Aristides de Atenas
Aristides de Atenas foi um filósofo grego convertido ao cristianismo e um dos primeiros apologistas cristãos, atuante em Atenas no século II. É autor da "Apologia", uma defesa da fé cristã endereçada ao imperador romano — segundo Eusébio e Jerônimo, a Adriano (c. 124-125); segundo o cabeçalho da versão siríaca, a Antonino Pio. Tida por perdida durante séculos, a obra foi reencontrada no fim do século XIX e é reconhecida como uma das mais antigas apologias cristãs preservadas.
Biografia
Quem foi Aristides?
Aristides de Atenas foi um filósofo grego do século II que se converteu ao cristianismo e se tornou um de seus primeiros defensores. As fontes antigas sobre sua vida pessoal são escassas, e quase nada se sabe de sua biografia além de seu papel como apologista. O historiador Eusébio de Cesareia, na “História Eclesiástica” (IV, 3), descreve-o como “um fiel sinceramente dedicado à nossa religião”, que, “como Quadrato, deixou uma apologia da fé, dirigida a Adriano”.
São Jerônimo, em “De viris illustribus” (cap. 20), acrescenta que Aristides era “um eloquentíssimo filósofo ateniense e discípulo de Cristo, ainda conservando o hábito de filósofo”. Ou seja, mesmo depois de cristão, continuou a vestir o manto dos filósofos, sinal de que via na fé cristã a verdadeira filosofia. Jerônimo observa ainda que sua obra era, em seu tempo, considerada pelos eruditos como um monumento de seu engenho.
A Apologia ao imperador
A obra que tornou Aristides célebre é sua “Apologia”, uma defesa razoada da fé cristã apresentada ao poder imperial. Há, porém, uma dupla tradição quanto ao destinatário. Segundo Eusébio e Jerônimo — e de acordo com as versões grega e armênia —, ela foi dirigida ao imperador Adriano, por volta de 124-125, época em que Adriano visitou Atenas. Já o cabeçalho da versão siríaca a endereça a “César Tito Adriano Antonino Augusto Pio”, isto é, a Antonino Pio (138-161). Diante disso, parte dos estudiosos sustenta que a obra teria sido na verdade escrita sob Antonino Pio; o nome compartilhado “Adriano” (Antonino Pio fora adotado por Adriano e carregava esse nome) ajuda a explicar a confusão entre as duas tradições.
Quanto ao conteúdo, Aristides parte da contemplação do mundo — o céu, a terra, o mar, o sol e toda a criação — para concluir que tudo é movido por outro, e que esse motor é Deus, “oculto neles e por eles velado”, eterno e perfeito, que não necessita de nada. Em seguida classifica a humanidade — segundo a versão siríaca, em quatro grupos: bárbaros, gregos, judeus e cristãos — e examina como cada um concebe a divindade, mostrando os erros dos cultos pagãos e a superioridade da reta noção de Deus que, segundo ele, só os cristãos possuem, comprovada por sua vida moral.
Uma obra perdida e reencontrada
A “Apologia” de Aristides, embora ainda existisse e fosse muito estimada nos tempos de Eusébio e Jerônimo, acabou desaparecendo e foi tida por perdida durante cerca de mil anos. Sua recuperação se deu em etapas, ao longo do fim do século XIX. Em 1878, os monges mequitaristas de San Lazzaro, em Veneza, publicaram um fragmento armênio da obra (os primeiros capítulos), acompanhado de tradução latina.
O passo decisivo veio em 1889, quando o estudioso J. Rendel Harris, de Cambridge, descobriu uma versão siríaca completa da “Apologia” num manuscrito do Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai, traduzindo-a e publicando-a em 1891 na coleção “Texts and Studies”. Durante essa publicação, J. Armitage Robinson reconheceu que o texto grego original havia sido em larga medida incorporado ao romance medieval “Vida de Barlaão e Josafá” (atribuído a São João Damasceno) — de modo que a obra, na verdade, nunca estivera de todo perdida.
