Autor desconhecido (iluminador do Rupertsberg Codex), séc. XII · fonte · PD
Santa Rita de Cássia
Santa Rita de Cássia (Margherita Lotti; c. 1381, Roccaporena, Cássia, Úmbria, Itália – 22 de maio de 1457, Cássia) foi uma religiosa agostiniana italiana. Esposa, mãe e viúva antes de tornar-se monja, atravessou um casamento difícil, o assassinato do marido numa vendeta e a morte dos dois filhos, perdoando os culpados. Já idosa recebeu na fronte uma ferida atribuída a um espinho da coroa do crucifixo, sinal da Paixão que a acompanhou até a morte. Beatificada por Urbano VIII (1627) e canonizada por Leão XIII em 1900, é venerada em todo o mundo como padroeira das causas impossíveis e desesperadas.
A vida
Infância e juventude em Roccaporena
Batizada Margherita Lotti — conhecida pelo diminutivo Rita —, nasceu por volta de 1381 em Roccaporena, pequeno povoado a poucos quilômetros de Cássia, na Úmbria (Itália). As fontes registram duas hipóteses para o ano de nascimento, 1371 ou 1381, sem consenso definitivo. Era filha de Antonio Lotti e Amata Ferri, um casal cristão de idade já avançada e de boa reputação, a quem a comuna de Cássia confiava a função de “pacificadores”: mediar conflitos e evitar derramamentos de sangue entre famílias rivais. Desde cedo, a tradição apresenta Rita atraída por uma vida de piedade e pelo desejo de consagrar-se a Deus.
Casamento, vida familiar e perdão
Apesar de sua inclinação para a vida religiosa, Rita acatou a vontade dos pais e casou-se ainda jovem com Paolo Mancini (Paolo di Ferdinando di Mancino), homem ligado à facção gibelina, descrito pela tradição como orgulhoso e de temperamento difícil. O matrimônio durou cerca de dezoito anos, do qual nasceram dois filhos, provavelmente gêmeos: Giangiacomo Antonio e Paolo Maria. Com paciência e oração, conta-se que Rita influenciou a conversão do marido. Anos depois, Paolo foi assassinado — segundo a tradição, por antigos rivais, no contexto das vendetas familiares da época. Rita perdoou de coração os culpados e recusou-se a revelar seus nomes, esforçando-se para que os filhos não buscassem vingança. Pouco depois, os dois filhos morreram, provavelmente de doença, deixando-a viúva e sem filhos.
Entrada no mosteiro agostiniano de Cássia
Viúva e sozinha, Rita pediu admissão ao mosteiro agostiniano de Santa Maria Madalena, em Cássia. A tradição relata que foi recusada por diversas vezes — entre outras razões, por ser viúva e por persistirem inimizades entre sua família e os assassinos do marido. Segundo a piedosa tradição hagiográfica, seus três padroeiros — São João Batista, Santo Agostinho e São Nicolau de Tolentino — a teriam conduzido milagrosamente para dentro do mosteiro fechado. Por volta de 1407, já viúva, foi finalmente acolhida, vivendo o resto da vida sob a Regra de Santo Agostinho, em penitência, oração e serviço aos pobres e enfermos.
O espinho, os últimos anos e a morte
Por volta de 1442 (algumas fontes indicam 1432), enquanto rezava diante de um crucifixo coroado de espinhos, Rita recebeu na fronte uma ferida atribuída a um espinho da coroa de Cristo — sinal da Paixão que a acompanhou por cerca de quinze anos, até o fim da vida. Da tradição devocional vem também o episódio da rosa e dos figos no inverno: gravemente enferma, ela pediu a uma parenta que colhesse uma rosa e dois figos da horta de Roccaporena, encontrados em pleno janeiro coberto de neve. Rita morreu na noite entre 21 e 22 de maio de 1457, em Cássia, por volta dos 76 anos. Seu corpo é venerado como incorrupto e repousa na Basílica de Santa Rita, em Cássia. Foi beatificada pelo Papa Urbano VIII (1627) e canonizada pelo Papa Leão XIII em 24 de maio de 1900, sendo invocada como padroeira das causas impossíveis e desesperadas.
