Jean le Tavernier (iluminador), Horas de Filipe o Bom, 1462 · fonte · PD
Bernardo de Claraval
São Bernardo de Claraval (Bernard de Clairvaux; nascido por volta de 1090 em Fontaines-lès-Dijon, na Borgonha, e falecido em 20 de agosto de 1153, em Claraval) foi monge e abade cisterciense, Doutor da Igreja conhecido como “Doutor Melífluo” e chamado “o último dos Padres”. Filho da alta nobreza borgonhesa, entrou no mosteiro de Cister por volta de 1112, levando consigo cerca de trinta companheiros, e em 1115 foi enviado para fundar a abadia de Claraval, que governou como abade até o fim da vida, impulsionando a grande expansão da Ordem de Cister pela Europa. Homem de imenso influxo eclesial, atuou decisivamente no cisma de 1130 em favor do papa Inocêncio II contra o antipapa Anacleto II, ajudou a dar forma à Regra dos Templários no Concílio de Troyes (1129) e escreveu o “De laude novae militiae”, e combateu os erros de Pedro Abelardo no Concílio de Sens. A pedido do papa Eugênio III, pregou a Segunda Cruzada em Vézelay (1146), empresa que terminou em fracasso e ensombreceu seus últimos anos. Entre seus escritos célebres estão os Sermões sobre o Cântico dos Cânticos, o “De diligendo Deo” (Sobre o amor de Deus) e o “De consideratione”, marcados por profunda doutrina espiritual e ardente devoção a Maria Santíssima. Foi canonizado em 1174 pelo papa Alexandre III e proclamado Doutor da Igreja em 1830 pelo papa Pio VIII; sua festa litúrgica é celebrada em 20 de agosto.
A vida
Infância, formação e vocação
São Bernardo nasceu por volta de 1090, em Fontaines-lès-Dijon, na Borgonha, no seio de uma família numerosa da alta nobreza. Era filho de Tescelino, senhor de Fontaines, e de Aleth de Montbard, ambos pertencentes à mais elevada nobreza borgonhesa. Desde jovem destacou-se pelo gosto pelas letras e pela poesia, mas sobretudo pela rápida maturidade espiritual. A morte de sua mãe, quando ele tinha cerca de dezenove anos, marcou-o profundamente e amadureceu nele o desejo de retirar-se do mundo. Por volta dos vinte anos de idade, cerca de 1112, decidiu abraçar a vida monástica e ingressou no recém-fundado mosteiro de Cister, então sob o governo de Santo Estêvão Harding, arrastando consigo um grupo de cerca de trinta jovens nobres da Borgonha, muitos deles seus parentes — entre os quais irmãos, um tio e um primo.
Fundação e governo de Claraval
Em 1115, Bernardo foi enviado por Santo Estêvão Harding, terceiro abade de Cister, à frente de um grupo de monges, para fundar um novo mosteiro no vale do Absinto, que ele batizou de Claire Vallée, ou Claraval (Clairvaux), em 25 de junho de 1115. Tornou-se abade dessa nova casa, cargo que exerceu até o fim de sua vida. Sob seu impulso, a Ordem de Cister conheceu extraordinária expansão, multiplicando-se em centenas de mosteiros por toda a Europa e colocando-se no primeiro plano da influência religiosa do século XII. Pelos seus escritos e pela doçura de sua eloquência ao falar de Cristo, Bernardo recebeu o título de “Doutor Melífluo” — porque seu louvor de Jesus Cristo “escorre como o mel” — e foi chamado “o último dos Padres” da Igreja.
Atuação na Igreja
Bernardo exerceu papel decisivo na vida da Igreja de seu tempo. No cisma de 1130, aberto após a morte do papa Honório II, com a dupla eleição de Inocêncio II e do antipapa Anacleto II, foi escolhido, no Concílio de Étampes, para julgar entre os dois pretendentes: decidiu em favor de Inocêncio II e empenhou-se em fazê-lo reconhecer pelas grandes potências católicas, contribuindo para o fim do cisma em 1138.
No Concílio de Troyes (1129), ajudou a dar forma à Regra dos Cavaleiros Templários e, em honra da nova ordem, escreveu o tratado De laude novae militiae (“Em louvor da nova milícia”). Mais tarde, defendeu a fé contra os erros do filósofo Pedro Abelardo, cujas doutrinas contribuiu para condenar no Concílio de Sens (por volta de 1140-1141); a controvérsia opôs a “teologia do coração”, centrada na fé, à “teologia da razão”, e concluiu-se, anos depois, com a reconciliação dos dois, graças à mediação de Pedro, o Venerável, abade de Cluny.
A pedido do papa Eugênio III — antigo monge de Claraval —, pregou a Segunda Cruzada num grande discurso em Vézelay, em 1146, comovendo multidões. A empresa, porém, terminou em fracasso (1147-1149), o que ensombreceu profundamente os últimos anos do santo, que assumiu sobre si a responsabilidade do malogro.
