Arnóbio de Sica
Arnóbio de Sica (c. 255 – c. 330 d.C.) foi um retórico e apologista cristão latino da África romana, professor de retórica em Sicca Veneria (atual El Kef, Tunísia), na época de Diocleciano. Pagão e adversário do cristianismo na juventude, converteu-se já adulto — segundo São Jerônimo, movido por um sonho ou visão — e teve entre seus discípulos o futuro apologista Lactâncio. Para vencer a desconfiança do bispo local, que hesitava em batizá-lo por ter sido inimigo da fé, escreveu sua única obra conservada, o Adversus Nationes ("Contra os Pagãos"), em sete livros, como prova da sinceridade de sua conversão. Não é santo (não há culto público, festa nem canonização) e não foi condenado por nenhum concílio, mas sua teologia foi criticada por imprecisões doutrinárias, e sua obra acabou listada entre os escritos "não recebidos" no Decretum Gelasianum (séc. VI). É lembrado como uma das vozes da apologética latina pré-nicena na África.
Biografia
Origem africana e a cátedra de retórica em Sicca
Arnóbio nasceu por volta de 255 d.C. na África romana, provavelmente de origem norte-africana, e firmou-se como professor de retórica em Sicca Veneria (atual El Kef, na Tunísia), cidade da África Proconsular, junto à fronteira da Numídia. Segundo São Jerônimo, foi um "mestre de retórica dos mais bem-sucedidos em Sicca, na África, durante o reinado de Diocleciano". Entre os seus discípulos esteve Lactâncio, que viria a tornar-se um dos grandes apologistas latinos. Nessa fase, Arnóbio era pagão e chegou a combater vigorosamente a fé cristã.
A conversão pelos sonhos e o Adversus Nationes como prova da fé
Já adulto, Arnóbio converteu-se ao cristianismo. São Jerônimo relata que um sonho ou visão o advertiu a submeter-se a Cristo. A comunidade cristã de Sicca, porém, temia o antigo adversário e o bispo hesitava em recebê-lo, exigindo dele uma prova de sinceridade. Foi então que Arnóbio escreveu a sua única obra conservada, o Adversus Nationes ("Contra os Pagãos"; Jerônimo a chama de Adversus Gentes), em sete livros, apresentada como penhor da autenticidade de sua conversão. A composição costuma ser datada do período da grande perseguição de Diocleciano, por volta de 303 (entre 303 e 311).
A obra: defesa do cristianismo e as reservas doutrinárias
O Adversus Nationes faz uma ampla defesa do cristianismo contra as acusações dos pagãos (livros 1 e 2), seguida de ataques ao neoplatonismo, ao antropomorfismo e à mitologia pagã (livros 3 a 5), encerrando-se com a crítica ao culto de imagens, templos e cerimônias (livros 6 e 7). A obra revela um apologista mais ardoroso na defesa do que seguro na doutrina: Arnóbio sustentava, por exemplo, que os deuses pagãos eram seres reais subordinados e que a alma humana não seria obra direta de Deus nem naturalmente imortal, mas apenas capaz de receber a imortalidade pela graça. Por essas imprecisões, São Jerônimo o tratou com elogio e reserva, e no séc. VI sua obra foi relegada ao rol dos escritos "não recebidos" (apócrifos) pelo Decretum Gelasianum.
Floruit sob Constantino, morte e legado
Arnóbio floresceu sob Diocleciano e Constantino, vindo a falecer por volta de 330 d.C. (algumas fontes situam sua morte c. 327). Não é venerado como santo — não há culto público, festa litúrgica nem processo de canonização — e não foi condenado por concílio algum; é antes uma personalidade histórica e escritor eclesiástico leigo. Seu lugar na história deve-se sobretudo a ter sido mestre de Lactâncio e autor de um dos primeiros grandes textos da apologética latina pré-nicena na África, fonte preciosa, ainda hoje, para o conhecimento das religiões e cultos pagãos do seu tempo.
O contexto em que viveu
Arnóbio de Sica viveu na transição do século III para o IV, num dos períodos mais convulsionados da história do Império Romano e da Igreja. Floresceu sob o imperador Diocleciano (284–305), que, após décadas de instabilidade política, reorganizou o Império com mão firme: em 293 instituiu a Tetrarquia, o governo de quatro soberanos (dois augustos e dois césares), buscando estabilizar fronteiras e sucessão. Foi nesse clima de restauração da romanitas tradicional — e da religião pagã ancestral como cimento do Estado — que Arnóbio exerceu seu ofício de retórico.
