus é o caminho de Simão, de Cerdão, de Márcion; afirmar que o Senhor Cristo tem uma só natureza, divindade e humanidade, é o erro furtado das tolices de Apolinário; e atribuir capacidade de sofrer à divindade de Cristo é um roubo da blasfêmia de Ário e de Eunômio." Eranistes (Diálogos), Prólogo
Quem ele influenciou
Historiador da Igreja e continuador de EusébioTeodoreto é uma das grandes fontes para a história da Igreja antiga. A sua História Eclesiástica (em cinco livros) continua a obra de Eusébio de Cesareia, cobrindo o período que vai do surgimento do arianismo (c. 323) até por volta de 429, e constitui, ao lado das histórias de Sócrates e de Sozômeno, um testemunho insubstituível sobre o século IV e o início do V. Compôs ainda a História Religiosa (Historia Religiosa), com as biografias de cerca de trinta ascetas célebres da Síria, fonte preciosíssima para o conhecimento do monaquismo oriental.Exegeta antioqueno e apologistaComo exegeta, Teodoreto é tido por um dos mais lúcidos representantes da Escola de Antioquia, autor de comentários aos Salmos, aos Profetas e às Epístolas de São Paulo, que preservaram e transmitiram a herança exegética antioquena. Como apologista, deixou a Cura das Doenças Gregas (Graecarum affectionum curatio), considerada a última e talvez a mais completa das apologias produzidas pela Antiguidade cristã grega em diálogo com a cultura pagã.A cristologia das duas naturezas e CalcedôniaA sua presença mais duradoura está, porém, na cristologia. Teodoreto distinguiu rigorosamente os conceitos de natureza e de pessoa para defender a integridade da humanidade de Cristo contra o monofisismo. Estudiosos sustentam hoje que a teologia antioquena — depurada da linguagem mais extrema — foi um dos caminhos que desembocaram na fórmula do Concílio de Calcedônia (451): uma só pessoa em duas naturezas, sem confusão e sem divisão. Nesse sentido, ainda que postumamente seus escritos contra Cirilo tenham sido condenados, a recepção da cristologia das duas naturezas em Calcedônia — professada hoje por católicos, ortodoxos e protestantes — guarda algo da contribuição antioquena que Teodoreto ajudou a articular.
Debates e controvérsias
1. O conflito com Cirilo de Alexandria (431–436)
Quando explodiu a controvérsia cristológica, Teodoreto pôs-se ao lado de João de Antioquia e de Nestório contra Cirilo de Alexandria. Junto com João, rogou a Nestório que não rejeitasse como herética a expressão Theotókos (“Mãe de Deus”), buscando uma via média; mas opôs-se frontalmente aos Doze Anátemas (ou Doze Capítulos) que Cirilo dirigira a Nestório, vendo neles um perigo de confundir as duas naturezas de Cristo. Por volta de 436 publicou a sua Confutação (Anatropé) dos anátemas de Cirilo, à qual o alexandrino respondeu. Estava lançada a oposição entre a cristologia antioquena de Teodoreto e a alexandrina de Cirilo.
2. A Fórmula de União de 433
Em 433, depois do tumultuado Concílio de Éfeso (431), Antioquia e Alexandria reconciliaram-se na chamada Fórmula de União — uma profissão de fé provavelmente redigida pelo próprio Teodoreto —, que João de Antioquia enviou a Cirilo e este aceitou; em troca, João consentiu na condenação de Nestório. Teodoreto, porém, relutou: não quis aderir desde logo ao acordo, pois recusava-se a condenar Nestório como Cirilo exigia. Só mais tarde entrou na união, quando a exigência de condenar pessoalmente Nestório foi atenuada. Essa fidelidade ao amigo seria a chave de toda a sua trajetória posterior.
3. O “Latrocínio” — o Sínodo Ladrão de Éfeso (449)
Reaberta a controvérsia com a crise de Êutiques e o monofisismo, reuniu-se em 449, em Éfeso, um concílio presidido por Dióscoro de Alexandria e dominado pelo partido alexandrino. Nele, com base em extratos lidos de obras de Teodoreto — entre eles uma Apologia em favor de Diodoro e Teodoro, cujo simples título bastou para a condenação —, Dióscoro pronunciou a sentença de deposição e excomunhão de Teodoreto, condenado sem audiência e mandado de volta ao seu antigo mosteiro. O Papa Leão Magno repudiou inteiramente esse concílio, cunhando-lhe o nome com que ficou conhecido — Latrocinium, o “Sínodo Ladrão” —, declarando nulos os seus atos e absolvendo os que ele condenara.