Escritos, últimos anos e legado
Bernardo deixou vasta obra espiritual, entre a qual se destacam os celebérrimos Sermões sobre o Cântico dos Cânticos, o De diligendo Deo (“Sobre o amor de Deus”) e o De consideratione, escrito para o papa Eugênio III. Foi também ardente devoto de Maria Santíssima, exaltando o papel da Virgem na mediação das graças. Consumido pelas penitências e pelas fadigas do governo e das missões eclesiais, faleceu em Claraval no dia 20 de agosto de 1153. Foi canonizado em 18 de janeiro de 1174 pelo papa Alexandre III e proclamado Doutor da Igreja em 1830 pelo papa Pio VIII. Sua festa litúrgica é celebrada em 20 de agosto.
O contexto em que viveu
São Bernardo de Claraval (1090–1153) viveu no século XII, um tempo de profunda renovação da Igreja latina. Ele é herdeiro da Reforma Gregoriana, o movimento iniciado por São Gregório VII (1073–1085) que combateu a simonia e o nicolaísmo e lutou pela liberdade da Igreja diante do poder secular, sobretudo na Questão das Investiduras, o conflito entre papas e imperadores sobre quem nomeava bispos e abades. Esse embate, que se arrastou de 1076 a 1122, só foi pacificado pela Concordata de Worms (1122), assinada entre o imperador Henrique V e o papa Calisto II, que separou a investidura espiritual da temporal. Era, portanto, uma Igreja recém-saída de meio século de tensão com o Império, ainda empenhada em afirmar sua autonomia e a primazia do Romano Pontífice.
No campo monástico, o ideal de reforma encontrou expressão na nova Ordem de Cister. A abadia de Cister (Cîteaux), próxima de Dijon, na Borgonha, foi fundada em 1098 por São Roberto de Molesme, com o propósito de viver a Regra de São Bento em sua observância primitiva e austera — pobreza, trabalho manual e silêncio —, em reação ao relaxamento e à riqueza que se haviam instalado na grande abadia de Cluny. Sob o terceiro abade de Cister, São Estêvão Harding, a jovem ordem recebeu sua constituição, a Carta Caritatis (Carta de Caridade), confirmada pelo papa Calisto II em 23 de dezembro de 1119; este documento, que organizava as abadias num sistema de mães e filhas com capítulos gerais e visitações regulares, fez dos cistercienses a primeira ordem religiosa propriamente dita da história da Igreja. Foi nesse ambiente que Bernardo entrou em Cister em 1112, sendo enviado em 1115 a fundar a abadia de Claraval (Clairvaux), da qual seria abade até a morte.
Este foi também o tempo do grande cisma papal de 1130. À morte de Honório II, uma eleição disputada produziu dois pretendentes: Inocêncio II (Gregório Papareschi) e o antipapa Anacleto II (Pietro Pierleoni), apoiado por boa parte de Roma e pela poderosa família Pierleoni. Expulso de Roma, Inocêncio II refugiou-se na França, e coube em grande medida a Bernardo, ao lado de Pedro, o Venerável, abade de Cluny, e de Norberto de Xanten, persuadir os reis e bispos da Cristandade a reconhecer Inocêncio II como legítimo. A intervenção de Bernardo foi decisiva: por sua influência, o cisma foi-se esvaziando até a morte de Anacleto (1138) e seu encerramento no II Concílio de Latrão (1139).
Era igualmente uma época de efervescência intelectual, com o florescimento das escolas urbanas e da teologia escolástica, em tensão com a teologia monástica e contemplativa que Bernardo encarnava. Dessa tensão nasceram seus conflitos doutrinais: contra Pedro Abelardo, cujas proposições foram condenadas no Concílio de Sens (1141), levando o filósofo a apelar a Roma, ver a sentença confirmada por Inocêncio II e recolher-se a Cluny, sob a proteção de Pedro, o Venerável, onde morreu pouco depois (1142); e contra Gilberto Porretano (Gilberto de la Porrée), bispo de Poitiers, cujas teses sobre a Trindade foram examinadas no Concílio de Reims (1148).
O século XII foi também o século das Cruzadas e das novas ordens militares. Em 1129, no Concílio de Troyes — convocado com a participação de Bernardo e na presença do legado papal Mateus de Albano —, recebeu aprovação eclesiástica a Ordem dos Cavaleiros do Templo, a pedido de Hugo de Payns; Bernardo influenciou a Regra dos Templários e exaltou-os no tratado De laude novae militiae (Elogio da Nova Cavalaria). Anos depois, a queda de Edessa para Zengi, em 24 de dezembro de 1144, abalou a Cristandade e levou o papa Eugênio III a convocar a Segunda Cruzada pela bula Quantum praedecessores (1145, reeditada em 1146). Por mandato pontifício, Bernardo pregou a cruzada em Vézelay, na Borgonha, em 31 de março de 1146, perante o rei Luís VII de França e a rainha Leonor, e em seguida arregimentou o imperador Conrado III da Alemanha em Espira (Speyer), no fim de 1146. A expedição, porém, terminou em desastre: o cerco fracassado de Damasco, em julho de 1148, forçou a retirada dos reis, e a cruzada dissolveu-se em 1149; Bernardo, duramente criticado, atribuiu o fracasso aos pecados dos cruzados.
Coroando o prestígio cisterciense, em 1145 um discípulo de Bernardo, o monge de Claraval Bernardo Paganelli (Pisa), foi eleito papa com o nome de Eugênio III — o primeiro cisterciense a ascender ao trono de Pedro. A ele, seu antigo abade dirigiu o tratado De consideratione (c. 1148–1152), espelho de governo para o Romano Pontífice. Bernardo morreu em Claraval em 20 de agosto de 1153, poucas semanas depois do próprio Eugênio III, deixando a ordem cisterciense espalhada por mais de 160 abadias por toda a Europa.