O cenário de sua atividade foi a África romana, mais precisamente Sica Venéria (a atual El Kef, na Tunísia), na África Proconsular, junto à fronteira da Numídia. A África latina era então um dos centros mais vibrantes do cristianismo ocidental e o berço da própria literatura cristã em língua latina. Antes de Arnóbio, a região já havia dado à Igreja Tertuliano, considerado o "pai da teologia latina", e Cipriano de Cartago, bispo e mártir; a esses se somava o apologista Minúcio Félix. Arnóbio insere-se nessa linhagem apologética africana, que tinha por missão defender a fé cristã diante de uma cultura pagã ainda viva e culta, e que culminaria no seu próprio discípulo, Lactâncio, e, mais tarde, em Agostinho de Hipona.
Arnóbio compôs sua grande obra, o Adversus Nationes ("Contra os Pagãos"), em sete livros, justamente no limiar da Grande Perseguição. Em 303 Diocleciano promulgou o primeiro édito da perseguição mais sistemática e violenta que a Igreja antiga conheceu: ordenava a demolição das igrejas, a queima das Escrituras e a perda dos direitos legais dos cristãos. Segundo São Jerônimo, foi nesse contexto que Arnóbio, já adulto e pagão, converteu-se ao cristianismo movido por sonhos, e escreveu sua apologia para provar ao bispo local a sinceridade de sua conversão.
Arnóbio pertence assim à Igreja pré-nicena — anterior ao Concílio de Niceia de 325. Ele não chegou a ver a plena paz da Igreja consolidada, mas viveu o seu alvorecer: o Édito de Tolerância de Galério (311) e o Édito de Milão (313), pelo qual Constantino e Licínio garantiram liberdade ao culto cristão. As fontes situam seu floruit ainda sob Constantino, por volta de 327, e sua morte por volta de 330. Sua obra é, por isso, um testemunho precioso da mentalidade cristã num momento de viragem: do cristianismo perseguido ao cristianismo tolerado e, em breve, vitorioso.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
Um apologista de combate: o ataque ao paganismo
O pensamento de Arnóbio se concentra quase inteiramente na apologética: a defesa do cristianismo pela demolição do paganismo. Recém-convertido e retórico de profissão, ele emprega um método de ataque erudito e mordaz, descrevendo em minúcia os cultos greco-romanos para então ridicularizá-los. Ridiculariza os mitos (as paixões, crimes e torpezas atribuídos aos deuses), denuncia a idolatria — a adoração de imagens, templos e estátuas feitas por mãos humanas — e zomba do antropomorfismo, isto é, da ideia de deuses com forma, sexo, fome e ira humanas. Sua obra é, por isso, uma das mais detalhadas descrições antigas da religião pagã romana.
A defesa de Cristo e o "argumento das calamidades"
Arnóbio responde à acusação pagã de que o cristianismo, por ofender os deuses, seria a causa das desgraças do Império — guerras, pestes, secas, fomes, gafanhotos e granizos. Ele rebate que tais males são antiquíssimos e existiam muito antes de Cristo: "se esses males são inteiramente novos, e se tiram sua origem de transgressões recentes, como pôde ser que os antigos cunhassem termos para essas coisas?" (Adversus Nationes I, 3). Defende ainda Cristo contra a acusação de novidade, apontando a rápida e universal difusão da fé como prova de sua divindade: em tão pouco tempo "o mundo inteiro foi preenchido por tal religião", unindo povos distantes (Adversus Nationes I, 55).
A teologia de Deus
Arnóbio professa e exalta um vigoroso monoteísmo: um Deus supremo, transcendente, fonte e senhor de todas as coisas, ao qual tudo o mais é subordinado. É justamente nessa transcendência que ele insiste de modo quase exclusivo, a ponto de tratar Deus sobretudo como o Soberano remoto e incompreensível, deixando pouco desenvolvida a doutrina propriamente cristã sobre a Trindade e a economia da salvação.
