Autor desconhecido (iluminador do Rupertsberg Codex), séc. XII · fonte · PD
Hildegarda de Bingen
Santa Hildegarda de Bingen (em latim, Hildegardis Bingensis; nascida por volta de 1098 em Bermersheim, na Renânia, e falecida em 17 de setembro de 1179 no mosteiro de Rupertsberg, perto de Bingen) foi uma abadessa beneditina, mística e visionária, teóloga, compositora e polímata alemã, conhecida como a “Sibila do Reno”. Oblata desde a infância aos cuidados de Jutta de Sponheim no eremitério ligado ao mosteiro de Disibodenberg, recebeu visões desde menina e tornou-se magistra da comunidade após a morte de Jutta, em 1136. A partir da “grande visão” de 1141, que a ordenou a “escrever o que vê”, redigiu obras teológicas como Scivias, Liber Vitae Meritorum e Liber Divinorum Operum, além de tratados de medicina e ciências naturais (Physica, Causae et Curae) e de composições musicais reunidas na Symphonia harmoniae caelestium revelationum e no drama litúrgico Ordo Virtutum. Correspondeu-se com papas, bispos e imperadores, entre eles Frederico Barba-Ruiva, empreendeu raras viagens de pregação pela Renânia e fundou os mosteiros de Rupertsberg (por volta de 1150) e de Eibingen (1165). Teve sua veneração estendida à Igreja universal por canonização equivalente em 10 de maio de 2012 e foi proclamada Doutora da Igreja pelo papa Bento XVI em 7 de outubro de 2012, sendo a quarta mulher a receber esse título. Sua festa é celebrada em 17 de setembro.
Biografia
Infância, oblação e formação
Nascida por volta de 1098, provavelmente em Bermersheim, na Renânia, não muito longe de Alzey, Hildegarda foi a décima filha de uma família nobre. Desde a infância experimentava visões de uma luz interior que chamava de “Luz viva”. Ainda menina, por volta dos oito anos, foi confiada aos cuidados de Jutta de Sponheim, que vivia como reclusa no eremitério feminino ligado ao mosteiro beneditino de Disibodenberg. Ali Hildegarda recebeu o hábito de São Bento, fez a profissão religiosa e aprendeu a vida monástica, o canto e o latim litúrgico. Com a morte de Jutta, então magistra da comunidade, em 1136, as irmãs escolheram Hildegarda para suceder-lhe à frente do grupo de monjas.
Vida adulta e missão
Em 1141, por volta dos quarenta e dois anos, Hildegarda teve a grande visão em que, segundo seu próprio relato, uma voz do céu lhe ordenou: “escreve o que vês e ouves”. Vencendo a hesitação, começou a redigir a sua primeira e mais conhecida obra, o Scivias (“Conhece os caminhos”), que descreve as visões sobre a história da salvação, da criação ao fim dos tempos; trabalhou nela cerca de dez anos, concluindo-a por volta de 1151, auxiliada pelo monge Volmar, seu secretário e diretor espiritual, e pela jovem monja Richardis von Stade. Entre 1147 e 1148, no Sínodo de Trier, o papa Eugênio III tomou conhecimento de seus escritos, fez ler partes do Scivias e, com o apoio de São Bernardo de Claraval, autorizou-a a escrever e a falar em público. Buscando maior autonomia, Hildegarda deixou Disibodenberg e fundou, por volta de 1150, o mosteiro de Rupertsberg, perto de Bingen, e mais tarde, em 1165, um segundo mosteiro em Eibingen, na outra margem do Reno.
Pregação, obras e lutas
Caso raríssimo para uma mulher de seu tempo, Hildegarda empreendeu várias viagens de pregação pela Renânia, falando a clérigos e leigos. Manteve vasta correspondência com papas, bispos, abades, imperadores e reis, entre eles Frederico Barba-Ruiva, a quem advertiu por causa do cisma que sustentava. Além das obras teológicas Liber Vitae Meritorum e Liber Divinorum Operum (esta tida por muitos como sua obra-prima), dedicou-se à medicina e às ciências naturais, em escritos depois conhecidos como Physica e Causae et Curae, e compôs hinos, antífonas e cânticos reunidos na Symphonia harmoniae caelestium revelationum, além do drama litúrgico musicado Ordo Virtutum. No fim da vida, por volta de 1178, defendeu o sepultamento, no cemitério do mosteiro, de um jovem que morrera excomungado mas que, segundo ela, se reconciliara com a Igreja antes de morrer; por recusar-se a exumar o corpo, sua comunidade foi posta sob interdito pelas autoridades de Mainz, ficando privada da celebração da Missa e do canto do Ofício. Hildegarda defendeu firmemente sua posição, e o interdito só foi suspenso pouco antes de sua morte, em março de 1179.