O contexto em que viveu
Rita de Cássia viveu entre o fim do século XIV e meados do século XV (c. 1381–1457) na Úmbria, em Roccaporena, perto de Cássia, então parte dos Estados Pontifícios. Foi o ocaso da Idade Média italiana, às vésperas do Renascimento: a Itália estava fragmentada em comunas, senhorios e facções rivais, e a própria Igreja atravessava uma de suas piores crises institucionais.
O Grande Cisma do Ocidente (1378–1417), iniciado três anos antes do nascimento tradicional de Rita, dividiu a cristandade entre dois e depois três pretendentes ao papado, em disputa mais política que doutrinal. A ruptura só foi sanada pelo Concílio de Constança (1414–1418), que recebeu as renúncias dos rivais e elegeu o papa Martinho V em novembro de 1417, restaurando a unidade da Igreja durante a vida adulta de Rita.
Naquela Itália de comunas, as cidades viviam dilaceradas pelas lutas entre facções — guelfos e gibelinos e seus desdobramentos locais — e pelas vendetas, ciclos de vingança entre famílias que se perpetuavam por gerações. Esse foi o contexto direto do drama de Rita: seu marido, Paolo Mancini, foi assassinado numa rixa de facções, e ela temeu que os dois filhos buscassem vingar a morte do pai, alimentando a vendeta.
Era também tempo de pestes recorrentes, que ceifavam vidas com frequência — tradicionalmente associa-se a morte dos dois filhos de Rita a uma enfermidade. Nesse mundo precário e violento, a vida monástica feminina oferecia às mulheres um espaço de oração, recolhimento e segurança. Rita ingressou no Mosteiro de Santa Maria Madalena de Cássia, comunidade que seguia a Regra de Santo Agostinho, integrando-se ao ramo contemplativo da Ordem agostiniana, então em expansão pela península.
Seus últimos anos coincidiram com acontecimentos que marcariam o limiar de uma nova era: em 1453, quatro anos antes de sua morte, Constantinopla caía nas mãos dos turcos otomanos, encerrando o Império Bizantino e abalando toda a cristandade.
Como reconhecer Santa Rita de Cássia na arte sacra
Os atributos visuais consolidaram-se na Idade Média e distinguem o santo nas obras sacras.
Linha do tempo
Eventos do santo à esquerda, eventos do mundo à direita — para situar a vida na história.
Milagres atribuídos à sua intercessão
Sinais e prodígios atribuídos à intercessão do santo, registrados pela tradição e pelos processos da Igreja.
As abelhas brancas no berço
Segundo a tradição hagiográfica, poucos dias após o batismo a família teria notado abelhas brancas voando ao redor da menina adormecida no berço, entrando e saindo de sua boca sem feri-la — sinal de uma vida marcada por laboriosidade, doçura e devoção. Relato devocional, não registrado pelas fontes históricas mais críticas.
Transporte milagroso ao mosteiro pelos três padroeiros
Conta a tradição piedosa que, depois de recusada várias vezes, Rita foi conduzida durante a noite para dentro do mosteiro fechado de Santa Maria Madalena por seus três santos advogados — São João Batista, Santo Agostinho e São Nicolau de Tolentino. É lenda devocional, e não fato histórico documentado.
O espinho da coroa de Cristo (estigma na fronte)
Rezando diante de um crucifixo coroado de espinhos, Rita pediu para participar dos sofrimentos de Cristo; um espinho teria se desprendido e cravado em sua fronte, abrindo uma chaga que a acompanhou por cerca de quinze anos, até a morte. O epitáfio da antiga urna de 1457 já menciona o espinho. As fontes situam o fato por volta de 1442 (o santuário oficial indica 1432).
A videira seca que reverdeceu
Segundo a tradição, para provar a obediência de Rita a abadessa mandou-a regar diariamente um pedaço de madeira seca; a madeira teria brotado, tornando-se uma videira frondosa e frutífera, que a tradição diz existir ainda no mosteiro de Cássia.
