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Medalius · Codex de Personalidades · Málquio de Antioquia
Málquio de Antioquia
🏛 Padre da Igreja
Período
268–
Lugar
Antioquia
Escola
Patrística grega pré-nicena
Idioma principal
Grego

Málquio de Antioquia

268–
O Retórico de Antioquia

Málquio de Antioquia (gr. Μαλχίων; lat. Malchion) foi um presbítero e retórico cristão da Antioquia do fim do século III, que floresceu sob os imperadores Cláudio II Gótico e Aureliano (c. 268–272). Homem douto e versado nos autores pagãos, presidia a célebre escola de retórica grega de Antioquia, e foi ordenado presbítero da Igreja antioquena pela superior nobreza de sua fé em Cristo. Coube a ele o papel decisivo no Sínodo de Antioquia (c. 268) contra Paulo de Samósata, bispo daquela cidade que ensinava ser Cristo um simples homem por natureza — heresia adopcionista aparentada à de Artemon. Treinado na dialética, Málquio foi o único capaz de arrancar Paulo de seu disfarce numa disputa pública registrada por taquígrafos, que ainda existia no tempo de Eusébio, desmascarando-o como herege diante de toda a assembleia. Em nome do concílio, redigiu a carta sinodal que depôs e excomungou Paulo, endereçada a Dionísio de Roma e a Máximo de Alexandria. Figura ortodoxa e histórica da Igreja antiga, Málquio nunca foi condenado nem venerado como santo: é lembrado como o eloquente defensor da fé que confundiu o herege.

Biografia

Origem, formação e o retórico de Antioquia

Málquio (em grego Μαλχίων, em latim Malchion) viveu na Antioquia do fim do século III e floresceu sob os imperadores Cláudio II Gótico e Aureliano, isto é, por volta de 268 a 272. Era homem de grande cultura: famoso como retórico, conhecedor e leitor assíduo dos escritores pagãos, dos quais costumava extrair citações. Presidia a escola de retórica (sofística) grega de Antioquia, ocupando o cargo de diretor daquele ensino — o que Eusébio resume ao chamá-lo de "principal da escola sofística da cultura grega em Antioquia".


Presbítero da Igreja de Antioquia

Embora mestre de retórica de profissão, Málquio foi recebido entre o clero antioqueno: segundo Eusébio, "por causa da superior nobreza de sua fé em Cristo, fora feito presbítero daquela comunidade". São Jerônimo, por sua vez, descreve-o como "o eloquentíssimo presbítero da Igreja de Antioquia, que ali ensinara retórica com grande êxito".


A refutação de Paulo de Samósata no sínodo

Quando Paulo de Samósata, bispo de Antioquia, passou a sustentar doutrinas que rebaixavam a pessoa de Cristo — afirmando que, por natureza, Ele era um homem comum —, os pastores reunidos em sínodo viram nele a mesma heresia de Artemon. Paulo, porém, dissimulava suas opiniões e iludia os demais. Treinado na dialética, Málquio foi o único capaz de desmascará-lo: travou com ele uma disputa pública que foi tomada por taquígrafos e divulgada, forçando o bispo a revelar contra a vontade aquilo que cria e exibindo-o à assembleia como herege. Eusébio registra que esse debate, posto por escrito pelos estenógrafos, "ainda hoje existe", e dele Jerônimo também dá testemunho.


A carta sinodal e o legado

Condenado Paulo pelo grande concílio de bispos e presbíteros, Málquio foi escolhido para redigir, em nome do sínodo, a carta que o denunciava como herege e o depunha. O documento, endereçado a Dionísio, bispo de Roma, e a Máximo de Alexandria — e, por meio deles, a toda a Igreja católica sob o céu —, anunciava a excomunhão de Paulo e a eleição de Domno, filho do antigo bispo Demetriano, para o lugar dele. Tanto a carta sinodal quanto o registro da disputa eram ainda conhecidos nos séculos IV e V: Eusébio cita longos trechos da carta em sua História Eclesiástica, e Jerônimo inscreveu Málquio em seu catálogo dos escritores ilustres da Igreja.