Morte e legado
Hildegarda morreu em 17 de setembro de 1179, aos oitenta e um anos, no mosteiro de Rupertsberg. Logo venerada como santa, teve seu nome inscrito no Martirológio Romano, ainda que por séculos não tivesse havido um processo formal de canonização. Em 10 de maio de 2012, o papa Bento XVI estendeu o seu culto a toda a Igreja por meio de uma canonização equivalente e, em 7 de outubro de 2012, em Roma, proclamou-a Doutora da Igreja universal, fazendo dela a quarta mulher a receber esse título. Mística, teóloga, naturalista e compositora, a “Sibila do Reno” permanece uma das vozes mais originais e atuais da tradição cristã.
O contexto em que viveu
Hildegarda de Bingen viveu por todo o século XII (1098–1179), uma das épocas mais férteis e turbulentas da cristandade medieval. Sua vida transcorreu sob os desdobramentos da Reforma Gregoriana, o grande movimento de purificação iniciado no século anterior que buscava libertar a Igreja da simonia, do concubinato clerical e da interferência leiga, afirmando a liberdade da Igreja (libertas Ecclesiae) frente ao poder secular.
O auge institucional desse conflito — a Querela das Investiduras — foi selado pela Concordata de Worms, assinada em 23 de setembro de 1122, quando Hildegarda tinha cerca de vinte e quatro anos. O acordo entre o papa Calisto II e o imperador Henrique V distinguiu a investidura espiritual (anel e báculo, reservada à Igreja) da investidura temporal (cetro, concedida pelo imperador), mas não extinguiu a rivalidade de fundo entre o Império e o Papado.
Esse antagonismo voltou a explodir no Sacro Império sob a dinastia dos Hohenstaufen. Frederico I Barbarossa, eleito rei da Germânia em março de 1152 e coroado imperador pelo papa Adriano IV em 18 de junho de 1155, empenhou-se em restaurar a autoridade imperial na Itália e sobre a própria Igreja. Da morte de Adriano IV nasceu o cisma de 1159: a maioria dos cardeais elegeu Alexandre III, enquanto uma minoria, apoiada por Barbarossa, sustentou uma série de antipapas — Vítor IV, Pascoal III e Calisto III —, prolongando a divisão até 1177–1178. Hildegarda interveio nesse drama: em cartas ao imperador, repreendeu-o por favorecer o cisma, advertindo que ao sustentar antipapas punha em risco a própria alma e o reino.
Foi também o tempo do florescimento monástico na Renânia. À sombra da Regra de São Bento, prosperavam as abadias beneditinas — como Disibodenberg, onde Hildegarda foi oblata, e os mosteiros que ela própria fundou em Rupertsberg e Eibingen — enquanto a nova Ordem de Cister, impulsionada por São Bernardo de Claraval, irradiava reforma e fervor pela Europa. O vale do Reno, em torno de Bingen, era um corredor de mosteiros, sés episcopais e rotas de peregrinação no coração do Império.
Nesse mundo, a posição de Hildegarda foi excepcional. Mulher, abadessa e mística, tornou-se autora teológica reconhecida, pregadora pública — feito raríssimo para uma mulher na Idade Média — e conselheira procurada por bispos, abades, imperadores e papas. Aprovada pelo papa Eugênio III por ocasião do Sínodo de Trier (1147–1148), correspondeu-se com São Bernardo, com pontífices e com Barbarossa, exercendo uma autoridade moral e profética sem paralelo entre as mulheres de seu tempo.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
O pensamento de Santa Hildegarda de Bingen nasce inteiramente de sua experiência mística: o que ela ensina é o que afirma ter recebido em visões. Diferentemente de muitos místicos, Hildegarda descreve que via desperta e com os sentidos abertos — não em êxtase nem fora de si. A luz interior em que tudo lhe era mostrado ela chamou, na célebre carta a Guiberto de Gembloux, de umbra viventis lucis, a “sombra da Luz viva” (o reflexo da Luz vivente). Reconhecida pelo papa Eugênio III em 1147 e chamada pelos contemporâneos “profetisa teutônica”, Hildegarda entendeu essa luz como missão profética a serviço da Igreja, sempre submetida à autoridade eclesial.