Legado
Aristides figura entre os primeiros apologistas cristãos gregos, ao lado de Quadrato e antes de São Justino Mártir, que, segundo uma antiga tradição, imitou a sua obra. Sua “Apologia” é tida como uma das mais antigas obras apologéticas cristãs preservadas e constitui um precioso testemunho da fé e da prática da Igreja primitiva, bem como da coragem dos cristãos do século II em defender publicamente sua fé diante do poder imperial. É venerado como santo, com festa em 31 de agosto na Igreja Latina e em 13 de setembro na tradição ortodoxa.
O contexto em que viveu
O século II transcorreu sob o auge do Império Romano, nos reinados de Adriano (117-138) e de Antonino Pio (138-161), período de relativa estabilidade e prosperidade. Atenas, embora já não fosse potência política, permanecia um dos grandes centros da cultura e da filosofia grega, que Aristides bem conhecia: as escolas filosóficas continuavam vivas, e o próprio Adriano, helenófilo, visitou a cidade e chegou a iniciar-se nos Mistérios de Elêusis.
Nesse cenário, os cristãos viviam sob suspeita e enfrentavam perseguições esporádicas e localizadas, alvo de acusações populares e de processos movidos por “homens perversos”, como registra Eusébio. Não havia uma perseguição sistemática em todo o Império, mas a fé cristã era olhada com desconfiança e podia levar à condenação. Foi para responder a essa situação que surgiu, no século II, o movimento dos apologistas gregos — autores cristãos que, valendo-se da linguagem e dos recursos da filosofia, dirigiam ao próprio imperador defesas razoadas da fé, procurando demonstrar a inocência, a racionalidade e a superioridade moral dos cristãos.
Aristides insere-se justamente nesse início da apologética cristã. Eusébio e Jerônimo associam-no ao apologista Quadrato; segundo Jerônimo, ambos apresentaram suas apologias ao imperador na mesma ocasião, abrindo o caminho que seria depois trilhado, de modo mais amplo, por São Justino Mártir e pelos demais apologistas gregos. Esses escritos marcam o momento em que a jovem Igreja passa a dialogar abertamente com a cultura greco-romana e a defender sua fé perante a mais alta autoridade do Império.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
O núcleo do pensamento de Aristides é uma teologia natural: contemplando a ordem e o movimento do cosmos, a razão conclui que existe Aquele que o move e o sustenta. A Apologia abre exatamente assim — “quando considerei o céu, a terra e os mares, e contemplei o sol e o resto da criação, admirei-me da beleza do mundo; e compreendi que o mundo e tudo o que nele há são movidos pelo poder de outro”, identificando esse Motor como o Deus de tudo, que tudo fez por causa do homem.
Desse argumento Aristides extrai um conceito depurado de Deus: um ser não gerado e não feito, de natureza constante, sem começo nem fim, imortal, perfeito e incompreensível; sem composição de membros nem semelhança; que de nada necessita, mas de quem tudo necessita, e que não tem nome próprio que o limite. É um Deus eterno, imóvel e absolutamente autossuficiente, conhecido pela criação e não pela mitologia.
A partir dessa noção, Aristides faz uma crítica racional aos cultos pagãos: classifica a humanidade segundo a ideia que cada povo tem de Deus e mostra que os deuses dos pagãos, sendo descritos como adúlteros, homicidas, invejosos e ladrões, são indignos da divindade — o antropomorfismo, a imoralidade e a idolatria contradizem a perfeição divina. Diante deles, só os cristãos teriam a noção verdadeira de Deus.
O traço mais original de Aristides é provar a verdade da religião pela vida moral: a reta doutrina sobre Deus comprova-se na conduta. Os cristãos não cometem adultério nem falso testemunho, honram pais e mães, amam o próximo, socorrem órfãos e viúvas, libertam os oprimidos, jejuam para alimentar os pobres e sepultam os necessitados. A sua apologética é, assim, uma “fé que dá razões”, em que o argumento filosófico e o testemunho de caridade se confirmam mutuamente.