Como reconhecer Bernardo de Claraval na arte sacra
Os atributos visuais consolidaram-se na Idade Média e distinguem o santo nas obras sacras.
Linha do tempo
Eventos do santo à esquerda, eventos do mundo à direita — para situar a vida na história.
Milagres atribuídos à sua intercessão
Sinais e prodígios atribuídos à intercessão do santo, registrados pela tradição e pelos processos da Igreja.
Curas durante a pregação da 2ª Cruzada (Flandres e Renânia)
Na turnê de pregação da Segunda Cruzada por Flandres e pela Renânia (1146-1147), os companheiros de Bernardo registraram em ata grande número de curas atribuídas a ele ao impor as mãos e abençoar os enfermos: cegos, coxos, surdos, mudos e endemoninhados. Material hagiográfico da Vita Prima, atestado por testemunhas — tradição piedosa documentada, não fato clinicamente verificável.
Curas em Colônia (janeiro de 1147)
A Vita Prima relata em Colônia uma série de curas: uma menina cega que recuperou a vista, uma matrona paralisada havia três anos que voltou a mover-se, um ancião cego que recobrou a vista durante a pregação e outros enfermos curados após a bênção. Episódios narrados na hagiografia (Godofredo de Auxerre) — tradição, não fato documentado modernamente.
A Lactação da Virgem (TRADIÇÃO / LENDA)
Lenda hagiográfica medieval, muito difundida na arte: ao orar diante de uma imagem da Virgem com o Menino, Maria teria feito jorrar algumas gotas de leite sobre os lábios de Bernardo, em sinal de maternidade espiritual. Não há base histórica nem registro nos escritos do próprio Bernardo — é tradição devocional e iconográfica.
O Amplexus — o Crucificado o abraça (TRADIÇÃO / LENDA)
Lenda mística (Amplexus Bernardi): enquanto Bernardo adorava o crucifixo, Cristo teria desprendido os braços da cruz e se inclinado para abraçá-lo. Tornou-se tema célebre na arte (Ribalta, Gregorio Fernández). É tradição e iconografia ligada à sua teologia da Cruz, não fato histórico documentado.
Fama de milagres no processo de canonização
Bernardo foi canonizado pelo papa Alexandre III em 18 de janeiro de 1174 — a primeira canonização formal de um cisterciense pelo papado. O processo apoiou-se na fama de santidade e nos milagres (em vida e post mortem) reunidos pelos monges de Claraval e narrados nas Vitae.
Suas contribuições à teologia
O centro do pensamento de São Bernardo de Claraval é o amor a Deus. No tratado De diligendo Deo (Sobre o amor a Deus) ele formula o princípio que ficou célebre: a causa de amar a Deus é o próprio Deus, e a medida desse amor é amá-lo sem medida — “Causa diligendi Deum, Deus est; modus, sine modo diligere”. Bernardo descreve quatro graus do amor: o homem que se ama a si por si; o que ama a Deus por proveito próprio; o que ama a Deus por Deus mesmo; e, no ápice, o que se ama a si unicamente por amor de Deus — estado de plena transformação na semelhança divina, raramente alcançado nesta vida.
Esse amor floresce como amor esponsal nos oitenta e seis Sermões sobre o Cântico dos Cânticos (Sermones super Cantica Canticorum), sua obra-prima, composta ao longo de cerca de dezoito anos. Nela, a alma é a esposa que busca o Verbo-Esposo, e o caminho passa pelo conhecimento de si e pelo conhecimento de Deus, rumo à união mística — “um só espírito” com Deus (cf. 1Cor 6,17). É a obra paradigmática da literatura monástica medieval sobre a união do amor com Deus.
A base de toda virtude é a humildade. Em seu primeiro tratado, De gradibus humilitatis et superbiae (Sobre os graus da humildade e da soberba), Bernardo descreve a subida pela humildade e a queda pela soberba, fundando nela toda a vida espiritual; ele próprio se dizia “servo inútil dos servos de Deus”.
O seu é um cristocentrismo afetivo: a verdadeira ciência de Deus é a experiência pessoal e profunda de Jesus Cristo e do seu amor. Daí a célebre doçura do Nome de Jesus — “Jesus é mel na boca, melodia no ouvido, júbilo no coração” — e a meditação amorosa na humanidade de Cristo. Foi por louvar a Cristo de modo que “manava como o mel” que recebeu o título de Doutor Melífluo.
A devoção a Maria ocupa lugar singular. Nas homilias Super “Missus est” (em louvor da Virgem Mãe) está o convite que atravessou os séculos: diante das tempestades, das ondas da soberba, da ambição ou da inveja, “olha a estrela, invoca Maria” — “respice stellam, voca Mariam”. E no sermão da Natividade da Virgem, Maria é o “aqueduto” da graça: por vontade de Deus, nada recebemos que não passe pelas mãos de Maria — caminho que vai “por Maria a Jesus” (per Mariam ad Iesum).
