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Medalius · Codex de Personalidades · Dionísio de Alexandria
Dionísio de Alexandria
🏛 Padre da Igreja
Período
190–265 (75 anos)
Lugar
Alexandria
Estado canônico
Santo
Escola
Patrística / Escola de Alexandria
Idioma principal
Grego
Santo · Padre da Igreja

Dionísio de Alexandria

190–265
o Grande Padre da Igreja

Dionísio de Alexandria, dito o Grande, foi bispo de Alexandria (c. 248–264/265), Padre da Igreja, discípulo de Orígenes e chefe da Escola Catequética alexandrina antes do episcopado. Confessor da fé, sofreu o exílio nas perseguições de Décio e de Valeriano e morreu em paz, deixando vasta correspondência teológica que o tornou uma das maiores autoridades eclesiásticas do século III.

Biografia

Infância, formação e ascensão

Dionísio nasceu por volta do ano 190, em Alexandria, no Egito, segundo se diz de família distinta. Convertido ao cristianismo, formou-se na célebre Escola Catequética de Alexandria, onde foi discípulo do grande mestre Orígenes. Quando Orígenes foi banido por volta de 231, Heraclas assumiu a direção da escola; pouco depois, tornando-se Heraclas bispo de Alexandria, Dionísio recebeu a chefia da famosa escola, herdando assim a tradição catequética que vinha de Orígenes e de Heraclas.


Episcopado e missão principal

Por volta de 247-248, Dionísio sucedeu Heraclas como bispo de Alexandria, governando a Igreja egípcia em uma das épocas mais turbulentas do século III. Pastor incansável, dedicou-se a defender a fé contra os erros que ameaçavam o rebanho e a manter a unidade eclesial. Manteve ampla correspondência com as principais sés cristãs e cultivou o costume das cartas festais, escritos anuais pelos quais anunciava a data da Páscoa e instruía os fiéis. Sua autoridade moral e doutrinal estendeu-se muito além do Egito, fazendo dele uma referência para todo o Oriente cristão.


Perseguições e controvérsias

Na perseguição de Décio (250-251), Dionísio foi procurado por um agente do prefeito Sabino logo após a publicação do decreto. Preso e levado para Taposíris, na Mareótida, foi libertado por cristãos e permaneceu refugiado em um lugar deserto da Líbia até cessar a perseguição em 251. Anos depois, sob Valeriano (257-260), foi julgado pelo prefeito do Egito, Emiliano, e desterrado para Cefro e, em seguida, para Coluíon, na Líbia. Regressou a Alexandria quando Galieno decretou a tolerância, em 260. Durante a peste que devastou a cidade, descreveu como os cristãos cuidavam dos doentes sem temer a morte, ao contrário dos pagãos. Foi também protagonista de grandes debates de seu tempo: na controvérsia do rebatismo, buscou mediar entre Cartago e Roma, escrevendo aos papas Estêvão e Sisto II; condenou com firmeza o cisma de Novaciano; refutou com caridade o milenarismo do bispo Nepos, indo pessoalmente às aldeias do distrito de Arsinoé instruir o clero por três dias; e combateu o sabelianismo. Acusado por alguns irmãos de impropriedade na linguagem sobre a Trindade, foi questionado junto ao papa Dionísio de Roma, e respondeu compondo a obra Refutação e Defesa, professando a fé na unidade de Deus e nas três Pessoas inseparáveis.


Últimos anos e legado

Já idoso e enfermo, Dionísio foi convidado para o sínodo de Antioquia reunido contra Paulo de Samósata, mas, não podendo comparecer por causa da idade e das fraquezas, enviou por carta o seu parecer sobre a questão. Morreu por volta de 264-265, no décimo segundo ano do reinado de Galieno, depois de ter governado a Igreja de Alexandria por cerca de dezessete anos; sucedeu-lhe Máximo. Confessor da fé, jamais sofreu o martírio de sangue, mas deu o testemunho de toda uma vida marcada pelo exílio e pela perseguição. Pela grandeza de sua doutrina e de seu governo, Eusébio de Cesareia, São Basílio e outros antigos chamaram-no o Grande, e a tradição o venera como um dos Padres gregos da Igreja.

