Caius
Caio (Gaio) de Roma foi um escritor cristão do início do século III, ativo em Roma sob o papa Zeferino (199–217). É conhecido quase exclusivamente por fragmentos de um diálogo seu contra o montanista Próculo, preservados por Eusébio de Cesareia. Eusébio o descreve como "homem erudito e eclesiástico", expressão que não implica que fosse sacerdote. Figura de identidade incerta, é lembrado sobretudo por um precioso testemunho sobre os túmulos dos apóstolos Pedro e Paulo em Roma e por ter sustentado que o Apocalipse seria obra do gnóstico Cerinto.
Biografia
Quem foi e quando viveu
Caio (em grego e latim, Gaius; em português também "Gaio") foi um escritor eclesiástico cristão ativo em Roma no início do século III, no tempo do papa Zeferino (199–217). Pouquíssimo se sabe de sua vida pessoal. Eusébio de Cesareia, principal fonte sobre ele, o menciona algumas vezes e o chama "homem erudito" e "homem eclesiástico" — designação que, como notam os estudiosos católicos, não implica necessariamente que fosse sacerdote. Sua obra foi escrita em grego e chegou até nós apenas em fragmentos citados por Eusébio.
A disputa com Próculo, o montanista
A obra pela qual Caio é conhecido é um diálogo (ou disputa) contra Próculo, líder da heresia "frígia" ou "catafrígia" — o montanismo. Segundo Eusébio, o debate ocorreu em Roma no tempo de Zeferino. Nele, Caio refreava a temeridade dos adversários em propor "novas Escrituras", e mencionava apenas treze epístolas do apóstolo Paulo, não contando entre elas a Epístola aos Hebreus — observando que, até os dias de Eusébio, alguns em Roma não a consideravam obra do apóstolo. Jerônimo (De Viris Illustribus 59) repete esses dados, todos dependentes de Eusébio.
O testemunho sobre os túmulos dos Apóstolos
O fragmento mais célebre de Caio é um testemunho precioso sobre a morte e a veneração pública dos apóstolos Pedro e Paulo em Roma por volta do ano 200. Respondendo a Próculo, Caio escreve: "Mas eu posso mostrar os troféus dos apóstolos. Pois, se quiseres ir ao Vaticano ou à Via Ostiense, encontrarás os troféus daqueles que lançaram os fundamentos desta Igreja." Por "troféus" (tropaia) entende-se os monumentos memoriais que assinalavam os locais de sepultamento e veneração dos dois apóstolos. É uma das mais antigas atestações documentais dos túmulos apostólicos em Roma.
Fontes antigas e o problema da identidade
Tudo o que se sabe de Caio vem de Eusébio (História Eclesiástica II.25; III.28; III.31; VI.20); Jerônimo, Teodoreto (Haereticarum Fabularum Compendium II.3) e Nicéforo Calisto apenas o repetem. Fócio (Bibliotheca, cod. 48) traz dados extras de uma nota marginal de um manuscrito do tratado "Sobre a Natureza do Universo", chamando Caio "presbítero da Igreja de Roma" e dizendo-o eleito "Bispo dos Gentios" — mas esses dados resultam de uma confusão entre o Caio antimontanista e Hipólito e são considerados "absolutamente sem valor". A partir de fragmentos da obra de Hipólito "Contra Caio" (publicados por Gwynn), parece claro que Caio sustentava que o Apocalipse de João era obra do gnóstico Cerinto — posição que o aproxima do grupo a que mais tarde se chamou "Alogi". Por isso sua identidade e até algumas de suas obras (atribuídas ora a ele, ora a Hipólito) permanecem incertas.
O contexto em que viveu
Caio viveu na Roma cristã do início do século III, durante o pontificado de Zeferino (199–217) e às vésperas do de Calisto I (217–222). Era uma Igreja romana ainda pré-nicena, sem liberdade legal, sujeita a perseguições intermitentes sob os imperadores Septímio Severo e seus sucessores, e organizada em torno do bispo de Roma e de seu colégio de presbíteros.
O período foi marcado por intensos debates internos. O montanismo (ou heresia "frígia"/"catafrígia"), nascido na Ásia Menor com a "nova profecia" de Montano e suas profetisas, havia chegado a Roma e era defendido por figuras como Próculo — a quem Caio se opôs. Discutia-se também a extensão do cânon das Escrituras: quais livros eram apostólicos e deviam ser lidos na Igreja.
Nesse ambiente situa-se a posição de Caio sobre o Apocalipse. Ele e o grupo que mais tarde se chamaria de "Alogi" rejeitavam a autoria joanina do Apocalipse, atribuindo-o ao gnóstico Cerinto. Tal opinião foi combatida pelo presbítero romano Hipólito. Eram debates sobre autoridade, profecia e cânon que só se assentariam plenamente nos séculos seguintes, e nos quais o testemunho de Caio sobre os túmulos de Pedro e Paulo em Roma se tornou uma das mais valiosas atestações da antiguidade do culto apostólico na cidade.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
O testemunho dos "troféus" apostólicos e a autoridade romana
O núcleo do pensamento de Caio se conhece pelos fragmentos do seu Diálogo contra Próculo, montanista, conservados por Eusébio. Na disputa, Próculo apelava às profecias e ao túmulo das quatro filhas de Filipe em Hierápolis como prova da autoridade da "nova profecia"; Caio respondia apontando os "troféus" (túmulos) dos Apóstolos em Roma como prova da autoridade apostólica romana: "Mas eu posso mostrar os troféus dos apóstolos. Pois, se quiseres ir ao Vaticano ou à Via Ostiense, encontrarás os troféus daqueles que lançaram os fundamentos desta Igreja" (Eusébio, História Eclesiástica II, 25).