No centro de sua visão está a unidade de toda a realidade. A criação é um ato de amor pelo qual o mundo emerge do nada, e o amor divino flui como um rio através de toda a gama das criaturas. O ser humano é o ápice dessa criação e, em certo sentido, a recapitula: o universo inteiro se recapitula nele, pois é formado da própria matéria da criação. Por isso o homem é um microcosmo — um pequeno mundo que reflete o grande —, ligado por uma harmonia profunda à criação e a Deus. A esse vigor vital e fecundo que percorre toda a obra criada, à frescura da graça e da vida que verdeja na natureza e na alma, Hildegarda dá o nome de viriditas (o “verdor”, a força do verde): sinal da potência criadora e curadora de Deus presente em todas as coisas.
Sua obra oferece uma síntese global da fé: nas visões ela apresenta um compêndio da história da salvação desde o princípio do universo até sua consumação escatológica — da criação e queda dos anjos e dos primeiros pais, passando pela Encarnação redentora do Filho, pela ação da Igreja que prolonga no tempo o mistério da Encarnação e pela luta contra o mal, até a vinda definitiva do Reino e o Juízo final. Na Scivias (“Conhece os caminhos”), ela resume em vinte e seis visões esses eventos e desenvolve o tema do matrimônio entre Deus e a humanidade realizado na Encarnação, com as núpcias do Filho e da Igreja sobre a árvore da Cruz.
A Igreja (Ecclesia) é, para Hildegarda, o primeiro sacramento que Deus coloca no mundo para comunicar a salvação, virgem, esposa e mãe, cujo ápice sacramental é a Eucaristia. Diante do pecado, o ser humano é descrito como peregrino, homo viator, chamado a uma luta constante para escolher o bem e evitar o mal. No Liber Vitae Meritorum (Livro dos méritos da vida), a obra se centra na relação entre virtude e vício, cuja força “deriva do Espírito Santo derramado no coração dos crentes”. A verdadeira reforma da Igreja, insistia ela, obtém-se com um sincero espírito de arrependimento e um exigente processo de conversão, e não com a mera mudança de estruturas.
No Liber Divinorum Operum (Livro das obras divinas) — tida por muitos como sua obra-prima —, Hildegarda contempla uma visão única e poderosa de Deus que dá vida ao cosmos com sua potência e sua luz, descrevendo de novo a criação em sua relação com Deus e a centralidade do ser humano, num forte cristocentrismo de sabor bíblico-patrístico. Para ela, a criação inteira é uma sinfonia do Espírito Santo, que é em si mesmo alegria e júbilo.
Daí sua teologia da música. Como Deus “fala” e sua palavra criadora gera vida, o homem é a criatura que pode responder à voz do Criador com a própria voz — in voce oris, na celebração da liturgia, e in voce cordis, por uma vida virtuosa e santa —, de modo que toda a vida humana pode ser lida como harmônica e sinfônica. O canto litúrgico recupera, assim, a harmonia paradisíaca; daí suas composições reunidas na Symphonia Harmoniae Caelestium Revelationum e o drama musical das virtudes, o Ordo Virtutum.
Por fim, Hildegarda valoriza o ser humano como unidade de corpo e alma, com uma apreciação positiva da corporeidade, pois o corpo não é peso do qual livrar-se, mas está orientado à ressurreição gloriosa. Ela reconhece, na própria estrutura da pessoa, uma relação de reciprocidade e uma igualdade substancial entre homem e mulher, e seu interesse pela medicina e pelas ciências naturais integra o corpo e o cuidado da saúde na ordem boa da criação. Bento XVI viu nela valores de extraordinária atualidade: o incentivo à pesquisa teológica, o diálogo da fé com a cultura e a ciência, a reforma da Igreja como conversão do coração e sua sensibilidade pela natureza, cujas leis devem ser salvaguardadas e não violadas.
"Ó humano frágil, cinza de cinza e podridão de podridão: dize e escreve o que vês e ouves." Scivias, Protestificatio (Declaração / Prólogo) — lat. “O homo fragilis... dic et scribe quae vides et audis” (PL 197)
Quem ele influenciou
Hildegarda exerceu uma autoridade incomum para uma mulher do século XII. Consultada e ouvida por simples fiéis, comunidades religiosas, abades, bispos, papas e autoridades civis — entre eles o imperador Frederico Barbarossa, que a recebeu em Ingelheim —, empreendeu várias viagens para pregar até em praças públicas, algo extraordinário para uma religiosa de sua época. Dela restam cerca de quatrocentas cartas, testemunho de um magistério espiritual de alcance europeu.Sua influência se estendeu à teologia, à espiritualidade da criação e à cultura. Em obras como a Scivias, o Liber Vitae Meritorum e o Liber Divinorum Operum, contemplou com profundidade o mistério da Santíssima Trindade, da Encarnação, da Igreja e da humanidade e da natureza como criação de Deus, a ser apreciada e respeitada. Foi ainda compositora de música sacra: sua Symphonia armoniae caelestium revelationum e o drama litúrgico Ordo Virtutum — uma das mais antigas peças do gênero — foram redescobertos na era moderna e hoje são amplamente executados e gravados.Venerada continuamente desde sua morte, teve o nome inscrito no Martirológio Romano e o culto celebrado em dioceses alemãs ao longo dos séculos. João Paulo II, em 1979, no oitavo centenário de sua morte, chamou-a “luz para o seu povo e o seu tempo”. Bento XVI estendeu sua veneração à Igreja universal e, em 7 de outubro de 2012, proclamou-a Doutora da Igreja universal — uma das apenas quatro mulheres assim honradas, ao lado de Santa Teresa de Ávila, Santa Catarina de Sena e Santa Teresa de Lisieux. Segundo o mesmo Pontífice, esse título tem grande significado para o mundo de hoje e extraordinária importância para as mulheres, e sua doutrina, eminente pela profundidade e pela originalidade dos pontos de vista, faz dela uma testemunha credível para a nova evangelização.
