Dionísio de Alexandria
Dionísio de Alexandria, dito o Grande, foi bispo de Alexandria (c. 248–264/265), Padre da Igreja, discípulo de Orígenes e chefe da Escola Catequética alexandrina antes do episcopado. Confessor da fé, sofreu o exílio nas perseguições de Décio e de Valeriano e morreu em paz, deixando vasta correspondência teológica que o tornou uma das maiores autoridades eclesiásticas do século III.
Biografia
Infância, formação e ascensão
Dionísio nasceu por volta do ano 190, em Alexandria, no Egito, segundo se diz de família distinta. Convertido ao cristianismo, formou-se na célebre Escola Catequética de Alexandria, onde foi discípulo do grande mestre Orígenes. Quando Orígenes foi banido por volta de 231, Heraclas assumiu a direção da escola; pouco depois, tornando-se Heraclas bispo de Alexandria, Dionísio recebeu a chefia da famosa escola, herdando assim a tradição catequética que vinha de Orígenes e de Heraclas.
Episcopado e missão principal
Por volta de 247-248, Dionísio sucedeu Heraclas como bispo de Alexandria, governando a Igreja egípcia em uma das épocas mais turbulentas do século III. Pastor incansável, dedicou-se a defender a fé contra os erros que ameaçavam o rebanho e a manter a unidade eclesial. Manteve ampla correspondência com as principais sés cristãs e cultivou o costume das cartas festais, escritos anuais pelos quais anunciava a data da Páscoa e instruía os fiéis. Sua autoridade moral e doutrinal estendeu-se muito além do Egito, fazendo dele uma referência para todo o Oriente cristão.
Perseguições e controvérsias
Na perseguição de Décio (250-251), Dionísio foi procurado por um agente do prefeito Sabino logo após a publicação do decreto. Preso e levado para Taposíris, na Mareótida, foi libertado por cristãos e permaneceu refugiado em um lugar deserto da Líbia até cessar a perseguição em 251. Anos depois, sob Valeriano (257-260), foi julgado pelo prefeito do Egito, Emiliano, e desterrado para Cefro e, em seguida, para Coluíon, na Líbia. Regressou a Alexandria quando Galieno decretou a tolerância, em 260. Durante a peste que devastou a cidade, descreveu como os cristãos cuidavam dos doentes sem temer a morte, ao contrário dos pagãos. Foi também protagonista de grandes debates de seu tempo: na controvérsia do rebatismo, buscou mediar entre Cartago e Roma, escrevendo aos papas Estêvão e Sisto II; condenou com firmeza o cisma de Novaciano; refutou com caridade o milenarismo do bispo Nepos, indo pessoalmente às aldeias do distrito de Arsinoé instruir o clero por três dias; e combateu o sabelianismo. Acusado por alguns irmãos de impropriedade na linguagem sobre a Trindade, foi questionado junto ao papa Dionísio de Roma, e respondeu compondo a obra Refutação e Defesa, professando a fé na unidade de Deus e nas três Pessoas inseparáveis.
Últimos anos e legado
Já idoso e enfermo, Dionísio foi convidado para o sínodo de Antioquia reunido contra Paulo de Samósata, mas, não podendo comparecer por causa da idade e das fraquezas, enviou por carta o seu parecer sobre a questão. Morreu por volta de 264-265, no décimo segundo ano do reinado de Galieno, depois de ter governado a Igreja de Alexandria por cerca de dezessete anos; sucedeu-lhe Máximo. Confessor da fé, jamais sofreu o martírio de sangue, mas deu o testemunho de toda uma vida marcada pelo exílio e pela perseguição. Pela grandeza de sua doutrina e de seu governo, Eusébio de Cesareia, São Basílio e outros antigos chamaram-no o Grande, e a tradição o venera como um dos Padres gregos da Igreja.
O contexto em que viveu
O século III foi um dos períodos mais conturbados da história romana, marcado pela chamada crise do terceiro século: instabilidade política, sucessivas guerras civis, invasões nas fronteiras, colapso econômico e epidemias devastadoras. Nesse cenário, os imperadores buscaram restaurar a unidade do Império apelando à religião tradicional, o que recaiu sobre os cristãos.
