Cirilo de Jerusalém
São Cirilo de Jerusalém (c. 315–386) foi bispo de Jerusalém, Padre da Igreja grego e Doutor da Igreja, proclamado por Leão XIII em 1883. É célebre por suas Catequeses, conjunto de instruções batismais e mistagógicas pregadas na Basílica do Santo Sepulcro, precioso testemunho da fé e da liturgia da Igreja do século IV. Defensor da ortodoxia durante a crise ariana, sofreu três exílios ao longo de seu episcopado.
Biografia
Infância, formação e início
Cirilo nasceu por volta de 315, em Jerusalém ou em seus arredores. Recebeu sólida formação literária e bíblica, que se tornaria o fundamento de sua atividade eclesiástica. Foi ordenado presbítero pelo bispo Máximo de Jerusalém, seu predecessor, e a ele foi confiado o importante ministério de catequista, isto é, a instrução dos que se preparavam para o Batismo. Esse encargo revelou desde cedo o dom pedagógico e doutrinal que marcaria toda a sua obra.
Episcopado e missão principal
Por volta de 348 (alguns autores indicam c. 350), Cirilo tornou-se bispo de Jerusalém, sucedendo a Máximo. Como pastor, dedicou-se com zelo à formação cristã de sua comunidade. É dessa época sua obra mais célebre: as Catequeses, conjunto de instruções pregadas por volta de 350. As dezoito catequeses pré-batismais eram dirigidas aos catecúmenos durante a Quaresma, na Basílica do Santo Sepulcro, em preparação ao Batismo; as cinco últimas, chamadas mistagógicas, eram ministradas na semana da Páscoa aos recém-batizados, explicando-lhes os sacramentos da iniciação cristã. Pregadas no próprio lugar da Paixão e Ressurreição do Senhor, essas catequeses unem profundidade doutrinal e cuidado pastoral, e permanecem um documento de valor inestimável sobre a fé e a liturgia do século IV.
Lutas e exílios (controvérsia ariana)
O episcopado de Cirilo transcorreu em pleno auge da crise ariana. Muito cedo entrou em conflito com Acácio de Cesareia, influente metropolita de tendência ariana, tanto no campo da doutrina quanto no da jurisdição, pois Cirilo reivindicava a autonomia da sé de Jerusalém em relação à sé metropolitana de Cesareia. Esses atritos lhe custaram três exílios: o primeiro em 357, na sequência de um sínodo — entre as acusações figurava a de ter vendido bens da Igreja, segundo seus defensores para socorrer os pobres durante uma fome; o segundo em 360, por iniciativa de Acácio; e o terceiro a partir de 367, sob o imperador Valente, o mais longo, que durou cerca de onze anos. Somente em 378, após a morte do imperador, Cirilo pôde retomar definitivamente posse de sua sé. Atribui-se ainda a Cirilo o relato, numa carta ao imperador Constâncio II, do aparecimento de uma cruz luminosa sobre o Gólgota, em 351, vista por toda a cidade de Jerusalém.
Últimos anos e legado
Reconduzido à sua sé, Cirilo participou do Concílio de Constantinopla, em 381, onde sua ortodoxia foi plenamente reconhecida; uma carta sinodal posterior atestou oficialmente a sua fé íntegra. Morreu em Jerusalém em 386 (segundo outros, 387), depois de um episcopado de cerca de trinta e cinco anos, marcado por três exílios que o mantiveram longos anos afastado de sua sé. Em 1883, o Papa Leão XIII proclamou-o Doutor da Igreja. Seu legado vive sobretudo nas Catequeses, que continuam a iluminar a compreensão dos sacramentos da iniciação cristã e a riqueza da liturgia da Igreja antiga. Sua festa é celebrada em 18 de março.
O contexto em que viveu
São Cirilo de Jerusalém viveu o conturbado século IV, a época em que o cristianismo passou de fé perseguida a religião favorecida e, por fim, oficial do Império Romano. O Édito de Milão (313), pelo qual Constantino e Licínio concederam liberdade de culto aos cristãos, inaugurou a chamada “paz constantiniana” e abriu o caminho para a profunda integração entre a Igreja e o poder imperial que marcaria todo o período.