Contexto

O contexto em que viveu

O século III foi um dos períodos mais conturbados da história romana, marcado pela chamada crise do terceiro século: instabilidade política, sucessivas guerras civis, invasões nas fronteiras, colapso econômico e epidemias devastadoras. Nesse cenário, os imperadores buscaram restaurar a unidade do Império apelando à religião tradicional, o que recaiu sobre os cristãos.

Em 250, o imperador Décio ordenou que todos os habitantes do Império oferecessem sacrifícios aos deuses e obtivessem um certificado (libellus) que o comprovasse. Foi a primeira perseguição sistemática e geral contra a Igreja, gerando o doloroso problema dos lapsi — os cristãos que, por medo, apostataram ou compraram certificados — e a difícil questão pastoral de como readmiti-los à comunhão. Anos depois, em 257, o imperador Valeriano renovou a perseguição, agora visando especialmente o clero, os bispos e os bens da Igreja, exilando e executando muitos pastores até que Galieno restabelecesse a tolerância em 260.

Alexandria, no Egito, era então um dos maiores centros do mundo cristão e sede da renomada Escola Catequética, herdeira do ensino de mestres como Clemente e Orígenes, onde fé e cultura grega dialogavam intensamente. O cristianismo egípcio, vigoroso e numeroso, sofreu duramente as perseguições e foi ainda flagelado pela peste e pela guerra civil que assolaram a cidade.

Foi também uma época de intensos debates doutrinais e disciplinares: a controvérsia sobre a validade do batismo conferido por hereges, que opôs Cartago a Roma; o cisma rigorista de Novaciano a respeito dos lapsi; as interpretações milenaristas do Apocalipse; e as primeiras grandes disputas trinitárias, como o sabelianismo, que negava a distinção real das Pessoas divinas. Nesse contexto a sé de Alexandria e a sé de Roma trocaram correspondência e por vezes divergiram, antecipando as grandes definições da fé que viriam nos séculos seguintes.

Fatos contextuais
Nascimento em Alexandria (c. 190)
Dionísio nasce por volta de 190 (data aproximada), provavelmente em Alexandria,...
Chefe da Escola Catequética de Alexandria (c. 231/232)
Discípulo de Orígenes, quando Heraclas é elevado a bispo de Alexandria, Dionísio...
Eleito bispo de Alexandria (c. 247/248)
Após a morte de Heraclas, Dionísio recebe o episcopado de Alexandria. Eusébio o...
Tumulto anticristão em Alexandria
No último ano do imperador Filipe (249), antes do edito de Décio, um motim popul...
Edito de perseguição de Décio
O imperador Décio institui em janeiro de 250 a primeira perseguição legal e gera...

Suas contribuições à teologia

Discípulo de Orígenes e chefe da Escola Catequética de Alexandria, Dionísio uniu o rigor intelectual da tradição alexandrina a um notável senso pastoral. Em sua obra Sobre a Natureza (Περὶ Φύσεως), dedicada ao filho Timóteo, refutou o atomismo de Epicuro: mostrou, por uma série de analogias tiradas da obra humana, que o universo ordenado não pode ser fruto do mero concurso fortuito de átomos lançados no espaço, mas exige um Autor inteligente.

No campo trinitário, combatendo o sabelianismo na Pentápole, insistiu de tal modo na distinção real entre o Pai e o Filho que algumas de suas expressões fortes foram denunciadas em Roma como tendentes ao triteísmo ou ao subordinacionismo. Em sua Refutação e Defesa, esclareceu sua ortodoxia, afirmando que nunca houve tempo em que Deus não fosse Pai e que o Filho lhe é coeterno, servindo-se inclusive do termo consubstancial (homoousios) e antecipando a linguagem do Concílio de Niceia.

Foi também um dos pioneiros da crítica histórico-literária da Escritura: examinando o vocabulário, o estilo e as construções do Apocalipse em comparação com o Evangelho e a Epístola de João, concluiu, com reverência, que o livro era obra de um homem santo e inspirado chamado João, mas não do apóstolo evangelista — observando que havia em Éfeso dois túmulos, ambos com o nome de João.