Contexto

O contexto em que viveu

Antioquia e a crise do terceiro século

Málquio viveu numa época conturbada. A segunda metade do século III foi marcada pela chamada "crise do terceiro século", em que o Império Romano, abalado por invasões e usurpações, quase se desfez. No Oriente, o vazio de poder foi preenchido pela ascensão de Palmira: a rainha Zenóbia, tendo rompido com Roma, estendeu seu domínio sobre a Síria e regiões vizinhas, fazendo de Antioquia parte de seu reino separatista. Foi sob essa proteção política que Paulo de Samósata se manteve no episcopado. Além de bispo, Paulo exercia o ofício civil de ducenarius (procurador imperial) e gozava da amizade de Zenóbia, o que lhe permitiu conservar a casa episcopal de Antioquia mesmo depois de deposto.


A controvérsia monarquiana e os sínodos de Antioquia

No plano doutrinal, o conflito girava em torno da pessoa de Cristo. Paulo professava uma forma de monarquianismo dinâmico (adopcionismo): para ele, o Logos não tinha subsistência própria, sendo apenas a sabedoria e a razão de Deus, e Cristo era essencialmente um homem em quem o Verbo habitou e operou de fora, não por união substancial mas por unidade de vontade. Tal ensino, aparentado ao de Artemon (Artemas), opunha-se à cristologia do Logos da Igreja. Para enfrentá-lo, reuniram-se em Antioquia vários sínodos, provavelmente três (a primeira série por volta de 264–266), até o sínodo final de cerca de 268. Ao primeiro foi convidado Dionísio de Alexandria, impedido de comparecer pela idade e pela doença, que então enviou seu parecer por carta. Estiveram presentes Firmiliano de Cesareia da Capadócia, Gregório Taumaturgo e seu irmão Atenódoro, entre muitos outros. Firmiliano veio por duas vezes e condenou as inovações, mas, iludido pela promessa de Paulo de retratar-se, adiou a sentença; quando rumava de novo a Antioquia, morreu em Tarso.


A condenação e a resolução civil por Aureliano

Foi num sínodo final e numeroso, já sob Aureliano (a tradição reúne cerca de setenta bispos, presbíteros e diáconos, c. 268/269), que Paulo foi enfim convicto da heresia — graças à disputa conduzida por Málquio — e excomungado, sendo eleito Domno em seu lugar. Paulo, porém, recusou-se a entregar o edifício da igreja. Apelou-se então ao imperador Aureliano, que, depois de derrotar Zenóbia e retomar Antioquia em 272, decidiu com justiça que a casa fosse entregue àqueles a quem escrevessem os bispos da Itália e da cidade de Roma — reconhecendo, na prática, a comunhão com Roma como critério de legitimidade. Assim Paulo foi expulso com extrema desonra pelo poder secular, ao passo que Málquio passou à história como o defensor da fé que o desmascarara.

Fatos contextuais
Paulo de Samósata torna-se bispo de Antioquia
Após a morte de Demetriano, Paulo de Samósata recebe o episcopado de Antioquia (...
Primeiros sínodos de Antioquia contra Paulo
Bispos de todo o Oriente reúnem-se em Antioquia contra Paulo (provavelmente três...
Morte de Firmiliano de Cesareia a caminho do sínodo
Convocado novamente a Antioquia, Firmiliano de Cesareia da Capadócia chega até T...
Sínodo final depõe Paulo; Málquio o desmascara
No sínodo final de Antioquia (c. 268), Málquio — único capaz de fazê-lo — conduz...
Carta sinodal redigida por Málquio
Em nome do sínodo, Málquio redige a carta que depõe e excomunga Paulo, endereçad...

Suas contribuições à teologia

A refutação ortodoxa do psilantropismo

Málquio não foi um doutrinador com sistema próprio: seu "pensamento" é a defesa da fé da Igreja contra a heresia de Paulo de Samósata, bispo de Antioquia que sustentava uma visão "baixa e degradada" de Cristo — que "em sua natureza era um homem comum" e que "Jesus Cristo é de baixo" (de baixo, e não descido do céu). Contra esse psilantropismo (monarquianismo dinâmico, aparentado à doutrina de Artemon), Málquio defendeu a verdadeira divindade do Filho e a união substancial do Verbo em Cristo.


União segundo a substância, não por mera participação

Nos fragmentos atribuídos à disputa, o ponto central é que o Filho unigênito, existente desde toda a eternidade antes de toda criatura, foi feito substancialmente existente na pessoa do Salvador, isto é, unido a Ele segundo a substância. Cristo é apresentado como feito um, constituído por Deus o Verbo e por um corpo humano que é da semente de Davi, subsistindo sem divisão alguma entre os dois, mas em unidade. Ou seja: o Verbo habita em Cristo substancialmente, não apenas por participação ou por progresso moral, como queria Paulo — para quem o Logos era impessoal e morava no homem Jesus "como habitamos em casas".