A rosa e os dois figos no inverno
Já gravemente enferma, num janeiro de neve, Rita pediu a uma parenta que colhesse uma rosa e dois figos da horta da casa paterna, em Roccaporena. Fora de estação, a parenta os encontrou floridos e maduros — sinal associado à intercessão de Rita nas causas impossíveis.
Incorrupção do corpo
O corpo de Santa Rita, jamais sepultado, conservou-se preservado ao longo dos séculos; exumações confirmaram a preservação. Hoje rosto, mãos e pés estão mumificados. A incorrupção foi um dos sinais considerados no processo de canonização.
O perfume exalado do corpo
Desde a morte relata-se um suave perfume, comparado ao das rosas, que emana do corpo incorrupto. Esse “odor suave” foi um dos sinais examinados em 1899 entre os favores úteis à canonização; peregrinos afirmam percebê-lo junto à urna até hoje.
Cura de Elisabetta Bergamini (milagre da canonização)
Entre os milagres reconhecidos para a canonização de 1900 está a súbita recuperação da visão da jovem Elisabetta Bergamini, ameaçada de cegueira pela varíola, que passou quatro meses no convento de Cássia pedindo a intercessão da então beata Rita.
Cura de Cosma Pellegrini (milagre da canonização)
Outro milagre aprovado para a canonização de 1900 foi a cura completa e súbita de Cosma (Cosimo) Pellegrini, que sofria de uma afecção tida por incurável, após uma visão da beata Rita em seu leito. Os milagres foram aprovados em 1899 e Rita foi canonizada por Leão XIII em 24 de maio de 1900.
Suas contribuições à teologia
Santa Rita de Cássia não foi teóloga nem deixou escritos: seu “pensamento” é a mensagem espiritual que ela viveu. Formada na espiritualidade agostiniana — centrada no amor à humanidade de Cristo, que tem na Paixão sua máxima expressão —, Rita fez do perdão o coração do seu testemunho. Diante do Crucificado, perdoou os assassinos do marido e suplicou a Deus que preservasse os filhos do crime de vingança, preferindo vê-los mortos a vê-los homicidas. Por isso é venerada como mensageira de reconciliação e de paz.
Sua santidade brotou da paciência e da perseverança no sofrimento. Conviveu por longos anos com um marido de temperamento áspero, que seu amor paciente e a oração ajudaram a transformar; diante das provas mais duras, encontrou na oração e na penitência a força para não se queixar dos próprios males. Para Rita, o sofrimento aceito em união com Cristo tem valor incomensurável.
Essa união com a Paixão tornou-se visível: enquanto rezava diante de uma imagem de Cristo coroado de espinhos, um espinho desprendeu-se e cravou-se em sua fronte, deixando uma chaga que a acompanhou até a morte — sinal de sua configuração com o Crucificado. A humildade e a obediência foram o caminho por onde Rita avançou rumo a uma semelhança cada vez mais perfeita com Cristo.
O traço mais marcante de sua mensagem é ter atravessado quase todos os estados de vida — esposa, mãe, viúva e religiosa agostiniana —, vivendo em cada um deles uma santidade do cotidiano, possível para todos. Por isso oferece exemplo válido a quem partilha desses mesmos estados de vida, e é hoje invocada no mundo inteiro como a santa das causas impossíveis.
Espiritualidade e carisma
Espiritualidade agostiniana
Rita recebeu o hábito e a Regra de Santo Agostinho, que professou e viveu por décadas no mosteiro de Cássia: vida comum, oração, contemplação, penitência e caridade para com os pobres e os enfermos. Suas raízes espirituais estão na tradição agostiniana, que, pelo primado do coração, leva ao desejo de imitar a humanidade de Cristo Salvador, sobretudo na sua Paixão. Sobre essa base, Rita desenvolveu um carisma próprio: o perdão que reconcilia (perdoou os assassinos do marido e impediu a vingança dos filhos), a oferta paciente do sofrimento unido ao Crucificado e a união com a Paixão, simbolizada pela chaga do espinho cravado em sua fronte. Humildade e obediência foram o caminho pelo qual buscou uma semelhança cada vez mais perfeita com Cristo crucificado.
