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Medalius · Codex de Personalidades · Genádio de Massília
Genádio de Massília
🏛 Padre da Igreja
Período
450–496 (46 anos)
Lugar
Marselha (Massília), Gália
Escola
Patrística latina / teologia da Gália (tendência semipelagiana)
Idioma principal
Latim (lia também o grego — bilíngue)

Genádio de Massília

450–496
Gennadius Scholasticus — o continuador de Jerônimo

Genádio de Massília (Gennadius Massiliensis), também chamado Gennadius Scholasticus, foi um presbítero (sacerdote) de Marselha, na Gália, ativo no fim do século V. Erudito bilíngue, conhecedor do latim e do grego, é célebre sobretudo por ter continuado o catálogo De viris illustribus de São Jerônimo, acrescentando cerca de cem biografias de escritores eclesiásticos dos séculos IV e V — obra que se tornou fonte indispensável da história literária cristã antiga. Suas próprias obras polêmicas (contra Nestório, Êutiques, Pelágio e as heresias em geral) hoje se perderam quase todas, mas ele as registrou na sua autobiografia, ao fim do catálogo, mencionando ainda uma carta de fé enviada ao Papa Gelásio I (492–496). As fontes apontam nele uma clara inclinação semipelagiana, em sintonia com os monges da Gália meridional. Não é santo (não tem culto público, festa nem canonização) nem foi formalmente condenado como herege: é uma personalidade histórica, escritor eclesiástico de grande valor historiográfico.

Biografia

Origem e identidade

Pouco se sabe da vida pessoal de Genádio. As fontes o apresentam apenas como presbítero (sacerdote) de Massília — a atual Marselha, na Gália —, ativo no final do século V. Ele próprio se identifica, ao fim de sua obra, como "Genádio, presbítero de Massília". Usa repetidamente, como epíteto honroso, o título "Scholasticus" ("o Escolástico", isto é, o erudito), alcunha que outros também lhe atribuíam com justiça. Era bilíngue: conhecia bem o grego além do latim, e estava familiarizado com a literatura cristã tanto do Oriente quanto do Ocidente. Data e local de seu nascimento são desconhecidos.


Atividade literária e o De viris illustribus

Seu principal título de fama é a continuação do catálogo De viris illustribus ("Sobre os homens ilustres") de São Jerônimo. Genádio acrescentou cerca de cem breves biografias de escritores eclesiásticos — gregos e latinos, ortodoxos e heréticos — ativos aproximadamente entre 392 e 495 d.C. A obra foi aceita em toda parte como segunda parte do trabalho de Jerônimo e tornou-se, para muitos autores da Antiguidade cristã, a única fonte de informação biográfica e bibliográfica. Em sua própria entrada, Genádio relaciona ainda outras obras suas, hoje em grande parte perdidas: oito livros contra todas as heresias, cinco contra Nestório, dez contra Êutiques, três contra Pelágio, tratados sobre o Milênio e o Apocalipse, e uma carta sobre a sua fé enviada ao Papa Gelásio.


Teologia e a questão semipelagiana

O exame interno de seus escritos revela nele uma tendência semipelagiana — coerente, aliás, com o ambiente da sua cidade. Genádio elogia calorosamente figuras ligadas ao semipelagianismo, como o monge João Cassiano e o bispo Fausto de Riez, e trata com reservas os defensores mais rígidos da doutrina agostiniana da graça, insistindo no livre-arbítrio. Vale notar que o próprio termo "semipelagianismo" só foi cunhado no século XVI; trata-se de um rótulo posterior aplicado às posições dos monges da Gália sobre a graça e o livre-arbítrio. Genádio não foi condenado pessoalmente, nem foi tido pela Igreja como herege.


Datação, morte e legado historiográfico

Como o Papa Gelásio, a quem Genádio diz ter escrito, reinou de 492 a 496, conclui-se que ele esteve ativo no fim do século V; a maioria das fontes situa sua morte por volta de 496, provavelmente em Marselha, embora a data exata seja desconhecida. Suas obras polêmicas perderam-se quase todas, mas a continuação do De viris illustribus garantiu-lhe lugar permanente na história: continua a ser, para numerosos autores cristãos antigos do Oriente e do Ocidente, testemunho documental insubstituível. Genádio é lembrado, assim, não como santo nem como herege, mas como um escritor eclesiástico erudito e historiograficamente precioso.

Contexto

O contexto em que viveu

Genádio viveu no fim do século V, em meio à desagregação do Império Romano do Ocidente. Na Gália meridional, onde ficava Massília (Marselha), o poder romano cedia lugar aos reinos bárbaros — visigodos e burgúndios —, num tempo de reorganização política e de continuidade da vida eclesiástica e monástica latina.


Marselha era, então, um polo monástico de primeira importância. Ali João Cassiano fundara o mosteiro de São Vítor, e nas proximidades florescia a célebre comunidade da ilha de Lérins. Esses centros formaram uma geração de monges e bispos eruditos e foram o berço da controvérsia sobre a graça que marcou a região após a morte de Santo Agostinho.


Era a chamada questão "semipelagiana": os monges da Gália — entre eles João Cassiano, depois o bispo Fausto de Riez e, em tom mais velado, Vicente de Lérins — reagiam ao que consideravam o rigor excessivo de Agostinho sobre a predestinação, atribuindo maior iniciativa ao livre-arbítrio humano no início da justificação. Por sua ligação a Marselha, esses autores ficaram conhecidos como "massilianos". A disputa só seria resolvida bem depois, no II Concílio de Orange (529).