Na pastoral, adotou postura moderada e conciliadora: diante dos lapsi (os que apostataram na perseguição), deu peso à intercessão dos mártires e não negou o perdão a ninguém na hora da morte; na questão do rebatismo, seguiu o costume romano de não rebatizar os convertidos da heresia, mediando entre Roma e Cartago. Por fim, refutou o milenarismo literalista de Nepos na obra Sobre as Promessas.

"A maioria dos nossos irmãos, em seu imenso amor e afeto fraterno, não se poupava; mantinham-se unidos uns aos outros, visitavam os doentes sem temor e os serviam sem cessar em Cristo, e com eles morriam alegríssimos, tomando sobre si o sofrimento alheio, atraindo a doença do próximo para si mesmos e recebendo de bom grado as suas dores. E muitos, depois de cuidar dos enfermos e dar forças aos outros, morreram eles próprios, transferindo para si a morte alheia." Eusébio, Hist. Ecl. VII, 22
Influência

Quem ele influenciou

Eusébio de Cesareia e outros Padres conferiram-lhe o epíteto de o Grande. A Enciclopédia Católica afirma que foi, depois de São Cipriano, o bispo mais eminente do século III e a maior autoridade do Oriente cristão em seu tempo: durante o cisma novaciano, foi em grande parte por sua influência que todo o Oriente, após muita perturbação, foi em poucos meses reconduzido à unidade.Sua autoridade projetou-se decisivamente na controvérsia ariana do século seguinte. Tanto os arianos, que o reivindicavam como precursor por suas expressões sobre a distinção do Filho, quanto os ortódoxos o citaram; Santo Atanásio escreveu a obra Sobre a Opinião de Dionísio (De sententia Dionysii) precisamente para demonstrar que ele, longe de favorecer Ário, era contrário à heresia, em consonância com o Concílio de Niceia.É reconhecido ainda como um dos pioneiros da crítica bíblica, por sua análise da autoria do Apocalipse, e sua moderação pastoral diante dos lapsi e do rebatismo tornou-se referência de prudência eclesial. Como quase toda a sua obra se perdeu, sobrevive sobretudo nas extensas citações preservadas por Eusébio na História Eclesiástica (livros VI e VII).

Debates

Debates e controvérsias

Controvérsia do rebatismo (c. 256)

Quando se discutiu se os hereges convertidos deviam ser rebatizados, Dionísio interveio como mediador entre Roma e Cartago. Seguindo o costume romano de não rebatizar, escreveu várias cartas — entre elas ao papa Estêvão e ao papa Sisto II — suplicando que Roma não rompesse a comunhão com as Igrejas da Ásia por causa dessa questão, e favorecendo uma atitude conciliadora.

Cisma novaciano e os lapsi

Diante da perseguição de Décio e do problema dos lapsi, Dionísio apoiou o papa Cornélio contra Novaciano. Escreveu ao próprio Novaciano instando-o à unidade, sugerindo que provasse a sua sinceridade retirando-se voluntariamente do cisma e afirmando que valeria a pena até o martírio para impedir a divisão da Igreja. Sua mediação foi decisiva para reconduzir o Oriente à unidade.

Milenarismo de Nepos

Contra o quiliasmo (milenarismo) do bispo Nepos, que, por uma leitura literal do Apocalipse, prometia um reino terreno de gozos materiais, Dionísio escreveu a obra Sobre as Promessas. No distrito de Arsinoé conduziu um diálogo pastoral de três dias com os presíteros e mestres locais; Coracion, que difundira a doutrina, reconheceu-se convencido e declarou que não mais a sustentaria, reconciliando-se a comunidade.

Controvérsia sabeliana e trinitária

Combatendo o sabelianismo na Pentápole, Dionísio sublinhou tão fortemente a distinção entre o Pai e o Filho que algumas de suas expressões foram denunciadas ao papa Dionísio de Roma como tendentes ao triteísmo ou ao subordinacionismo. O bispo de Roma reuniu um sínodo (c. 260) que condenou tanto o sabelianismo quanto a divisão da Mônada em três deuses e a doutrina do Filho como criatura. Dionísio de Alexandria não foi condenado: respondeu com a obra Refutação e Defesa, esclarecendo que afirmava o Filho coeterno ao Pai e aceitava o sentido de consubstancial, e queixando-se da calúnia de que teria rejeitado esse termo. Foi vindicado, e Santo Atanásio o defendeu expressamente em De sententia Dionysii.

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