Bernardo é o grande representante da teologia monástica e mística diante da escolástica nascente. Contra o racionalismo dialético — que combateu em Pedro Abelardo, condenado no Concílio de Sens —, deu primado à experiência, à oração e ao amor sobre a pura especulação: busca-se a Deus mais facilmente na oração do que na disputa. Ainda assim, em De gratia et libero arbitrio (Sobre a graça e o livre-arbítrio) expõe, segundo os princípios de Santo Agostinho, a colaboração entre a graça de Deus e a liberdade humana, sem opor uma à outra.
Espiritualidade e carisma
Espiritualidade cisterciense / bernardina
Vertente da espiritualidade monástica nascida da reforma cisterciense, da qual Bernardo de Claraval é o grande mestre. Caracteriza-se pelo primado do amor sobre a especulação: o amor a Deus “sem medida” como meta da vida cristã, percorrido em graus que vão do amor próprio ao amor de Deus por si mesmo (De diligendo Deo). É marcadamente esponsal e afetiva — a alma como esposa que busca o Verbo-Esposo nos Sermões sobre o Cântico dos Cânticos — e profundamente cristocêntrica, voltada à meditação amorosa na humanidade de Cristo e à doçura do Nome de Jesus. Tem por fundamento a humildade (De gradibus humilitatis et superbiae) e o conhecimento de si, alimenta-se da lectio divina e da oração contemplativa mais que da disputa dialética, e culmina na união mística com Deus. Inseparável dela é a intensa devoção mariana: Maria, Estrela do Mar, a quem se recorre (“respice stellam, voca Mariam”), e “aqueduto” da graça, pela qual se vai a Jesus. Tudo isso vivido no quadro da vida monástica cisterciense, austera, comunitária e centrada na busca de Deus.
A espiritualidade bernardina continua viva sobretudo na devoção mariana popular — a invocação “olha a estrela, chama por Maria” e a imagem de Maria mediadora e “aqueduto” da graça ainda nutrem a piedade católica — e na tradição mística e contemplativa do Ocidente, que floresceu a partir de seus Sermões sobre o Cântico. Continua sendo referência para a vida monástica cisterciense e trapista. Bernardo foi exaltado pelos papas como Doutor Melífluo: Pio XII dedicou-lhe a encíclica Doctor Mellifluus (1953) e Bento XVI propôs seu testemunho como modelo de uma teologia que une rigor e oração, ciência e amor. Seu apelo a buscar a Deus mais na experiência e na oração do que na pura argumentação fala de modo especial a uma época marcada pelo intelectualismo e pela sede de interioridade.
Ordens, congregações e movimentos
Famílias religiosas que se reconhecem herdeiras do santo.
Ordem de Cister (Cistercienses, O.Cist.)
Ordem monástica fundada em 1098 em Cîteaux por São Roberto de Molesme, como retorno à observância primitiva e austera da Regra de São Bento. Bernardo entrou em Cister por volta de 1112 e tornou-se o grande difusor da ordem, que passou de cerca de cinco casas em 1115 a mais de 340 à sua morte em 1153.
Abadia de Claraval e a Filiação de Claraval
Mosteiro fundado em 25 de junho de 1115, com Bernardo como primeiro abade, no antigo Vale do Absinto rebatizado por ele como Claraval (vale luminoso). Bernardo supervisionou a fundação de cerca de 68 casas-filhas diretas, gerando a Filiação de Claraval, a mais forte linhagem cisterciense do norte da Europa.
Cavaleiros Templários (Ordem do Templo)
Ordem militar-religiosa cuja Regra Bernardo ajudou a moldar no Concílio de Troyes (1129) e que exaltou no tratado De laude novae militiae (Elogio da Nova Milícia). Bernardo deu forma e legitimidade ao novo modelo de monge-cavaleiro.
Ordem Cisterciense da Estrita Observância (Trapistas, OCSO)
Ramo reformado dos cistercienses, nascido da reforma do abade Armand-Jean de Rancé em La Trappe (1664) e consolidado como ordem autônoma em 1892 sob o nome de Ordem dos Cistercienses da Estrita Observância (OCSO). Herda e intensifica o carisma monástico bernardino-cisterciense.
Suas obras principais
Obras de maior densidade e influência, com links diretos para o Codex quando disponíveis.
Os graus da humildade e da soberba
Primeiro tratado de Bernardo, dedicado ao monge Godofredo de Langres. Comenta os doze graus da humildade da Regra de São Bento e, por contraste, descreve os graus da soberba que conduzem à queda da alma. Obra de teologia espiritual monástica.
Homilias sobre o “Missus est” (Em louvor da Virgem Mãe)
Quatro homilias marianas sobre a passagem da Anunciação (“Missus est angelus Gabriel”, Lc 1,26). Pequeno mas completo tratado de mariologia, em que Bernardo exalta a maternidade divina e a virgindade de Maria. Consolidou sua fama de devoção mariana.
Apologia a Guilherme de Saint-Thierry
Escrita a pedido de Guilherme, abade de Saint-Thierry, no contexto da disputa entre cistercienses e cluniacenses. Critica os excessos e a relaxação de certos monges, defendendo a sobriedade da reforma cisterciense sem romper a caridade.
Sobre a conversão (aos clérigos)
Sermão-tratado dirigido a jovens clérigos e estudantes de Paris, exortando-os à conversão de vida. Trata do exame de consciência, do domínio das paixões e do chamado à vida segundo o Espírito.