Uma antropologia peculiar e heterodoxa: as almas de "natureza intermédia"
O ponto mais original — e doutrinariamente defeituoso — de Arnóbio é sua teoria da alma (Adversus Nationes II, 14-62). Para ele, a alma humana não é obra direta do Deus supremo, mas de um ser intermediário inferior, e é de uma natureza intermédia ("media qualitas"): um caráter neutro, indeciso, situado entre o mortal e o imortal. Daí que a alma não seja naturalmente imortal. A imortalidade não é uma propriedade que lhe pertença por natureza, mas um dom gratuito, concedido por Deus e condicionado ao conhecimento d'Ele — as almas que não O conhecem podem perecer e ser aniquiladas (II, 14: "sendo aniquiladas, passam vãmente em destruição eterna"; II, 32: estão "não longe das fauces escancaradas da morte", podendo, contudo, ter a vida prolongada "pelo favor e bondade do Supremo Soberano"). Essa posição aproxima-o do chamado condicionalismo (ou mortalismo) e contraria a doutrina católica da imortalidade natural da alma. A Catholic Encyclopedia resume-o sem rodeios: ele foi "mais zeloso na defesa do cristianismo do que correto em suas teses".
O diálogo crítico com os "viri novi" (neoplatônicos)
Boa parte dessa especulação nasce do debate de Arnóbio com os viri novi ("os homens novos"), uma comunidade religiosa de afinidades neoplatônicas (próxima das doutrinas de Plotino e Porfírio) entre a qual ele teria vivido antes de se converter. Contra eles — que sustentavam serem as almas imortais e próximas em dignidade ao próprio Deus, geradas por Ele — Arnóbio nega tanto a origem divina direta quanto a imortalidade natural da alma, julgando ser "o cúmulo da loucura" supor que as almas se assemelhem ao Pai na imortalidade, dom que Deus reservou para Si.
"Ó grandíssimo, ó Supremo Criador das coisas invisíveis! Ó Tu que és Tu mesmo invisível, e que és incompreensível! Tu és digno, és verdadeiramente digno — se é que língua mortal pode falar de Ti — de que toda natureza que respira e é dotada de inteligência nunca cesse de sentir-Te e de render-Te graças; de que por toda a vida caia de joelhos e ofereça súplica com orações incessantes. Pois Tu és a causa primeira; em Ti existem as coisas criadas, e Tu és o espaço em que repousam os fundamentos de todas as coisas, quaisquer que sejam. És ilimitável, não gerado, imortal, perdurando para sempre, Deus Tu mesmo sozinho, a quem nenhuma forma corpórea pode representar, nenhum contorno delinear." Adversus Nationes I, 31
Quem ele influenciou
A influência mais direta de Arnóbio se deu sobre seu discípulo Lactâncio — "o Cícero cristão" —, que foi seu aluno de retórica em Sicca, segundo o testemunho de São Jerônimo (De viris illustribus, 79-80). Doutrinariamente, porém, sua obra teve recepção limitada, dadas as teses defeituosas sobre a alma e sua teologia rudimentar. O valor duradouro do Adversus Nationes é, antes, histórico e documental: por descrever minuciosamente os deuses, mitos, templos, imagens e cultos de mistério do paganismo romano, tornou-se uma fonte de primeira ordem — uma verdadeira mina de ouro — para a história das religiões antigas, ainda que seja "uma fonte pobre para a doutrina cristã". A própria sobrevivência do texto foi tênue: chegou até nós por um único manuscrito do século IX (Paris), com uma cópia defeituosa em Bruxelas. São Jerônimo já o conhecia e o registrou entre os homens ilustres; a crítica moderna o reabilitou justamente como janela para o mundo pagão tardo-antigo.
Debates e controvérsias
Um apologista pré-niceno mal catequizado
As reservas a Arnóbio de Sica são doutrinárias, não morais: dizem respeito a opiniões teológicas de um recém-convertido, e não à sua conduta nem a qualquer ato canônico contra ele. Convertido já maduro, vindo do paganismo, Arnóbio escreveu o Adversus Nationes antes de receber instrução cristã sólida. São Jerônimo, no Chronicon, conta que ele foi levado à fé por visões e que o bispo de Sica hesitou em recebê-lo, exigindo do antigo inimigo de Cristo uma prova de sinceridade — foi para isso que ele compôs a obra.
