Iluminadores bizantinos do Menológio de Basílio II, Constantinopla, c. 985 · fonte · PD
Pedro de Alexandria
São Pedro de Alexandria (m. 311), também chamado Pedro I de Alexandria, foi bispo e patriarca de Alexandria de cerca de 300 a 311, sucessor de Teonas, tendo antes, segundo Filipe de Side, dirigido a célebre Escola Catequética da cidade. Pastoreou a Igreja egípcia em meio à Grande Perseguição de Diocleciano e seus sucessores, destacando-se pela misericórdia ordenada com os lapsi — fixada em sua Epístola Canônica, com penitência graduada mais branda que a de seus rivais. Combateu o cisma de Melécio de Licópolis, que durante a perseguição usurpara funções episcopais e ordenara bispos ilicitamente, convocando um sínodo (c. 306) que o depôs e excomungou; também excomungou Ário, futuro heresiarca, que aderira ao partido meleciano. Reagiu ainda ao origenismo extremado, negando a preexistência da alma. Decapitado por ordem de Maximino Daia em novembro de 311, foi o último grande mártir-bispo da perseguição em Alexandria e por isso ficou conhecido como o “Selo dos Mártires”. É venerado por católicos, coptas e ortodoxos.
Biografia
Formação e ascensão: a Escola Catequética de Alexandria
São Pedro de Alexandria, também conhecido como Pedro I, nasceu em Alexandria em data incerta, na segunda metade do século III. Segundo o testemunho de Filipe de Side, antes do episcopado dirigiu a famosa Escola Catequética de Alexandria, um dos principais centros de instrução cristã da Igreja antiga, na qual se formou e se distinguiu na pregação e no ensino. Por volta do ano 300, com a morte do bispo Teonas, foi aclamado por todo o clero e pela comunidade cristã bispo e patriarca de Alexandria, sucedendo-o à frente da Igreja egípcia.
Episcopado em Alexandria
O episcopado de Pedro coincidiu com a Grande Perseguição desencadeada por Diocleciano e prosseguida por Galério e Maximino Daia: ele, como dizem as fontes, passou perseguido quase toda a sua vida. Pastor zeloso, governou a sé alexandrina ordenando bispos e organizando a disciplina da Igreja em tempo de provação. Durante o auge da perseguição, retirou-se por algum tempo para um lugar escondido, a fim de preservar o rebanho e a própria vida — ausência que abriria espaço para a crise meleciana.
Lutas: o cisma meleciano, a questão dos lapsi e a excomunhão de Ário
Aproveitando-se do afastamento de Pedro, Melécio, bispo de Licópolis, usurpou funções patriarcais e, contra os cânones, consagrou bispos para sés que não estavam vagas, dilacerando a Igreja católica nas cidades e aldeias do Egito. Por volta do ano 306, Pedro reuniu um sínodo que depôs e excomungou Melécio; ainda assim, o cisma meleciano perduraria por séculos. Diante dos que haviam renegado a fé sob tortura, os lapsi, Pedro adotou uma penitência graduada e mais branda que a linha rigorista de Melécio, doutrina que fixou em sua Epístola Canônica (um conjunto de cânones penitenciais que se tornou marco da disciplina da Igreja primitiva). Foi também ele quem, tendo Ário aderido ao partido de Melécio, cortou o futuro heresiarca da comunhão da Igreja, anatematizando-o e excomungando-o. A tradição hagiográfica acrescenta que, em visão, Cristo lhe apareceu com a túnica rasgada — rasgada por Ário —, e que por isso o santo proibiu readmiti-lo; tal episódio, narrado na Paixão grega (os Atos de Pedro), é tradição devocional, não fato documentado. No plano doutrinal, Pedro reagiu ainda ao origenismo extremado, negando a preexistência da alma.