Sermões sobre o Salmo 90 “Qui habitat”
Conjunto de dezessete sermões quaresmais sobre o Salmo 90 (91), “Qui habitat in adiutorio Altissimi”. Bernardo desenvolve a confiança na proteção divina e o combate espiritual contra as tentações.
Sobre a graça e o livre-arbítrio
Tratado teológico sobre a articulação entre a graça de Deus e a liberdade humana, na linha de Santo Agostinho. Distingue liberdade de natureza, de graça e de glória, mostrando que toda obra boa é fruto conjunto da graça e do livre consentimento.
Em louvor da nova milícia (aos Templários)
Escrito a pedido de Hugo de Payns, fundador da Ordem do Templo. Elogia a nova milícia de Cristo, que une vida religiosa e cavalaria, e contrasta o cavaleiro do Templo com a cavalaria mundana. Inclui meditações sobre os lugares santos.
Sobre o amor a Deus
Tratado dedicado ao cardeal-diácono Haimerico sobre por que e como Deus deve ser amado: a razão de amar a Deus é o próprio Deus; o modo, amá-lo sem medida. Descreve os quatro graus do amor, ascendendo do amor de si ao amor de si em Deus.
Sobre o preceito e a dispensa
Resposta a dúvidas de monges sobre a Regra de São Bento: o que nela é preceito imutável e o que admite dispensa pela autoridade legítima. Reflexão sobre obediência, lei e discernimento na vida religiosa.
Sobre os costumes e o ofício dos bispos
Carta-tratado endereçada a Henrique Sanglier, arcebispo de Sens. Expõe as virtudes que devem ornar o bispo — castidade, caridade e humildade — e denuncia os abusos do clero de seu tempo.
Sermões sobre o Cântico dos Cânticos
Obra-prima mística de Bernardo: 86 sermões pregados ao longo de quase vinte anos, cobrindo apenas os dois primeiros capítulos e o início do terceiro do Cântico. Interpreta o amor esponsal entre a Esposa (a alma / a Igreja) e o Verbo. Ficou inacabada com sua morte.
Sobre a consideração
Tratado em cinco livros dirigido ao papa Eugênio III, seu antigo discípulo cisterciense. Exorta o pontífice à consideração (recolhimento e exame interior) em meio aos negócios do governo, tratando dos deveres papais, da reforma da Cúria e da contemplação de Deus.
Vida de São Malaquias
Biografia hagiográfica de São Malaquias, arcebispo de Armagh e amigo de Bernardo, que morreu em Claraval em 1148. Narra sua vida, a reforma da Igreja na Irlanda, suas virtudes e milagres.
Sermões litúrgicos (do tempo, dos santos e diversos)
Vasta coleção de sermões litúrgicos: de tempore (ciclo do ano litúrgico), de sanctis (festas dos santos) e de diversis (temas variados). Pregados aos monges de Claraval e fundamentais para sua espiritualidade.
Cartas
Imensa correspondência de Bernardo com papas, reis, bispos, abades e monges, refletindo seu papel central na vida política e eclesial da Europa do séc. XII — o cisma papal de 1130, a Segunda Cruzada, a controvérsia com Abelardo.
Como a Igreja celebra Bernardo de Claraval
Oração a Bernardo de Claraval
Meu santo Abade de Claraval, São Bernardo, fervoroso servo de Maria, a igreja o honra e o invoca universalmente como padroeiro das causas mais difíceis visto dirigir a Maria todo o seu fervor. Assim peço que com Maria venha pedir por mim a Jesus. Eu estou sozinho e desamparado. Faça uso, eu imploro, do seu especial pri...
Como o povo reza a Bernardo de Claraval
Tríduos, novenas, ladainhas, medalhas e tradições locais que mantêm viva a presença do santo na piedade popular.
Tríduos, novenas e ladainhas
- Devoção mariana bernardina — “Respice stellam, voca Mariam” — Da homilia II “Super Missus est”, o convite de São Bernardo a recorrer a Maria nas tribulações: “Olha para a estrela, invoca Maria” (Respice stellam, voca Mariam). Tornou-se uma das mais célebres exortações marianas da tradição cristã, base da espiritualidade mariana cisterciense.
- Oração “Lembrai-vos” (Memorare) — associada a São Bernardo — Oração mariana popularmente atribuída a São Bernardo, mas de autoria tradicional/apócrifa: não há evidência de que ele a tenha escrito. Rastreável ao século XV e popularizada no séc. XVII pelo padre Claude Bernard — daí a confusão com São Bernardo de Claraval. Permanece uma das orações marianas mais rezadas na piedade popular sob o nome dele.
Tradições populares por região
Como o santo é vivido na piedade popular no mundo lusófono e além.
Tradição e lenda devocional medieval, muito representada na arte (óleos de Cano, Murillo, Josefa de Óbidos): a Virgem teria feito jorrar de seu seio um fio de leite até os lábios de São Bernardo, símbolo da sabedoria e da eloquência celeste a ele concedidas. Pertence ao imaginário devocional, não a fato histórico documentado.
Por causa do epíteto Doutor Melífluo (do latim mellifluus, “que escorre mel”), São Bernardo é venerado como padroeiro dos apicultores e dos cereiros/fabricantes de velas.