Foi esse ambiente erudito e monástico — bilíngue em latim e grego, atento à literatura cristã do Oriente e do Ocidente — que produziu catálogos literários como o de Genádio, herdeiros diretos do gosto patrístico pela memória dos "homens ilustres" da Igreja.

Fatos contextuais
Concílio de Calcedônia
O IV Concílio Ecumênico define as duas naturezas de Cristo, condenando o monofis...
Queda do Império Romano do Ocidente
Odoacro depõe Rômulo Augústulo. Genádio escreve em plena Gália pós-romana, já so...
Atividade literária em Marselha
Genádio, presbítero de Marselha, dedica-se a uma vasta produção: tratados polêmi...
Redação do De viris illustribus
Genádio compõe a continuação do catálogo de São Jerônimo, com cerca de cem biogr...
Carta de fé ao Papa Gelásio I
Genádio envia ao Papa Gelásio I (que reinou de 492 a 496) uma epístola sobre o s...

Suas contribuições à teologia

O catálogo como historiografia da literatura cristã

O cerne intelectual de Genádio é o gênero biográfico-bibliográfico: o catálogo de "homens ilustres" como história da literatura eclesiástica. Modelando-se estritamente em São Jerônimo, redigiu breves notícias de cerca de cem escritores cristãos dos séculos IV e V, indicando para cada um a sua obra e um juízo crítico — uma cronologia da produção teológica que continua o ponto em que Jerônimo havia parado.


A ortodoxia como filtro — com viés semipelagiano

O critério organizador é a oposição entre ortodoxia e heresia: Genádio louva calorosamente os autores de tendência semipelagiana (como João Cassiano e Fausto de Riez) e chama de hereges os pelagianos plenos, ao mesmo tempo em que trata Agostinho e Próspero com reserva. O catálogo é, portanto, também uma tomada de posição teológica da Gália meridional do seu tempo.


A teologia do Liber ecclesiasticorum dogmatum

No seu tratado dogmático sobrevivente, Genádio afirma com força o livre-arbítrio do homem, mas atribui o início de todo bem à graça divina, entendida como auxílio (adjutorium) em sentido brando; evita a doutrina agostiniana do pecado original no seu rigor e recusa a predestinação. Como se costuma dizer das suas formulações, a linguagem aqui "não é bem agostiniana, mas tampouco é pelagiana".

"Eu, Genádio, presbítero de Marselha, escrevi oito livros Contra todas as heresias, cinco livros Contra Nestório, dez livros Contra Êutiques, três livros Contra Pelágio, e ainda tratados Sobre o Milênio e Sobre o Apocalipse de São João, além de uma epístola Sobre o meu credo, enviada ao bem-aventurado Gelásio, bispo de Roma." De viris illustribus, cap. 99 (ed. NPNF/Richardson)
Influência

Quem ele influenciou

Fonte historiográfica indispensávelA importância de Genádio é, antes de tudo, documental: a sua continuação do De viris illustribus preserva as notícias de dezenas de autores cristãos do século V — gregos e latinos, orientais e ocidentais — sendo, em muitos casos, o único registro sobrevivente de escritores cujas obras se perderam. Para o período posterior à História Eclesiástica de Eusébio, é uma fonte de primeira ordem.Transmissão por toda a Idade MédiaFoi a continuação de Genádio que mais favor alcançou: aceita em toda parte como segunda parte da obra de Jerônimo, foi sempre copiada (e depois impressa) junto com ela, atravessando assim toda a Idade Média e chegando ao acervo comum da patrologia.Um manual de doutrina muito difundidoO seu Liber ecclesiasticorum dogmatum circulou amplamente como compêndio de doutrina católica, durante séculos sob o nome de Santo Agostinho (e por vezes de Isidoro), exercendo influência muito além do que o seu autor real poderia supor. O conjunto faz de Genádio uma referência permanente para a história da literatura patrística.

Debates

Debates e controvérsias

A inclinação semipelagiana

A principal controvérsia em torno de Genádio é a sua adesão ao chamado semipelagianismo da Gália — a corrente teológica dos monges de Marselha e de Lérins que, embora rejeitasse o pelagianismo (condenado em Cartago, 418), considerava excessiva a doutrina agostiniana da graça preveniente, defendendo que o "início da fé" (initium fidei) podia partir do livre-arbítrio do homem, ao qual a graça vinha depois socorrer.


Essa inclinação transparece no De viris illustribus: Genádio elogia calorosamente os mestres de tendência semipelagiana João Cassiano e Fausto de Riez, ao passo que trata Santo Agostinho com frieza notável — limita-se a registrar que ele escreveu obras "tão numerosas que não podem todas ser reunidas" e termina dizendo apenas que Agostinho "permaneceu católico". Transparece ainda no De ecclesiasticis dogmatibus, onde se afirma vigorosamente o livre-arbítrio, se recusa a predestinação e se evita cuidadosamente o pecado original, reduzindo a graça a um auxílio (adjutorium) que coopera com a vontade.


Importa frisar que essa doutrina só foi condenada depois da morte de Genádio, no II Concílio de Orange (529), ratificado pelo Papa Bonifácio II. Orange afirmou a necessidade absoluta da graça preveniente, mas não condenou nenhuma pessoa pelo nome — condenou a doutrina, não os indivíduos. Genádio, falecido por volta de 496, jamais foi nomeado nem condenado.


A misatribuição do De ecclesiasticis dogmatibus

Por toda a Idade Média, o opúsculo De ecclesiasticis dogmatibus circulou como obra de Santo Agostinho (e, em outras tradições manuscritas, sob outros nomes). Só a crítica moderna o reatribuiu a Genádio, reconhecendo-o provavelmente como fragmento ou parte final dos seus perdidos "oito livros contra todas as heresias".

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