Conhecimento deficiente da Escritura
A crítica clássica observa que Arnóbio, por sua formação pagã tardia, conhecia mal o Antigo Testamento e a doutrina cristã. A própria Introdução dos Ante-Nicene Fathers nota sua "perfeita ignorância" a respeito dos judeus e do Antigo Testamento, a ponto de "confundir os saduceus com os fariseus" e desconhecer suas formas de sacrifício — sinal de um cristão que, conforme a mesma fonte, saiu "do paganismo grosseiro em idade madura e teve de aprender como pôde".
Antropologia heterodoxa: a alma de "natureza intermédia"
O ponto mais delicado está no Livro II do Adversus Nationes (caps. 14–62), uma espécie de tratado sobre a alma. Arnóbio sustenta teses incompatíveis com a doutrina católica posterior:
- Natureza intermédia / indecisa ("media qualitas"): a alma teria um caráter neutro, nem claramente mortal nem imortal. Ele fala de "um certo caráter neutro, indeciso e duvidoso da alma" (II, 31) e pergunta "se as almas são mortais e de caráter neutro, como podem, a partir de suas propriedades neutras, tornar-se imortais?" (II, 35).
- A alma não é obra direta de Deus: para Arnóbio, as almas "não são filhas do Supremo Soberano" nem nele têm origem, "mas têm outro por pai, bastante afastado do chefe em posição e poder" (II, 36) — atribuindo a criação do homem a um ser intermediário, e não ao Deus sumo.
- Mortalismo / imortalidade condicional: as almas não seriam imortais por natureza, mas só receberiam a imortalidade como graça; as que não conhecem a Deus podem "perecer" e, "aniquiladas, passar em destruição eterna" (II, 14), estando "não longe das fauces escancaradas da morte" (II, 32). A Catholic Encyclopedia resume: "a alma humana não é obra de Deus, mas de um ser intermediário, e não é imortal por natureza, mas capaz de revestir-se da imortalidade como graça."
O Decretum Gelasianum (séc. VI)
O Decretum Gelasianum de libris recipiendis et non recipiendis (atribuído ao papa Gelásio I, c. 495, mas provavelmente compilação do séc. VI) inclui as obras de Arnóbio entre os escritos não recebidos pela Igreja: na lista latina lê-se "opuscula Arnobii — apocrypha", ao lado de Tertuliano, Lactâncio, Cipriano, Cassiano, Victorino e outros. Trata-se de documento de caráter quase-magisterial que rotula esses escritos de "apócrifos" (não recebidos como autoridade), e não de uma condenação conciliar nem de um anátema contra a pessoa.
A avaliação de São Jerônimo
Jerônimo é ambivalente. No De viris illustribus 79 limita-se a registrar: "Arnóbio foi um mestre de retórica muito bem-sucedido em Sica, na África, durante o reinado de Diocleciano, e escreveu livros Contra as nações, que se encontram por toda parte." Em outro lugar, porém, julga a obra desigual ("inaequalis"), prolixa e confusa por falta de ordenação — embora reconheça que deve ser lida "de vez em quando pela erudição que contém".
O que NÃO houve
É preciso deixar explícito: Arnóbio nunca foi condenado por concílio algum nem anatematizado. Não há sentença canônica contra ele. O que existe são (i) objeções doutrinárias de teólogos a um autor pré-niceno mal catequizado, (ii) a crítica literária de Jerônimo e (iii) a classificação de suas obras como "apócrifas/não recebidas" no Decretum Gelasianum. A própria pessoa de Arnóbio não foi declarada herege por nenhuma autoridade conciliar.
Fontes e referências
- newadvent.org/fathers/2708.htm
- newadvent.org/cathen/01746c.htm
- newadvent.org/cathen/08736a.htm
- newadvent.org/fathers/0631.htm
- newadvent.org/fathers/06311.htm
- newadvent.org/fathers/06312.htm
- newadvent.org/fathers/06316.htm
- en.wikisource.org/wiki/Ante-Nicene_Fathers/Volume_VI/Arnobius/Introductory_Notice
- britannica.com/biography/Arnobius-the-Elder
- britannica.com/topic/viri-novi
- encyclopedia.com/religion/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/arnobius-elder
- tertullian.org/decretum.htm
- ccel.org/ccel/wace/biodict.html
- en.wikipedia.org/wiki/Arnobius
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