Desde a canonização por Leão XIII em 1900, milhões de fiéis no mundo inteiro recorrem a Santa Rita como padroeira das causas impossíveis e desesperadas. Por ter sido sucessivamente esposa, mãe, viúva e religiosa, é modelo de santidade possível a todos, especialmente para esposas, mães e viúvas que vivem a fé no cotidiano. É invocada como mensageira de reconciliação, perdão e paz em famílias e relações feridas. Seu símbolo mais difundido é a rosa — sinal da graça que floresce mesmo na dor e da fé que ilumina os momentos mais escuros —, distribuída e abençoada nas festas em sua honra.
Ordens, congregações e movimentos
Famílias religiosas que se reconhecem herdeiras do santo.
Ordem de Santo Agostinho (O.S.A.)
Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, ramo masculino e feminino que segue a Regra de Santo Agostinho, nascida da “Grande União” de 1244/1256 de várias congregações eremíticas. Santa Rita foi monja agostiniana e viveu por décadas sob esta Regra no mosteiro de Cássia.
Monjas Agostinianas de Cássia
Ramo feminino contemplativo de clausura da Ordem de Santo Agostinho. As monjas agostinianas de Cássia guardam o sepulcro e o carisma de Santa Rita até hoje, vivendo de silêncio, oração e serviço aos outros.
Mosteiro de Santa Maria Madalena (hoje Mosteiro de Santa Rita), em Cássia
Mosteiro agostiniano de Cássia (Úmbria) onde Santa Rita viveu como monja por cerca de quarenta anos, até a morte em 1457. No tempo de Rita era dedicado a Santa Maria Madalena; a parte antiga remonta ao fim do séc. XIII. Mais tarde foi renomeado em honra de Santa Rita e hoje abriga as monjas agostinianas e o santuário-sepulcro da santa.
Regra de Santo Agostinho
Regra monástica de Santo Agostinho de Hipona, base da vida comunitária de toda a família agostiniana. Foi a Regra sob a qual Santa Rita viveu sua vida religiosa em Cássia.
O Alveare (Colmeia) de Santa Rita
Obra de acolhimento de menores órfãos e em dificuldade, fundada em Cássia em 1938 pela Beata Madre Maria Teresa Fasce, abadessa do Mosteiro de Santa Rita. As crianças acolhidas são carinhosamente chamadas de “apette” (abelhinhas), em referência às abelhas da santa; a obra continua ativa, ligada ao mosteiro agostiniano.
Como a Igreja celebra Santa Rita de Cássia
Oração a Santa Rita de Cássia
Ó poderosa Santa Rita, chamada Santa dos Impossíveis, Advogada nos casos desesperados, socorro na última hora, refúgio nos momentos da dor que arrasta as almas ao abismo do crime e da desesperação, com toda a confiança em Vosso celeste patrocínio, recorro a Vós neste caso difícil e imprevisto que oprime dolorosamente o...
Novena a Santa Rita de Cássia
Novena de nove dias a Santa Rita de Cássia, monja agostiniana e padroeira das causas impossíveis e desesperadas. A cada dia, contemplamos uma etapa da vida desta esposa, mãe, viúva e religiosa que, na paciência, no perdão e na união à Paixão de Cristo, encontrou o caminho da santidade. Tradicionalmente reza-se nos nove dias que antecedem a sua festa, 22 de maio, encerrando cada dia com um Pai-Nosso, dez Ave-Marias e um Glória ao Pai.
Rezar a novena no Pocket Terço
A infância em Roccaporena e o desejo de Deus
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A morte, a rosa do inverno e as causas impossíveis
Lc 1,37 — "porque a Deus nenhuma coisa é impossível."
Como o povo reza a Santa Rita de Cássia
Tríduos, novenas, ladainhas, medalhas e tradições locais que mantêm viva a presença do santo na piedade popular.
Tríduos, novenas e ladainhas
- Devoção das causas impossíveis e desesperadas — Santa Rita é invocada como advogada dos casos impossíveis e desesperados. Os devotos recorrem a ela em situações sem saída, rezando a oração das causas impossíveis e a novena, confiando que para Deus nada é impossível.