Martírio e legado
Em 311, durante uma visita imperial a Alexandria, Maximino Daia mandou prender o bispo de forma súbita e, sem prisão prolongada nem julgamento, ordenou que fosse decapitado. Eusébio de Cesareia, testemunha próxima dos fatos, registra que Pedro, que presidia de modo eminente as comunidades de Alexandria, divino exemplo de bispo pela excelência da vida e pelo estudo das Sagradas Escrituras, foi preso sem causa e, de improviso, decapitado como que por ordem de Maximino. A tradição refere que com ele foram também decapitados três presbíteros — Fausto, Dio (Díon) e Amônio. Por ter sido o último grande mártir-bispo da perseguição em Alexandria, Pedro ficou conhecido como o Selo dos Mártires. É venerado como santo por católicos, coptas e ortodoxos. A sua morte é situada em 25 de novembro de 311; o calendário romano celebra a sua memória em 26 de novembro, a tradição bizantina em 25 de novembro e o Sinaxário copta em 29 de Hathor.
O contexto em que viveu
O Egito romano e a sé de Alexandria por volta de 300
Por volta do ano 300, Alexandria era a segunda maior cidade do Império Romano e o coração intelectual e eclesiástico do Egito. Sua sé episcopal, fundada segundo a tradição por São Marcos, gozava de proeminência sobre todo o Egito, a Líbia e a Pentápole. A cidade abrigava a célebre Escola Catequética de Alexandria, um dos dois grandes centros de exegese bíblica e teologia da Antiguidade tardia, ao lado da Escola de Antioquia, e herdeira da obra de mestres como Panteno, Clemente de Alexandria e Orígenes. Foi nesse ambiente que Pedro, antes de ser eleito bispo, dirigiu a Escola Catequética.
A Grande Perseguição de Diocleciano
Em fevereiro de 303, no décimo nono ano de seu reinado, o imperador Diocleciano publicou éditos que ordenavam a demolição das igrejas, a queima das Escrituras Sagradas e a privação de honras e liberdade dos cristãos; éditos posteriores mandaram prender o clero e forçá-lo a sacrificar aos deuses. Foi a mais violenta e sistemática perseguição que a Igreja antiga conheceu. No Oriente e no Egito, ela se prolongou por anos sob Galério e, sobretudo, sob Maximino Daia. Eusébio de Cesareia, testemunha ocular, descreve no Egito e na Tebaida milhares de homens, mulheres e crianças suportando os mais cruéis suplícios pela fé.
Em 1.º de maio de 305, Diocleciano abdicou; Galério tornou-se Augusto do Oriente e seu sobrinho Maximino Daia foi nomeado César, recebendo o governo da Síria e do Egito. Maximino reativou a perseguição com particular ferocidade, fabricando atas anticristãs, erguendo estátuas pagãs e organizando petições de cidades pedindo a expulsão dos cristãos. Em 30 de abril de 311, já moribundo, Galério promulgou o Édito de Tolerância, concedendo aos cristãos o direito de existir e reconstruir suas igrejas; ainda assim, Maximino retomou as violências no Oriente, e foi sob suas ordens que Pedro de Alexandria foi decapitado naquele mesmo ano.
A tradição intelectual alexandrina e a reação ao origenismo
A herança de Orígenes dominava o pensamento alexandrino, mas suscitava também desconfiança quanto a alguns de seus pontos mais especulativos. Pedro de Alexandria é tido como aquele que muito provavelmente iniciou em Alexandria a reação contra o origenismo extremo, marcando uma inflexão teológica na cidade. Esse debate sobre a herança de Orígenes preparava o terreno para as grandes controvérsias cristológicas que viriam.
O cisma meleciano e o nascente arianismo
Durante a perseguição, enquanto Pedro se ocultava por segurança, irrompeu o cisma meleciano: Melécio, bispo de Licópolis, aproveitou a ausência do bispo de Alexandria para usurpar funções patriarcais e ordenar clérigos fora de sua diocese, defendendo uma linha mais rígida quanto à readmissão dos lapsi (os que haviam apostatado sob tortura). Um sínodo reunido por volta de 306 em Alexandria depôs e excomungou Melécio. Foi também nesse caldo que despontou Ário, ligado de início aos melecianos contra Pedro; segundo a tradição, o próprio Pedro anatematizou e excomungou Ário, antevendo o perigo. O arianismo — que negava a plena divindade do Filho — estouraria logo após a morte de Pedro e só seria condenado no Concílio de Niceia, em 325, já em tempos de paz da Igreja sob Constantino.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
A misericórdia com os lapsi: a penitência graduada
O coração do pensamento de Pedro de Alexandria está na sua resposta pastoral aos lapsi — os cristãos que apostataram durante a Grande Perseguição de Diocleciano. Em sua Epístola Canônica (carta pascal de c. 306), Pedro estabelece quinze cânones que aplicam uma penitência graduada segundo a culpa, não um rigor uniforme. A quem cedeu somente depois de prisão e tortura ele impõe a penitência mais branda; a quem apostatou apenas por medo, sem ter sofrido, a mais longa; e distingue ainda os que usaram de subterfúgios, os que mandaram escravos sacrificar em seu lugar e os que se entregaram temerariamente ao martírio.