São Bernardo é padroeiro da Borgonha (sua terra natal), de Gibraltar e de Algeciras, da Ordem Cisterciense, e inspirou a regra dos Cavaleiros Templários.
O que Bernardo de Claraval nos diz hoje
"Olha para a estrela, invoca Maria. Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Não se afaste ela da tua boca, não se afaste do teu coração. Seguindo-a, não te desvias; rogando-lhe, não desesperas; pensando nela, não erras. Se ela te segura, não cais; se ela te protege, nada temes; se ela te guia, não te cansas; se ela te é propícia, chegas ao porto."
— Homilia II super Missus est (In laudibus Virginis Matris), 17 (PL 183, 70-71)"O amor basta-se a si mesmo, agrada por si e por causa de si mesmo. Ele é o seu próprio mérito e a sua própria recompensa. O amor não procura, fora de si, nem causa nem fruto: o seu fruto é o seu próprio exercício. Amo porque amo; amo para amar."
— Sermões sobre o Cântico dos Cânticos, Sermão 83, 4 (PL 183, 1184)Frases para guardar e compartilhar
Frases curtas para ler em silêncio, copiar, compartilhar e levar consigo.
"A causa de amar a Deus é Deus; a medida é amá-lo sem medida."
"Jesus é mel na boca, melodia ao ouvido, júbilo no coração."
"O amor é uma grande realidade, contanto que retorne ao seu princípio, que volte à sua origem, que reflua sempre à sua fonte, de onde tira sem cessar o que faz correr."
"De todos os movimentos, sentimentos e afetos da alma, só o amor é aquele em que a criatura pode corresponder ao Criador, ainda que não em igualdade, e retribuir-lhe algo de semelhante."
"Tal é a vontade daquele que quis que tudo tivéssemos por Maria."
A rede de influências espirituais
Ninguém é santo sozinho. Recebeu uma herança — e a transformou em legado.
Mestres e encontros decisivos
Antes de tudo, Bernardo foi formado pela Sagrada Escritura, que se tornou, como diz a Enciclopédia Católica, como que a sua própria língua. Dela bebeu sobretudo no Cântico dos Cânticos — base de seus célebres Sermões sobre o Cântico, obra-prima da teologia mística — e nos Salmos, que alimentaram sua oração e sua mística do amor esponsal da alma por Cristo.Sua doutrina repousa solidamente sobre a Bíblia e sobre os Padres da Igreja, que ele renovou a ponto de ser chamado “o último dos Padres”. Bebeu especialmente em Santo Agostinho — seu tratado De gratia et libero arbitrio expõe o dogma da graça e do livre-arbítrio segundo os princípios de Santo Agostinho — e na grande tradição patrística (Orígenes, Ambrósio, Gregório Magno), de cujos comentários ao Cântico e cuja contemplação se nutre toda a sua mística.Formou-se igualmente na tradição monástica beneditina e cisterciense. Por volta dos vinte anos entrou em Cister, fundação nova e mais austera; em 1115 foi enviado por Santo Estêvão Harding, terceiro abade de Cister, a fundar Claraval. A Regra de São Bento e a “Carta de Caridade” cisterciense moldaram sua concepção de vida monástica sóbria e medida — tema de obras como o De praecepto et dispensatione, sobre a Regra.Por fim, a piedade familiar: filho de Tescelino, senhor de Fontaines, e de Aleth de Montbard, ambos da alta nobreza da Borgonha, recebeu educação cuidada e cedo se distinguiu pela devoção, em especial à Santíssima Virgem. A morte de sua mãe, quando tinha cerca de dezenove anos, marcou-o profundamente e amadureceu nele o desejo de retirar-se do mundo para uma vida de solidão e oração.
Discípulos e herdeiros através dos séculos
Poucos homens marcaram tão profundamente o século XII quanto São Bernardo. Sob seu impulso, a Ordem de Cister conheceu uma expansão prodigiosa: dele se diz ter fundado cerca de 160 mosteiros e, ao morrer em 1153, a Ordem contava já 343 casas espalhadas por toda a Europa (Alemanha, Suécia, Inglaterra, Irlanda, Portugal, Suíça e Itália), de modo que os cistercienses o veneram como só os fundadores de ordens são honrados.Sua influência sobre o papado foi imensa: seu próprio discípulo Bernardo Paganelli foi eleito Papa Eugênio III (1145–1153), a quem dedicou os cinco livros do De consideratione, ainda hoje leitura recomendada aos Sumos Pontífices. Conselheiro de papas e reis, decidiu o cisma de 1130 em favor de Inocêncio II e pôs sua autoridade a serviço da Igreja em toda a cristandade.No campo da devoção mariana e da mística cristã sua marca é duradoura. Mestre do amor a Cristo e a Maria — per Mariam ad Iesum —, é tido como um dos maiores cantores da Virgem; sua mística do Cântico dos Cânticos e sua teologia do amor (o tratado De diligendo Deo, “amar a Deus sem medida”) influenciaram São Boaventura, que continuou a tradição mística bernardina, e a posteridade espiritual dos séculos seguintes.Dante Alighieri coroou essa fama colocando o próprio Bernardo no Paraíso como guia final do peregrino: no Canto XXXI da Comédia, Beatriz cede o lugar a São Bernardo, que conduz Dante à visão de Deus; e no Canto XXXIII o santo pronuncia a sublime prece à Virgem — “Vergine Madre, figlia del tuo figlio” (“Virgem Mãe, filha do teu Filho”).Mesmo fora dos limites da Igreja sua autoridade foi reconhecida: já o Papa Pio XII registrava que Bernardo foi louvado não só pelos Sumos Pontífices e escritores católicos, mas também, não raramente, por hereges. De fato, Martinho Lutero o citou e exaltou — chamando-o “o melhor monge que já viveu” —, embora o tenha lido seletivamente, segundo seus próprios fins. A Igreja o proclamou Doutor da Igreja (Pio VIII, 1830) e Doutor Melífluo, título consagrado por Pio XII na encíclica Doctor Mellifluus (1953), no oitavo centenário de sua morte.