- Novena e tríduo a Santa Rita — Nos nove dias que antecedem 22 de maio, comunidades, paróquias e santuários (em especial os agostinianos) rezam a novena a Santa Rita, meditando as etapas de sua vida. Em muitos lugares celebra-se também um tríduo preparatório.
Medalhas e escapulários
- Bênção das rosas — No dia 22 de maio, festa de Santa Rita, os fiéis levam rosas para serem abençoadas durante a missa, em memória do prodígio da rosa florida no inverno pouco antes da morte da santa. As rosas (ou suas pétalas) são guardadas como sinal de fé e de esperança nas causas impossíveis.
Tradições populares por região
Como o santo é vivido na piedade popular no mundo lusófono e além.
No Brasil, a devoção a Santa Rita é amplamente difundida, com dezenas de santuários e inúmeras paróquias dedicadas à santa. A festa de 22 de maio reúne missas, bênção das rosas e grande afluência de fiéis que pagam promessas e pedem por causas difíceis, sendo Rita uma das santas mais populares do país.
Tradição ligada ao Santuário de Cássia: pequenos pães são abençoados em torno da festa da santa e distribuídos aos fiéis como sinal de partilha, caridade e proteção, recordando a vida de pobreza e doação de Santa Rita.
A rede de influências espirituais
Ninguém é santo sozinho. Recebeu uma herança — e a transformou em legado.
Mestres e encontros decisivos
A formação espiritual de Rita começou no ambiente da piedade familiar de Roccaporena: seus pais, lembrados como pacificadores, deram-lhe o exemplo de fé e de busca da paz que ela mais tarde reproduziria na própria vida.O eixo de sua espiritualidade foi a Regra e a tradição de Santo Agostinho: ao entrar no Mosteiro de Santa Maria Madalena, recebeu o hábito e a Regra de Santo Agostinho, que professou e viveu por décadas. A espiritualidade agostiniana, centrada no amor à humanidade de Cristo e à sua Paixão, marcou profundamente sua vida.Foi também formada na devoção aos seus três santos protetores — São João Batista, Santo Agostinho e São Nicolau de Tolentino —, a quem a tradição atribui o auxílio em sua entrada no mosteiro. Dessa piedade pela Paixão de Cristo nasceu o sinal do espinho na fronte, que carregou nos últimos anos de vida como participação nos sofrimentos do Senhor.
Discípulos e herdeiros através dos séculos
Santa Rita de Cássia é uma das santas mais populares do mundo católico. Sua devoção, viva desde a morte em 1457, difundiu-se intensamente pela Itália, Espanha, América Latina e, de modo particular, pelo Brasil, onde existem cidades, paróquias e festas em sua honra. Na Espanha é chamada de “la Santa de los Imposibles”, e no Brasil é venerada há mais de três séculos — por exemplo, como padroeira do Centro do Rio de Janeiro.Seu título mais célebre é o de padroeira e advogada das causas impossíveis, difíceis e desesperadas, ao lado da fama de protetora das mães, esposas e viúvas. São João Paulo II, ao venerá-la no centenário da canonização (2000), recordou que “Rita tornou-se a advogada dos pobres e dos desesperados, obtendo incontáveis graças de consolação e conforto”.A ela se liga a tradição da bênção das rosas, celebrada todos os anos no dia 22 de maio, sua festa litúrgica: os fiéis levam rosas para serem abençoadas durante a Missa, em memória do sinal da rosa e dos figos colhidos no inverno em Roccaporena. A rosa tornou-se símbolo de esperança e de sua intercessão.O Santuário de Santa Rita, em Cássia — antigo Mosteiro de Santa Maria Madalena, onde repousa seu corpo —, é hoje um dos grandes centros de peregrinação do mundo, recebendo devotos de todos os continentes. Ligada ao mosteiro nasceu também uma importante obra de caridade, o “Alveare” (Colmeia) de Santa Rita, fundado em 1938 pela Beata Maria Teresa Fasce: começou como orfanato dentro do mosteiro das monjas agostinianas e acolhe até hoje crianças e jovens em dificuldade, sustentando-se da caridade dos devotos da santa em todo o mundo.