Jerusalém, cidade de Cirilo, vivia um renascimento. Sob o patrocínio de Constantino e de sua mãe, Santa Helena, ergueu-se sobre o Gólgota e o Santo Sepulcro a grande Basílica da Ressurreição (Anástasis), dedicada em 335. A cidade tornou-se um dos maiores centros de peregrinação da cristandade, e foi precisamente nessa basílica que Cirilo, já bispo, pronunciaria por volta de 350 as suas célebres Catequeses aos que se preparavam para o Batismo.
O cenário teológico, porém, estava dilacerado pela crise ariana. O Concílio de Niceia (325) havia condenado Ário e definido que o Filho é “consubstancial” (homooúsios) ao Pai, mas a controvérsia não se apaziguou: ao longo de décadas multiplicaram-se os partidos — arianos radicais, semiarianos e os que preferiam a fórmula “semelhante” (homoioúsios) — em meio a sucessivos sínodos, deposições e reabilitações de bispos.
A essas disputas somava-se a constante interferência imperial nos assuntos da Igreja. O imperador Constâncio II, favorável aos arianos, promoveu a deposição de bispos nicenos; Juliano, o Apóstata, tentou restaurar o paganismo e até reconstruir o Templo judaico de Jerusalém (362-363), num gesto frustrado; Valente, também filoariano, perseguiu os bispos ortodoxos; e Teodósio, enfim, fez do cristianismo niceno a religião oficial do Império pelo Édito de Tessalônica (380).
É nesse mundo que se compreende a vida de Cirilo: pastor de Jerusalém, foi arrastado pelas tempestades doutrinais e políticas do seu tempo, sofrendo três exílios por causa das facções arianas e da interferência imperial. Sua plena ortodoxia foi finalmente reconhecida no Primeiro Concílio de Constantinopla (381), que confirmou e completou a fé de Niceia — concílio do qual o próprio Cirilo participou, pouco antes de sua morte, por volta de 386.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
O coração do pensamento de São Cirilo de Jerusalém é a iniciação cristã entendida como um caminho orgânico: catecumenato, batismo, crisma (unção com o santo crisma) e Eucaristia. Bispo de Jerusalém, ele compôs por volta de 350 um corpo de catequeses — uma Procatequese, dezoito catequeses pré-batismais dirigidas aos photizómenoi (“os que vão ser iluminados”, os candidatos ao batismo) e cinco Catequeses Mistagógicas dirigidas aos recém-batizados na semana da Páscoa.
Sua contribuição mais característica é o método mistagógico: explicar os mistérios depois de recebidos. Reservando a explicação plena dos sacramentos ao tempo pascal, Cirilo conduz o neófito “do visível ao invisível, do sinal à coisa significada, dos ‘sacramentos’ aos ‘mistérios’” — princípio que o próprio Catecismo da Igreja Católica recolhe ao definir a catequese litúrgica como mistagogia (CIC 1075).
No campo eucarístico, Cirilo é um dos testemunhos antigos mais explícitos da presença real e da conversão dos dons. Ensina que, pela invocação do Espírito Santo, o pão se faz Corpo de Cristo e o vinho Sangue de Cristo, de modo que “o que parece pão não é pão, ainda que ao paladar o pareça, mas o Corpo de Cristo”, e os fiéis recebem não pão e vinho, mas o Corpo e o Sangue de Cristo. Daí a célebre recomendação de cuidar de cada partícula consagrada como de algo “mais precioso que o ouro e as pedras preciosas”.
Cirilo é igualmente mestre da fé batismal e do Credo: boa parte das catequeses pré-batismais é um comentário artigo por artigo do Símbolo da fé de Jerusalém. Em matéria trinitária, embora inicialmente reticente quanto ao termo homooúsios (“consubstancial”) de Niceia, defendeu firmemente a divindade do Filho contra os arianos, ensinando que o Filho é “em tudo semelhante ao Pai”; ao fim da vida aceitou formalmente o homooúsios e foi reconhecido plenamente ortodoxo.