Em 250, o imperador Décio ordenou que todos os habitantes do Império oferecessem sacrifícios aos deuses e obtivessem um certificado (libellus) que o comprovasse. Foi a primeira perseguição sistemática e geral contra a Igreja, gerando o doloroso problema dos lapsi — os cristãos que, por medo, apostataram ou compraram certificados — e a difícil questão pastoral de como readmiti-los à comunhão. Anos depois, em 257, o imperador Valeriano renovou a perseguição, agora visando especialmente o clero, os bispos e os bens da Igreja, exilando e executando muitos pastores até que Galieno restabelecesse a tolerância em 260.
Alexandria, no Egito, era então um dos maiores centros do mundo cristão e sede da renomada Escola Catequética, herdeira do ensino de mestres como Clemente e Orígenes, onde fé e cultura grega dialogavam intensamente. O cristianismo egípcio, vigoroso e numeroso, sofreu duramente as perseguições e foi ainda flagelado pela peste e pela guerra civil que assolaram a cidade.
Foi também uma época de intensos debates doutrinais e disciplinares: a controvérsia sobre a validade do batismo conferido por hereges, que opôs Cartago a Roma; o cisma rigorista de Novaciano a respeito dos lapsi; as interpretações milenaristas do Apocalipse; e as primeiras grandes disputas trinitárias, como o sabelianismo, que negava a distinção real das Pessoas divinas. Nesse contexto a sé de Alexandria e a sé de Roma trocaram correspondência e por vezes divergiram, antecipando as grandes definições da fé que viriam nos séculos seguintes.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
Discípulo de Orígenes e chefe da Escola Catequética de Alexandria, Dionísio uniu o rigor intelectual da tradição alexandrina a um notável senso pastoral. Em sua obra Sobre a Natureza (Περὶ Φύσεως), dedicada ao filho Timóteo, refutou o atomismo de Epicuro: mostrou, por uma série de analogias tiradas da obra humana, que o universo ordenado não pode ser fruto do mero concurso fortuito de átomos lançados no espaço, mas exige um Autor inteligente.
No campo trinitário, combatendo o sabelianismo na Pentápole, insistiu de tal modo na distinção real entre o Pai e o Filho que algumas de suas expressões fortes foram denunciadas em Roma como tendentes ao triteísmo ou ao subordinacionismo. Em sua Refutação e Defesa, esclareceu sua ortodoxia, afirmando que nunca houve tempo em que Deus não fosse Pai e que o Filho lhe é coeterno, servindo-se inclusive do termo consubstancial (homoousios) e antecipando a linguagem do Concílio de Niceia.
Foi também um dos pioneiros da crítica histórico-literária da Escritura: examinando o vocabulário, o estilo e as construções do Apocalipse em comparação com o Evangelho e a Epístola de João, concluiu, com reverência, que o livro era obra de um homem santo e inspirado chamado João, mas não do apóstolo evangelista — observando que havia em Éfeso dois túmulos, ambos com o nome de João.
Na pastoral, adotou postura moderada e conciliadora: diante dos lapsi (os que apostataram na perseguição), deu peso à intercessão dos mártires e não negou o perdão a ninguém na hora da morte; na questão do rebatismo, seguiu o costume romano de não rebatizar os convertidos da heresia, mediando entre Roma e Cartago. Por fim, refutou o milenarismo literalista de Nepos na obra Sobre as Promessas.