Contra o rigorismo de Melécio de Licópolis — que excluía os caídos da comunhão — Pedro afirma o caminho da reconciliação e da esperança, servindo-se da parábola da figueira estéril (Lc 13) para mostrar que Deus aguarda o fruto da conversão. É uma teologia da penitência como medicina, não como condenação: a Igreja é hospital dos fracos, e a queda sob tortura não é o mesmo pecado que a apostasia covarde.
A alma não preexiste: a reação anti-origenista
Pedro foi quem iniciou em Alexandria a reação contra o origenismo extremo. No seu tratado Sobre a Alma rejeitou a doutrina de Orígenes da preexistência das almas — a ideia de que a alma teria existido e pecado antes de unir-se ao corpo — denunciando-a como herança da filosofia grega, estranha à Escritura. Para Pedro, o homem não foi formado pela junção do corpo com um tipo preexistente: alma e corpo são criados juntos por uma única operação de Deus. Assim ele defende a criação direta da alma e a unidade da pessoa humana.
Cristo, Deus por natureza e homem por natureza; a ressurreição do corpo
Nos fragmentos teológicos, Pedro confessa a integridade das duas naturezas em Cristo. No tratado Sobre a Divindade, redigido contra o subordinacionismo de matriz origenista, defende que o Verbo não abandonou a sua divindade ao fazer-se homem; e na obra sobre O Advento (a Vinda) do Salvador afirma que Ele é “Deus por natureza e homem por natureza”. Coerente com isso, no tratado Sobre a Ressurreição sustenta — de novo contra Orígenes — a identidade do corpo ressuscitado com o corpo terreno, recusando uma ressurreição meramente espiritual.
O último mestre da tradição alexandrina antes de Ário
Bispo de Alexandria de c. 300 a 311 e antes disso chefe da célebre Escola Catequética, Pedro é o último grande doutor da tradição alexandrina ortodoxa antes da crise ariana. Eusébio o chama “bispo divino, pela santidade de vida e pelo conhecimento das Sagradas Escrituras”. Sua obra marca a viragem da escola: conserva o melhor da herança de Clemente e Orígenes na exegese e no zelo doutrinal, mas corrige sobriamente as especulações origenistas sobre a alma e a ressurreição, preparando o terreno para a ortodoxia que Atanásio defenderia. Coroou o magistério com o sangue: foi decapitado em 311, mártir sob Maximino Daia.