4. A reabilitação em Calcedônia (451)
No Concílio de Calcedônia (451), IV Concílio Ecumênico, Teodoreto reapareceu para ser reintegrado. Mas os bispos exigiram dele uma condição: que anatematizasse expressamente Nestório. Na sessão de 26 de outubro de 451, Teodoreto a princípio hesitou — tentou primeiro apresentar a sua profissão de fé e desviar-se do anátema pessoal ao amigo —, mas, pressionado pela assembleia que reclamava a fórmula, acabou por pronunciar o anátema contra Nestório. Há indícios de que o fez com uma reserva interior: anatematizava Nestório na medida em que este tivesse de fato ensinado os “dois Filhos em Cristo” e negado o termo Theotókos. Cumprida a condição, foi declarado ortodoxo e restituído à sua sede de Ciro.
5. Os Três Capítulos e o II Concílio de Constantinopla (553)
Cerca de um século após a sua morte, Teodoreto foi arrastado para a controvérsia dos Três Capítulos. O imperador Justiniano, querendo reconciliar os monofisitas com Calcedônia mediante uma condenação mais clara do nestorianismo, fez condenar (édito de 543/544, depois sancionado pelo concílio) três alvos: (1) a pessoa e os escritos de Teodoro de Mopsuéstia; (2) os escritos de Teodoreto contra Cirilo de Alexandria e contra o (primeiro) Concílio de Éfeso e seus Doze Capítulos; (3) a carta de Ibas de Edessa a Máris, o Persa.
O II Concílio de Constantinopla (553), V Concílio Ecumênico, sob o Papa Vigílio, condenou os Três Capítulos. É capital compreender a distinção que o próprio concílio observou: condenou-se Teodoro de Mopsuéstia em pessoa e escritos, mas, no caso de Teodoreto e de Ibas, condenaram-se apenas os ESCRITOS (no caso de Ibas, uma carta), e NÃO as suas pessoas — precisamente porque ambos haviam sido recebidos e reabilitados em Calcedônia, depois de anatematizarem Nestório. O 13º anátema de 553 condena quem defenda “os escritos ímpios de Teodoreto que foram compostos contra a verdadeira fé, contra o primeiro santo sínodo de Éfeso e contra o santo Cirilo e os seus Doze Capítulos”, sem anatematizar Teodoreto nominalmente como pessoa — diferentemente do que se fez com Teodoro de Mopsuéstia (12º anátema) e com a carta de Ibas (14º anátema).
Fontes e referências
- newadvent.org/cathen/14574b.htm
- britannica.com/biography/Theodoret-of-Cyrrhus
- newadvent.org/cathen/14707b.htm
- newadvent.org/cathen/03555a.htm
- newadvent.org/cathen/05495a.htm
- newadvent.org/cathen/05491a.htm
- papalencyclicals.net/councils/ecum05.htm
- newadvent.org/fathers/2702.htm
- newadvent.org/fathers/27021.htm
- newadvent.org/fathers/27030.htm
- newadvent.org/fathers/27031.htm
- newadvent.org/fathers/27033.htm
- newadvent.org/fathers/2707113.htm
- newadvent.org/fathers/2707145.htm
- en.wikisource.org/wiki/Nicene_and_Post-Nicene_Fathers:_Series_II/Volume_III/Theodoret/Prolegomena
- orthodoxwiki.org/Theodoret_of_Cyrrhus
- en.wikipedia.org/wiki/Theodoret
Links externos abrem em nova aba.
Outras personalidades
Encontrou algo incorreto?
Por mais que tentemos manter o conteúdo verificado e fiel às fontes, erros podem acontecer. Nos avise para que possamos verificar e corrigir.
Conheça mais pessoas.
O Codex de Personalidades cataloga as figuras da história cristã.