"A maioria dos nossos irmãos, em seu imenso amor e afeto fraterno, não se poupava; mantinham-se unidos uns aos outros, visitavam os doentes sem temor e os serviam sem cessar em Cristo, e com eles morriam alegríssimos, tomando sobre si o sofrimento alheio, atraindo a doença do próximo para si mesmos e recebendo de bom grado as suas dores. E muitos, depois de cuidar dos enfermos e dar forças aos outros, morreram eles próprios, transferindo para si a morte alheia." Eusébio, Hist. Ecl. VII, 22
Quem ele influenciou
Eusébio de Cesareia e outros Padres conferiram-lhe o epíteto de o Grande. A Enciclopédia Católica afirma que foi, depois de São Cipriano, o bispo mais eminente do século III e a maior autoridade do Oriente cristão em seu tempo: durante o cisma novaciano, foi em grande parte por sua influência que todo o Oriente, após muita perturbação, foi em poucos meses reconduzido à unidade.Sua autoridade projetou-se decisivamente na controvérsia ariana do século seguinte. Tanto os arianos, que o reivindicavam como precursor por suas expressões sobre a distinção do Filho, quanto os ortódoxos o citaram; Santo Atanásio escreveu a obra Sobre a Opinião de Dionísio (De sententia Dionysii) precisamente para demonstrar que ele, longe de favorecer Ário, era contrário à heresia, em consonância com o Concílio de Niceia.É reconhecido ainda como um dos pioneiros da crítica bíblica, por sua análise da autoria do Apocalipse, e sua moderação pastoral diante dos lapsi e do rebatismo tornou-se referência de prudência eclesial. Como quase toda a sua obra se perdeu, sobrevive sobretudo nas extensas citações preservadas por Eusébio na História Eclesiástica (livros VI e VII).
Debates e controvérsias
Controvérsia do rebatismo (c. 256)
Quando se discutiu se os hereges convertidos deviam ser rebatizados, Dionísio interveio como mediador entre Roma e Cartago. Seguindo o costume romano de não rebatizar, escreveu várias cartas — entre elas ao papa Estêvão e ao papa Sisto II — suplicando que Roma não rompesse a comunhão com as Igrejas da Ásia por causa dessa questão, e favorecendo uma atitude conciliadora.
Cisma novaciano e os lapsi
Diante da perseguição de Décio e do problema dos lapsi, Dionísio apoiou o papa Cornélio contra Novaciano. Escreveu ao próprio Novaciano instando-o à unidade, sugerindo que provasse a sua sinceridade retirando-se voluntariamente do cisma e afirmando que valeria a pena até o martírio para impedir a divisão da Igreja. Sua mediação foi decisiva para reconduzir o Oriente à unidade.
Milenarismo de Nepos
Contra o quiliasmo (milenarismo) do bispo Nepos, que, por uma leitura literal do Apocalipse, prometia um reino terreno de gozos materiais, Dionísio escreveu a obra Sobre as Promessas. No distrito de Arsinoé conduziu um diálogo pastoral de três dias com os presíteros e mestres locais; Coracion, que difundira a doutrina, reconheceu-se convencido e declarou que não mais a sustentaria, reconciliando-se a comunidade.
Controvérsia sabeliana e trinitária
Combatendo o sabelianismo na Pentápole, Dionísio sublinhou tão fortemente a distinção entre o Pai e o Filho que algumas de suas expressões foram denunciadas ao papa Dionísio de Roma como tendentes ao triteísmo ou ao subordinacionismo. O bispo de Roma reuniu um sínodo (c. 260) que condenou tanto o sabelianismo quanto a divisão da Mônada em três deuses e a doutrina do Filho como criatura. Dionísio de Alexandria não foi condenado: respondeu com a obra Refutação e Defesa, esclarecendo que afirmava o Filho coeterno ao Pai e aceitava o sentido de consubstancial, e queixando-se da calúnia de que teria rejeitado esse termo. Foi vindicado, e Santo Atanásio o defendeu expressamente em De sententia Dionysii.
Fontes e referências
- newadvent.org/cathen/05011a.htm
- newadvent.org/fathers/250106.htm
- newadvent.org/fathers/250107.htm
- newadvent.org/fathers/2810.htm
- britannica.com/biography/Saint-Dionysius-of-Alexandria
- encyclopedia.com/religion/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/dionysius-alexandria-st
- en.wikisource.org/wiki/Catholic_Encyclopedia_(1913)/Dionysius_of_Alexandria
- en.wikisource.org/wiki/Ante-Nicene_Fathers/Volume_VI/Dionysius/Extant_Fragments/Containing_Epistles,_or_Fragments_of_Epistles
- gutenberg.org/files/36539/36539-h/36539-h.htm
- catholic.com/encyclopedia/dionysius-of-alexandria
- catholicculture.org/commentary/church-fathers-lesser-alexandrians/
- en.wikipedia.org/wiki/Dionysius_of_Alexandria
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