"Eu, ó Rei, pela graça de Deus vim a este mundo; e, ao considerar o céu e a terra e os mares, e ao contemplar o sol e o restante da criação, admirei-me com a beleza do mundo. E percebi que o mundo e tudo o que nele há são movidos pelo poder de outro; e compreendi que aquele que os move é Deus, que está oculto neles e por eles velado." Apologia de Aristides, cap. 1
Quem ele influenciou
Aristides é um dos primeiros apologistas gregos de que há memória, ao lado de Quadrato de Atenas, e abre o gênero apologético cristão que seria desenvolvido por Justino Mártir, Atenágoras de Atenas, Teófilo de Antioquia e, mais tarde, autores como Tertuliano. São Jerônimo o chamou de filósofo eloquentíssimo, e a tradição registra que a sua Apologia foi imitada por São Justino Mártir, o maior dos apologistas do séc. II.Para além da história das ideias, a Apologia tem enorme valor como testemunho da fé e da prática da Igreja primitiva. A descrição da vida cristã e da caridade nos capítulos finais (cap. 15-16) — o cuidado com órfãos e viúvas, a libertação dos oprimidos, o jejum para alimentar os pobres, o amor mesmo aos inimigos — é uma das passagens mais citadas em estudos de história da Igreja primitiva como retrato vivo da moral e da diaconia cristãs do séc. II.Perdida durante cerca de mil anos, a obra voltou ao centro do interesse erudito após a sua redescoberta moderna: fragmentos armênios publicados em 1878 e, sobretudo, a versão siríaca completa encontrada por J. Rendel Harris no Mosteiro de Santa Catarina, no Sinai, em 1889 — descoberta que reabriu os estudos sobre os primórdios da apologética cristã.
Debates e controvérsias
O destinatário e a data da Apologia: Adriano ou Antonino Pio?
A maior controvérsia erudita sobre Aristides é a quem foi dirigida a Apologia — e, portanto, a sua data. A tradição antiga, representada por Eusébio de Cesareia e por São Jerônimo (e confirmada pelos fragmentos armênios), afirma que Aristides apresentou a obra ao imperador Adriano, em Atenas, por volta de 124-125. Eusébio diz expressamente que a Apologia foi entregue a Adriano na mesma ocasião em que Quadrato apresentou a sua.
O cabeçalho da versão siríaca, porém, dirige a obra a “César Tito Adriano Antonino, augusto e clemente” — ou seja, a Antonino Pio, sucessor de Adriano, e não a Adriano. A confusão explica-se por um detalhe onomástico: Antonino Pio levava o nome “Adriano” por adoção (Tito Élio Adriano Antonino), de modo que “Adriano Antonino” no cabeçalho pode designar Antonino Pio. Parte dos estudiosos sustenta que foi por leitura descuidada dessa inscrição que a obra passou a ser atribuída a Adriano, e que Eusébio teria se enganado; outros mantêm que não há motivo interno forte para rejeitar a tríplice atribuição antiga a Adriano. O debate permanece em equilíbrio entre a datação adrianeia (c. 124-125) e a antoniniana (c. 138-140).
As versões do texto e a contagem das “classes de homens”
A Apologia sobreviveu em três testemunhos: a versão siríaca completa (descoberta em 1889 no Sinai), a versão grega — incorporada como discurso ao romance medieval Barlaão e Josafá, em forma algo abreviada — e fragmentos armênios (publicados em 1878). Discute-se qual delas é mais fiel ao original; a crítica tende a considerar a siríaca a mais próxima, observando que o armênio parafraseia e acrescenta glosas teológicas posteriores.
As versões também divergem na divisão da humanidade. A siríaca classifica os homens em quatro raças: “quatro raças de homens neste mundo — bárbaros e gregos, judeus e cristãos”. Já a versão grega adota um esquema tríplice: os que adoram os falsos deuses (subdivididos em caldeus, gregos e egípcios), os judeus e os cristãos. Essa diferença na contagem das “classes” é um dos pontos que os editores usam para reconstruir a forma original do texto.
Fontes e referências
- newadvent.org/cathen/01712d.htm
- newadvent.org/fathers/250104.htm
- newadvent.org/fathers/2708.htm
- newadvent.org/fathers/1012.htm
- tertullian.org/fathers/aristides_04_intro.htm
- tertullian.org/fathers/aristides_05_trans.htm
- earlychristianwritings.com/aristides.html
- encyclopedia.com/people/philosophy-and-religion/saints/saint-aristides
- britannica.com/biography/Aristides-Athenian-philosopher
- catholicsaints.info/saint-aristides-the-philosopher/
- en.wikipedia.org/wiki/Aristides_of_Athens
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