O cânon do Novo Testamento segundo Caio
No mesmo Diálogo, Caio enumerava apenas treze epístolas do apóstolo Paulo e não contava entre elas a Epístola aos Hebreus: segundo Eusébio, ele "menciona apenas treze epístolas do santo Apóstolo, não contando entre as demais a Epístola aos Hebreus; e até os nossos dias há entre os romanos quem não a tenha por obra do Apóstolo" (HE VI, 20). São Jerônimo confirma o dado, dizendo que a décima quarta epístola, hoje chamada aos Hebreus, não era por ele tida como de Paulo (De Viris Illustribus 59).
A rejeição do Apocalipse e a atribuição a Cerinto
Pelos fragmentos do Contra Caio de Hipólito — conservados por Dionísio Bar Salibi e publicados por John Gwynn (Hermathena VI, 1888) — Caio aparece negando a autoria joanina do Apocalipse (e, segundo o testemunho de Hipólito, também do Evangelho de João), atribuindo-os ao gnóstico Cerinto. É a posição que a crítica associa à corrente dos "Alogi". Esta opinião foi rejeitada pela Igreja, mas Caio nunca foi formalmente condenado por concílio.
"Mas eu posso mostrar os troféus dos Apóstolos. Pois, se quiseres ir ao Vaticano ou à Via Ostiense, encontrarás os troféus daqueles que lançaram os fundamentos desta Igreja." Diálogo contra Próculo, em Eusébio, História Eclesiástica II, 25
Quem ele influenciou
Importância históricaA importância de Caio para a história da Igreja é sobretudo documental. Seu testemunho sobre os "troféus" (túmulos) de Pedro e Paulo em Roma, por volta do ano 200, é uma das provas mais antigas e mais citadas da presença e do martírio dos Apóstolos na cidade, invocada até hoje em todo debate sobre a topografia das tumbas apostólicas no Vaticano e na Via Ostiense.Caio ocupa ainda lugar de destaque na história do cânon do Novo Testamento: o seu rol de treze epístolas paulinas e a não inclusão de Hebreus documentam a hesitação da Igreja romana primitiva quanto a essa epístola — hesitação que, como nota Eusébio, persistia em Roma ainda no séc. IV. Por isso o seu nome surge regularmente ao lado do Fragmento Muratoriano nas discussões sobre a formação do cânon.
Debates e controvérsias
A questão dos "Alogi" e o Apocalipse
A controvérsia histórica mais grave em torno de Caio é a rejeição do Apocalipse de João. Pelos fragmentos do Contra Caio de Hipólito (ed. Gwynn, Hermathena VI), Caio objetava ao Apocalipse e o atribuía — junto, conforme o relato de Hipólito, ao Evangelho de João — ao gnóstico Cerinto. Esta posição, que a crítica liga à corrente dos "Alogi" (que rejeitavam os escritos joaninos), foi rejeitada pela Igreja; ainda assim, Caio jamais foi objeto de condenação formal por concílio.
A confusão/identificação com Hipólito de Roma
Desde a Antiguidade Caio foi confundido com outros personagens. Fócio chamou-o "presbítero" e "Bispo dos Gentios" — indicações que, segundo a Catholic Encyclopedia, "repousam sobre uma confusão do Caio antimontanista com Hipólito" e são "absolutamente sem valor". No séc. XIX, J. J. I. Döllinger, em Hippolytus und Kallistus (1853), reabriu o debate sobre a identidade e o estatuto dos autores romanos do período. A própria existência de um tratado de Hipólito contra Caio mostra que, para a Antiguidade, eram pessoas distintas.
Os debates de atribuição de obras
Várias obras anônimas do período foram, em diferentes épocas, atribuídas ora a Caio, ora a Hipólito: o Pequeno Labirinto (contra a heresia de Artemon), o tratado Sobre a Natureza do Universo e, por alguns, o Fragmento Muratoriano. Os Filosofúmena (Refutação de todas as heresias) foram atribuídos por Fócio a Caio, mas a crítica moderna os tem, por razões de peso, como obra de Hipólito.
Fontes e referências
- newadvent.org/cathen/03144a.htm
- newadvent.org/fathers/250102.htm
- newadvent.org/fathers/250103.htm
- newadvent.org/fathers/250106.htm
- newadvent.org/fathers/2708.htm
- newadvent.org/cathen/10642a.htm
- newadvent.org/cathen/07360c.htm
- tertullian.org/fathers2/ANF-05/anf05-134.htm
- en.wikisource.org/wiki/Ante-Nicene_Fathers/Volume_V/Caius
- en.wikipedia.org/wiki/Caius_(presbyter
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