Debates e controvérsias
O longo e inacabado processo de canonização
Hildegarda esteve entre os primeiros casos a que se aplicou o processo romano de canonização, mas nenhum dos processos medievais chegou a ser concluído. Gregório IX abriu um processo de informação em 1227, mas o protocolo de milagres foi rejeitado em 1237 por insuficiência formal de documentação, e novas tentativas (Inocêncio IV, Clemente V, João XXII) também não se concluíram. Apesar de nunca ter havido uma canonização formal solene, seu culto foi reconhecido, seu nome foi inscrito no Martirológio Romano e sua festa celebrada em dioceses alemãs. Só em 2012 o papa Bento XVI estendeu sua veneração à Igreja universal (canonização equivalente, em 10 de maio) e a proclamou Doutora da Igreja (7 de outubro), resolvendo de forma definitiva a sua situação canônica.
O interdito no fim da vida (Rupertsberg, c. 1178–1179)
Nos últimos anos, Hildegarda permitiu o sepultamento, no cemitério de seu mosteiro de Rupertsberg, de um jovem que estivera sob excomunhão, mas que — segundo ela — se reconciliara com a Igreja antes de morrer. O cabido de Mainz exigiu a remoção do corpo; Hildegarda recusou-se, por entender que seria um pecado profanar a sepultura de quem morrera reconciliado, e o cabido impôs um interdito ao convento, suspendendo a Missa, os sacramentos e o canto. Após muita correspondência e firme defesa de sua parte, Hildegarda conseguiu que o interdito fosse levantado, restituindo a comunidade à plena comunhão pouco antes de sua morte, em 17 de setembro de 1179.
A autenticidade e o discernimento de suas visões
Por ser uma mulher que falava e escrevia com autoridade profética em pleno século XII, suas visões foram submetidas ao discernimento da autoridade eclesiástica. Os escritos foram examinados pelo bispo e clero de Mainz, que os declararam vindos de Deus; a questão chegou ao papa Eugênio III, em Trier (1147), que mandou investigar e, com parecer favorável, autorizou Hildegarda a redigir suas visões e a falar em público. Como ela mesma ditava em latim e permitia que seus secretários corrigissem a gramática, discute-se até hoje a medida exata da intervenção dos copistas na forma final dos textos — questão de crítica textual que não põe em causa a autenticidade reconhecida pela Igreja.
Fontes e referências
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/apost_letters/documents/hf_ben-xvi_apl_20121007_ildegarda-bingen.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/pt/apost_letters/documents/hf_ben-xvi_apl_20121007_ildegarda-bingen.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2010/documents/hf_ben-xvi_aud_20100901.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2010/documents/hf_ben-xvi_aud_20100908.html
- newadvent.org/cathen/07351a.htm
- britannica.com/biography/Saint-Hildegard
- vaticannews.va/pt/papa/news/2021-02/papa-francisco-decreto-calendario-romano-santos.html
- liturgia.pt/santos/santo_v.php?cod_santo=237
- usccb.org/prayer-worship/liturgical-year/saint-hildegard-of-bingen
- hildegard-society.org/2017/04/o-nobilissima-viriditas-responsory.html
- hildegard-society.org/2015/02/
- abtei-st-hildegard.de/hildegard-of-bingen-a-chronology-of-her-life-and-the-history-of-her-canonization/
- catholicsaints.info/saint-hildegard-von-bingen/
- de.wikipedia.org/wiki/St._Hildegard_(Eibingen
- en.wikipedia.org/wiki/Hildegard_of_Bingen
- pt.wikipedia.org/wiki/Hildegarda_de_Bingen
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