Debates e controvérsias
As polêmicas começam ainda em vida — e nunca cessaram. Separamos as históricas (resolvidas pelo Magistério) das contemporâneas (em aberto).
Os grandes embates de seu tempo
O confronto com Pedro Abelardo (Concílio de Sens, 1141)
O embate com Pedro Abelardo é um dos maiores episódios intelectuais do século XII. Informado por Guilherme de Saint-Thierry de que Abelardo difundia erros, sobretudo em matéria trinitária, Bernardo o denunciou ao papa, e um concílio foi reunido em Sens (datado tradicionalmente em 1140/1141). Abelardo, após a abertura de Bernardo, recusou-se a responder e apelou ao papa; condenado, retirou-se para Cluny sob Pedro, o Venerável, onde morreu pouco depois, em comunhão com a Igreja.
A historiografia lê o episódio de modos diversos: para uns, defesa legítima da fé contra um intelectualismo que reduzia a fé a mera opinião; para outros, o confronto entre dois modelos teológicos — a “teologia do coração” monástica e a “teologia da razão” escolástica. Bento XVI, em 2009, reconheceu méritos a Abelardo (pai da escolástica, criador do termo “teologia” no sentido atual) ao mesmo tempo que dava razão às preocupações de Bernardo quanto ao subjetivismo moral e à relativização da verdade.
O caso de Gilberto Porretano (Concílio de Reims, 1148)
No Concílio de Reims (1148), Bernardo liderou o exame das proposições do escolástico Gilberto de la Porrée (Gilberto Porretano), bispo de Poitiers, sobre a Trindade e os atributos divinos. Bernardo foi escolhido para redigir uma profissão de fé contrária à de Gilberto. O desfecho foi moderado: Gilberto submeteu-se, e o papa condenou suas asserções sem o denunciar pessoalmente.
A Segunda Cruzada e seu fracasso (1146–1149)
Por encargo de Eugênio III, Bernardo pregou a Segunda Cruzada, com o célebre sermão de Vézelay (1146); reis e príncipes acorreram a tomar a cruz. O fracasso da expedição, porém, recaiu inteiramente sobre ele. Em sua defesa — inserida no segundo livro do De consideratione — Bernardo argumenta, à semelhança do que sucedeu com o povo hebreu no deserto, que foram os pecados, a indisciplina e a traição dos cruzados, e não a vontade de Deus nem a falta de sinais, a causa do desastre.
Tensões com Cluny e a amizade com Pedro, o Venerável
A ascensão de Cister incomodou os “monges negros” de Cluny. Acusado de invectivas contra eles, Bernardo respondeu, a pedido de Guilherme de Saint-Thierry, com a Apologia: na primeira parte inocenta-se das acusações; na segunda critica abusos concretos, professando porém profundo apreço pelos beneditinos de Cluny. A polêmica não rompeu a caridade: o abade de Cluny, Pedro, o Venerável, respondeu sem ferir a caridade, assegurando-lhe admiração e sincera amizade, relação que de polêmica se tornou amizade duradoura.
Polêmicas ainda em aberto
Bernardo e o debate entre teologia monástica e escolástica
A leitura contemporânea mais influente é a de Bento XVI, que em duas catequeses de 2009 apresentou Bernardo e Abelardo como símbolos de dois modelos — a “teologia do coração” (fé) e a “teologia da razão” (intelecto) — sob a divisa fides quaerens intellectum. Longe de canonizar um lado, o papa propôs o equilíbrio entre os “princípios arquitetônicos” da Revelação e os instrumentos interpretativos da razão, vendo aí uma lição atual contra o relativismo ético e o intelectualismo, mas reconhecendo também a fecundidade da escolástica nascente.
Releitura de sua mística e de sua mariologia
Sua mística do amor (o De diligendo Deo) e seus Sermões sobre o Cântico continuam a ser estudados como cume da espiritualidade medieval. Sua mariologia — per Mariam ad Iesum, com clara subordinação de Maria a Cristo — é hoje valorizada como modelo equilibrado de devoção, embora se discuta o alcance de suas afirmações sobre a compaixão da Virgem na Paixão e sua posição sobre a Imaculada Conceição.
Cruzadas, perseguições e o juízo histórico
Seu papel na pregação da Segunda Cruzada permanece o ponto mais debatido: críticos contemporâneos questionam a teologia da cruzada, ao passo que historiadores recordam que Bernardo, paralelamente, defendeu os judeus e condenou os surtos de antissemitismo de seu tempo — a ponto de o rabino Efraim de Bonn lhe ter prestado tributo. O debate equilibra, assim, a responsabilidade pelo fracasso militar e o testemunho de defesa dos perseguidos.