Debates e controvérsias
As polêmicas começam ainda em vida — e nunca cessaram. Separamos as históricas (resolvidas pelo Magistério) das contemporâneas (em aberto).
Os grandes embates de seu tempo
Escassez de documentação e datas incertas
A vida de Santa Rita é, do ponto de vista histórico, pouco documentada, e a fronteira entre o fato histórico e a tradição hagiográfica é tênue. As fontes mais antigas são poucas: o Codex miraculorum de 1457 (registro de prodígios anotado pelo notário Domenico Angeli, com uma breve biografia), a antiga urna pintada e uma tela com episódios de sua vida (por volta de 1480). Não existem provas documentais que fixem com certeza o ano de seu nascimento.
Por isso, divergem as datas: o nascimento é situado em 1371 ou 1381, e a morte em 1447 ou 1457; a entrada no mosteiro é colocada por volta de 1407 e o sinal do espinho por volta de 1442 (o santuário oficial indica 1432). A primeira reconstrução biográfica completa que chegou até nós é tardia: foi escrita em 1610 pelo agostiniano Agostino Cavallucci, apoiada na tradição oral do mosteiro e de Roccaporena e nos modelos hagiográficos da época. Coube ao Papa Leão XIII, por ocasião da canonização (1900), fixar oficialmente as datas de 1381 e 1457.
Polêmicas ainda em aberto
Modelo de perdão e reconciliação
Na leitura contemporânea, Santa Rita é proposta sobretudo como modelo de perdão e reconciliação. Diante do assassinato do marido, perdoou de coração e procurou impedir a vingança dos filhos, mostrando — nas palavras de São João Paulo II — “uma vida capaz de responder ao sofrimento e aos espinhos com o perdão e o dom total de si”. Sua mensagem de diálogo e de paz é apresentada como atual num mundo marcado por conflitos e pela tendência à vingança.
Modelo para mulheres, esposas e viúvas
Tendo sido esposa, mãe, viúva e religiosa, Rita é hoje invocada como modelo e protetora das mulheres em casamentos difíceis, das esposas e mães e das viúvas. São João Paulo II recordou-a como mulher “que viveu na humildade e é hoje conhecida no mundo inteiro pela sua heroica vida cristã como esposa, mãe, viúva e religiosa”, que encontrou na fé força inabalável para ser mulher de paz em toda situação.
Devoção popular persistente
A popularidade devocional permanece intensa: as festas de 22 de maio, com a bênção das rosas, e a peregrinação ao Santuário de Cássia continuam a reunir multidões, confirmando-a como uma das santas mais amadas e invocadas, especialmente nas causas tidas por impossíveis.
Patronatos e causas de intercessão
Patronatos oficiais (proclamados pela Igreja) e intercessões populares (sancionadas pela prática secular).
⚜ Patronato oficial
Proclamados pela Santa Sé ou tradição litúrgica firmemente estabelecida.
- Causas Impossíveis
🕯️ Intercessões populares
Causas pelas quais a tradição popular invoca o santo.
- Problemas Conjugais
Relíquias e locais de devoção
Conhecer onde estão suas relíquias é conhecer a história espalhada da Igreja.
Corpo incorrupto de Santa Rita (jamais sepultado)
Santa Rita morreu na noite de 21 para 22 de maio de 1457. Diante da imediata veneração popular, seu corpo nunca foi enterrado: as monjas agostinianas o conservaram exposto. O corpo manteve-se preservado ao longo dos séculos (hoje rosto, mãos e pés mumificados), tendo passado por exumações que confirmaram a preservação.
Cassa solenne — urna pintada de 1457
Logo após a morte, as monjas colocaram o corpo numa primeira caixa humilde (cassa umile); ainda em 1457, após um incêndio no oratório, a caixa e o corpo intacto foram postos numa urna solene de madeira pintada (cassa solenne). A urna é fonte histórica preciosa: traz pinturas e um epitáfio que já chama Rita de “beata” e menciona o espinho.
Urna-relicário de prata e cristal (1930) na Basílica de Santa Rita
Desde 18 de maio de 1947 o corpo de Santa Rita repousa na capela a ela dedicada, dentro da Basílica de Cássia, numa urna-relicário de prata e cristal feita em 1930, exposta à veneração de cerca de um milhão de peregrinos por ano.