"Convém propor a parábola da figueira que não deu fruto, como diz o Senhor: «Certo homem tinha uma figueira plantada em sua vinha; veio buscar fruto nela, e não o achou. Disse então ao que cultivava a vinha: Eis que há três anos venho buscar fruto nesta figueira, e não o encontro: corta-a; por que ocupa ainda a terra? E ele, respondendo, disse-lhe: Senhor, deixa-a ainda este ano, até que eu cave em volta dela e a estrume. E se der fruto, bem; se não, então a cortarás.» Tendo isto diante dos olhos, e mostrando frutos dignos de arrependimento, depois de tão longo intervalo de tempo, serão aproveitados." Epístola Canônica, Cânon III
Quem ele influenciou
Os cânones penitenciais no direito canônico orientalA maior herança de São Pedro de Alexandria é a sua Epístola Canônica, conjunto de cânones penitenciais sobre o tratamento dos lapsi (os que apostataram na perseguição de Diocleciano), extraídos de uma carta festal pascal de c. 306. Esses cânones foram formalmente recebidos pelo direito canônico oriental: o Concílio Quinissexto (in Trullo, 692) ratificou-os no seu Cânon II, que confirma “os cânones de Pedro, Arcebispo de Alexandria e Mártir”, colocando-os ao lado dos demais Padres e concílios cuja autoridade a Igreja do Oriente sela.Por terem entrado no corpus canônico bizantino, os cânones de Pedro foram objeto de comentário dos dois grandes canonistas do séc. XII, Teodoro Balsamão e João Zonaras, cujas glosas acompanham a Epístola Canônica nas edições tradicionais — sinal de que o texto permaneceu vivo e normativo na disciplina penitencial oriental por séculos.Modelo de disciplina misericordiosa e crítica a OrígenesOs cânones tornaram-se um modelo de disciplina graduada e misericordiosa: distinguem quem caiu sob tortura de quem cedeu sem suplício, quem se entregou de pronto de quem perseverou, dosando a penitência conforme a culpa real e abrindo caminho para a reconciliação dos arrependidos. Essa moderação contrasta com o rigorismo cismático e influenciou a tradição posterior sobre os lapsi.No plano teológico, Pedro marcou — e muito provavelmente iniciou — a reação de Alexandria contra o origenismo extremo. Na obra Sobre a Alma rejeitou a preexistência das almas ensinada por Orígenes, por considerá-la derivada da filosofia grega e estranha ao cristianismo; essa antropologia anti-origenista alimentou a crítica posterior a Orígenes.Por ter sido o último mártir da grande perseguição em Alexandria, é celebrado como o “Selo dos Mártires” na tradição alexandrina e venerado até hoje por católicos, coptas e ortodoxos.
Debates e controvérsias
O Cisma Meleciano
Durante a perseguição de Diocleciano, com Pedro escondido para escapar à prisão, Melécio, bispo de Licópolis, invadiu a jurisdição alexandrina: contra os cânones, ordenou e consagrou bispos para sés cujos titulares estavam presos pela fé, usurpando funções patriarcais. Num concílio reunido em Alexandria por volta de 306, Pedro depôs Melécio, e a ruptura — o cisma meleciano — prolongou-se por séculos, só sendo tratada de modo definitivo no Concílio de Niceia (325).
As fontes divergem sobre a raiz do conflito. Segundo Santo Epifânio, a disputa nascera de um desacordo sobre a recepção dos lapsi, com Melécio defendendo posição mais rigorosa; já os documentos melecianos primitivos (cartas de protesto de bispos egípcios e a resposta do próprio Pedro, conservadas em tradução latina) mostram que o cerne foi a autoridade para ordenar fora da própria diocese, e não a política sobre os lapsos.
A tensão entre rigorismo e misericórdia
Por trás do cisma estava a grande questão disciplinar do tempo: como reconciliar os que tinham renegado a fé sob perseguição. Pedro encarnou a via da misericórdia graduada, fixada nos seus cânones penitenciais, contra a rigidez dos que recusavam ou dificultavam a readmissão dos arrependidos.
Fontes e referências
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- newadvent.org/fathers/0620.htm
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- vaticannews.va/pt/santo-do-dia/11/25/s--pedro-de-alexandria--bispo-e-martir.html
- copticchurch.net/synaxarium/3_29.html
- st-takla.org/books/en/church/synaxarium/03-hatoor/29-hator-peter.html
- orthodoxwiki.org/Peter_of_Alexandria
- oca.org/saints/troparia/0578/11/25/103394-hieromartyr-peter-archbishop-of-alexandria
- ccel.org/ccel/peter_alexandria
- en.wikisource.org/wiki/Ante-Nicene_Fathers/Volume_VI/Peter_of_Alexandria/Introductory_Notice
- en.wikisource.org/wiki/Catholic_Encyclopedia_(1913)/St._Peter_of_Alexandria
- earlychristianwritings.com/peteralexandria.html
- britannica.com/biography/Galerius
- en.wikipedia.org/wiki/Peter_I_of_Alexandria
- fecatolica.com.br/biblia/
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