Valor ecumênico e devocional atual
A admiração de Lutero por Bernardo — citado por ele numerosas vezes — faz do santo uma figura de ressonância ecumênica, lida tanto por católicos quanto por protestantes. Para a Igreja, permanece Doutor Melífluo e “último dos Padres”, cujas páginas sobre o amor de Deus Pio XII recomendava como remédio para os muitos males que afligem a humanidade.
Patronatos e causas de intercessão
Patronatos oficiais (proclamados pela Igreja) e intercessões populares (sancionadas pela prática secular).
⚜ Patronato oficial
Proclamados pela Santa Sé ou tradição litúrgica firmemente estabelecida.
- Ordem Cisterciense
- Borgonha
🕯️ Intercessões populares
Causas pelas quais a tradição popular invoca o santo.
- Apicultores
- Templários
Relíquias e locais de devoção
Conhecer onde estão suas relíquias é conhecer a história espalhada da Igreja.
Sepultamento na Abadia de Claraval
São Bernardo morreu em Claraval em 20 de agosto de 1153, após cerca de 40 anos de vida monástica, e foi sepultado na igreja da abadia que ele mesmo fundara (1115) em honra da Santíssima Virgem. Suas relíquias foram veneradas no local até o final do século XVIII.
Translação para a Catedral de Troyes
Com a Revolução Francesa, a Abadia de Claraval tornou-se propriedade do Estado (decreto de 2 de novembro de 1789), foi vendida em 1792 e convertida em vidraria — depois, com a falência, retomada pelo Estado em 1804 e transformada em prisão. As relíquias de São Bernardo foram transferidas da igreja da abadia para a Catedral de Troyes. Parte do crânio é conservada no Tesouro da catedral; há também um relicário de São Bernardo do século XII (prata, cobre e esmalte).
Onde está Bernardo de Claraval hoje
Mini-mapa visual: itinerário das relíquias e principais santuários (ilustrativo, não cartograficamente preciso).
Curiosidades sobre Bernardo de Claraval
Fatos pouco conhecidos — pequenas janelas para a humanidade do santo.
É chamado “Doutor Melífluo” (Doctor Mellifluus): segundo a tradição, seu louvor de Cristo escorre como o mel; daí também a colmeia e as abelhas como seu símbolo, pela eloquência doce como mel.
É tido como “o último dos Padres” da Igreja: no séc. XII renovou e tornou presente a grande teologia dos Padres, sendo o último a ser equiparado a eles.
Recusou altos cargos para permanecer monge: declinou a arquidiocese de Milão e outras sés episcopais, voltando sempre a Claraval.
Um discípulo seu virou papa: o monge cisterciense Bernardo Paganelli foi eleito em 1145 como Eugênio III, o primeiro papa cisterciense. Bernardo lhe escreveu o “De consideratione”, conselhos para ser bom Papa.
Dante o colocou no ápice do “Paraíso” (cantos XXXI-XXXIII) como guia final que sucede Beatriz e que reza a célebre oração à Virgem (“Vergine Madre, figlia del tuo figlio”) antes da visão de Deus.
Arrastou a família para Cister: seu pai, o ancião Tescelino, e seus irmãos acabaram entrando para o mosteiro de Claraval como religiosos.
Rebatizou o vale: o lugar de Claraval chamava-se Vale do Absinto (da amargura), e Bernardo o renomeou Claire Vallée / Clairvaux — vale claro, luminoso.
Apaixonado por Maria, resumiu sua espiritualidade no “per Mariam ad Iesum” (por Maria chegamos a Jesus); é um dos grandes cantores marianos da Igreja.
Mesmo Lutero o admirava: dizia que Bernardo foi “o melhor monge que já viveu”. (Juízo do próprio Lutero, registrado em fontes biográficas — curiosidade histórica, não fonte doutrinal católica.)
Fontes e referências
- vatican.va/content/pius-xii/en/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2009/documents/hf_ben-xvi_aud_20091021.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2009/documents/hf_ben-xvi_aud_20091104.html
- newadvent.org/cathen/02498d.htm
- britannica.com/biography/Saint-Bernard-of-Clairvaux
- pathsoflove.com/bernard/on-loving-god_la.html
- ccel.org/ccel/bernard/loving_god.all.html
- crossroadsinitiative.com/media/articles/love-of-bridegroom-and-bride-st-bernard-of-clairvaux/
- documentacatholicaomnia.eu/04z/z_1090-1153__Bernardus_Claraevallensis_Abbas__Epistolae_Opera_Omnia__LT.doc.html
- catholicsaints.info/saint-bernard-of-clairvaux/
- liturgia.pt/santos/santo_v.php?cod_santo=136
- vaticannews.va/pt/santo-do-dia/08/20/s--bernardo--abade-e-doutor-da-igreja.html
- en.wikipedia.org/wiki/Bernard_of_Clairvaux
- en.wikipedia.org/wiki/Carta_Caritatis
- en.wikipedia.org/wiki/Council_of_Troyes_(1129
- en.wikipedia.org/wiki/Second_Crusade
- en.wikipedia.org/wiki/De_consideratione
- en.wikipedia.org/wiki/Clairvaux_Abbey
- en.wikipedia.org/wiki/Troyes_Cathedral
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