"Considera, pois, o Pão e o Vinho não como elementos comuns, pois são, segundo a declaração do Senhor, o Corpo e o Sangue de Cristo; ainda que os sentidos to sugiram, que a fé te confirme. Não julgues a coisa pelo paladar, mas pela fé tem plena certeza, sem hesitação, de que te foram dados o Corpo e o Sangue de Cristo." Catequese Mistagógica IV, 6
Quem ele influenciou
As Catequeses de São Cirilo são uma fonte primária insubstituível para a história da liturgia, dos sacramentos e do Credo na Igreja de Jerusalém do século IV. Oferecem um dos relatos mais completos dos ritos da iniciação cristã da Antiguidade — batismo, crismação e celebração eucarística — e um testemunho de primeira ordem sobre a fé na presença real e sobre a estrutura da liturgia eucarística (com a epiclese e a intercessão).Cirilo é considerado o “doutor da catequese” por excelência: foi proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Leão XIII em 1883. Sua pedagogia mistagógica moldou a tradição catequética posterior e, no século XX, inspirou diretamente a restauração do catecumenato e a renovação da catequese litúrgica.O Catecismo da Igreja Católica recolhe expressamente sua doutrina: ao tratar da oração do “Pai-Nosso”, o CIC 2782 cita, em nota, uma frase de São Cirilo de Jerusalém (Catequeses mistagógicas 3,1): “Tornando-vos participantes de Cristo, sois com razão chamados ‘cristos’”. O Papa Bento XVI dedicou-lhe uma catequese na Audiência Geral de 27 de junho de 2007, apresentando sua catequese integral como “emblemática para a formação catequética dos cristãos de hoje”.
Debates e controvérsias
Conflito com Acácio de Cesareia e os exílios
Cirilo entrou cedo em conflito com Acácio, bispo de Cesareia, líder do partido ariano/homeano. O conflito foi ao mesmo tempo doutrinal e jurisdicional. Acusado por Acácio (entre outras coisas, de ter vendido bens da igreja durante uma fome para socorrer os pobres), Cirilo foi deposto e enviado ao exílio. Ao todo passou muitos anos longe de sua sé em três exílios — a partir de 357, depois em 360, e finalmente sob o imperador ariano Valente (de 367 até 378), regressando definitivamente após a morte de Valente.
Disputa de jurisdição entre Jerusalém e Cesareia
No fundo do conflito estava a questão da precedência: Cesareia era a metrópole eclesiástica da Palestina, mas Jerusalém, por sua dignidade como cidade santa (reconhecida no Concílio de Niceia), reivindicava autonomia e honra especial. A tensão foi resolvida progressivamente em favor de Jerusalém, que viria a tornar-se patriarcado.
Ordenação por bispos semiarianos e a reticência ao “homooúsios”
Cirilo foi consagrado bispo (c. 348/350) num contexto em que predominavam bispos semiarianos, como Acácio, o que levantou suspeitas sobre a ortodoxia de sua eleição. Durante anos evitou o termo niceno homooúsios (“consubstancial”), preferindo dizer que o Filho é “em tudo semelhante ao Pai” — posição típica do meio semiariano. Sua cristologia correta, porém, parece ter sido a verdadeira razão da hostilidade de Acácio.
A questão foi definitivamente esclarecida: Cirilo acabou por aceitar formalmente o homooúsios e participou do Concílio de Constantinopla de 381 (II Concílio Ecumênico). A carta sinodal de 382, na sequência do concílio, reconheceu oficialmente a ortodoxia irrepreensível de Cirilo e a legitimidade de sua ordenação episcopal. A tradição posterior consagrou-o como Padre e Doutor da Igreja.
Fontes e referências
- vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070627.html
- newadvent.org/cathen/04595b.htm
- newadvent.org/fathers/310100.htm
- newadvent.org/fathers/310105.htm
- newadvent.org/fathers/310118.htm
- newadvent.org/fathers/310120.htm
- newadvent.org/fathers/310121.htm
- newadvent.org/fathers/310122.htm
- britannica.com/biography/Saint-Cyril-of-Jerusalem
- scborromeo.org/ccc/p4s2a2.htm
- catholicsaints.info/saint-cyril-of-jerusalem/
- ewtn.com/catholicism/library/saint-cyril-confessor-archbishop-of-jerusalem-5418
- paulus.com.br/portal/liturgia-diaria-das-horas/dia-18-terca-feira-5/
- pocketterco.com.br/santo/tHtjixSXWN
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