O método: o retórico que desmascarou o dissimulador

A força de Málquio estava no método. Treinado como sofista e mestre de retórica, foi, segundo Eusébio, "o único capaz de detectar o homem que dissimulava e enganava os demais". Numa discussão pública registrada por taquígrafos, usou a dialética e o interrogatório cerrado para forçar Paulo a desvelar suas opiniões e expô-lo à assembleia como herege. Sua arma não foi um tratado, mas a arte da disputa colocada a serviço da ortodoxia.


Observação de autenticidade: os fragmentos da disputa (os "Atos") têm autenticidade discutida pela crítica moderna; a carta sinodal preservada por Eusébio é sólida.

"Durante o seu reinado realizou-se um sínodo final composto por grande número de bispos, e o líder da heresia em Antioquia foi desmascarado, e sua falsa doutrina claramente exposta diante de todos, e ele foi excomungado da Igreja Católica sob o céu." Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica VII, 29, 1 (sobre o sínodo em que Málquio atuou)
Influência

Quem ele influenciou

O registro preservado por Eusébio e JerônimoA importância histórica de Málquio se deve sobretudo à transmissão de seus escritos. Eusébio de Cesareia (História Eclesiástica VII.27–30) conservou a carta sinodal e atesta que a disputa "tomada por taquígrafos" "ainda existe". Jerônimo (De Viris Illustribus 71) repete que "este diálogo ainda existe", além da "extensa epístola escrita por ele em nome do concílio", dirigida a Dionísio e Máximo, bispos de Roma e Alexandria. Foi por esses dois testemunhos que os séculos IV e V conheceram a controvérsia.Modelo de refutação e o sínodo de Antioquia (268)Málquio tornou-se um modelo de como a ortodoxia podia desmascarar a heresia dissimulada pela via da disputa pública e do registro escrito. O Sínodo de Antioquia que depôs Paulo (c. 268) ficou na história dos concílios como precedente da deposição sinodal de um bispo herege, com carta encíclica dirigida às grandes sés e a eleição de um sucessor (Domno).Os fragmentos nas controvérsias cristológicas posterioresFragmentos atribuídos à disputa reaparecem em florilégios cristológicos dos séculos V–VI, no contexto das controvérsias sobre a união em Cristo; a discussão moderna (Loofs, Bardy, de Riedmatten, Richard, Chadwick) liga sua transmissão e redação a esse ambiente, inclusive em torno de Leôncio de Bizâncio. Por isso mesmo a crítica suspeita que parte do material foi retocada nesse período — o que limita o uso desses trechos como prova do pensamento do século III.

Debates

Debates e controvérsias

A questão do "homoousios"

A controvérsia histórica mais delicada ligada a este sínodo é o termo homoousios (consubstancial). Segundo a tradição registrada pela Catholic Encyclopedia, deve-se ter por certo que o concílio que condenou Paulo rejeitou o termo homoousios; mas, naturalmente, apenas no sentido falso usado por Paulo. O problema é que, meio século depois, o Concílio de Niceia (325) adotou exatamente esse termo — o que gerou embaraço e foi explorado pelos adversários da fé nicena no século IV.


A distinção, exposta por Atanásio (De Synodis) e Basílio, é esta: em Antioquia rejeitou-se o termo no sentido material/sabeliano que Paulo lhe dava (uma "substância comum" anterior, da qual o Pai e o Filho seriam porções, dissolvendo a distinção das pessoas); em Niceia afirmou-se o termo no sentido reto, para defender a unidade de natureza contra Ário. Os mesmos Padres combatiam erros opostos com a mesma palavra.


A autenticidade dos fragmentos da disputa

Outra controvérsia é a autenticidade dos fragmentos dos "Atos da Disputa". Enquanto a carta sinodal conservada por Eusébio é amplamente aceita, vários trechos atribuídos à disputa — sobretudo os de linguagem cristológica mais técnica — contêm vocabulário que soa anacrônico para um teólogo do século III, levantando a suspeita de redação ou interpolação posterior. Por isso esses fragmentos devem ser usados com cautela.

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