Basílica de Santa Rita de Cássia
Construída para acolher o crescente fluxo de peregrinos, por iniciativa da madre Maria Teresa Fasce e com apoio do papa Pio XI. Pedra fundamental lançada em 20 de junho de 1937 pelo cardeal Enrico Gasparri; consagrada em 18 de maio de 1947; elevada a basílica menor em 1955 por Pio XII. Abriga o corpo incorrupto da santa.
Santuário e Scoglio de Roccaporena (vila natal)
Roccaporena, ao pé do Monte Rucino, é a aldeia natal de Santa Rita. O “Scoglio di Santa Rita” é o penhasco onde, segundo a tradição, ela subia diariamente para rezar; lugar de oração e peregrinação ligado ao nascimento e à vida secular da santa.
Onde está Santa Rita de Cássia hoje
Mini-mapa visual: itinerário das relíquias e principais santuários (ilustrativo, não cartograficamente preciso).
Curiosidades sobre Santa Rita de Cássia
Fatos pouco conhecidos — pequenas janelas para a humanidade do santo.
O corpo de Santa Rita está incorrupto há mais de cinco séculos (ela morreu em 1457). Antes da beatificação, foi oficialmente examinado e encontrado bem conservado, embora nunca tivesse sido sepultado. Hoje repousa numa urna de prata e cristal na Basílica de Cássia; investigações médicas constataram uma chaga óssea na fronte, ligada ao estigma do espinho.
Segundo a tradição, poucos dias após o nascimento de Rita, abelhas brancas pousaram sobre seu berço e entravam e saíam de sua boca sem picá-la — tido como o primeiro prodígio de sua vida. Até hoje vivem nas paredes do mosteiro de Cássia abelhas conhecidas como “as abelhas de Santa Rita”, que tradicionalmente aparecem na Semana Santa e se recolhem após a festa de 22 de maio.
A rosa é o grande símbolo de Santa Rita por causa de um prodígio: já gravemente doente, no rigor do inverno, ela pediu a uma parenta uma rosa (e dois figos) do jardim de sua casa em Roccaporena; contra a estação, foram encontrados floridos e maduros. Daí nasceu a tradição da bênção das rosas, celebrada sobretudo a 22 de maio.
Santa Rita é universalmente invocada como a “Santa das Causas Impossíveis” (na Espanha, “la abogada de los imposibles”; na Itália, “la santa degli impossibili”). É também uma das raras santas que percorreram quase todos os estados de vida: filha, esposa, mãe, viúva e religiosa.
Por cerca de quinze anos, até a morte, Santa Rita carregou na fronte o estigma de um espinho da coroa de Cristo. Rezando diante de um crucifixo, pediu para partilhar um pouco dos sofrimentos do Senhor, e abriu-se em sua testa uma chaga dolorosa que, segundo a tradição, a obrigava a viver isolada das demais irmãs.
O imenso número de peregrinos que afluíam a Cássia após a canonização (1900) levou à construção da grande Basílica de Santa Rita: a pedra fundamental foi lançada em 20 de junho de 1937 e a igreja foi consagrada em 18 de maio de 1947. Em 1955, o papa Pio XII a elevou à dignidade de basílica menor.
Em 1938, a abadessa de Cássia, a Beata Maria Teresa Fasce (beatificada por João Paulo II em 1997), abriu dentro do convento um orfanato a que deu o nome de “Alveare di Santa Rita” (“Colmeia de Santa Rita”), em referência às abelhas da santa. As crianças acolhidas são carinhosamente chamadas de “apette” (abelhinhas).
Santa Rita é uma das santas mais populares do Brasil, com numerosos santuários dedicados a ela. Em Santa Cruz (RN) ergue-se uma estátua monumental de Santa Rita, com 56 metros de altura, inaugurada em 2010; após mais de três séculos de devoção, foi declarada padroeira do Centro da cidade do Rio de Janeiro (lei municipal de 2021, com celebração a partir de 2022).
Fontes e referências
- vatican.va/content/john-paul-ii/en/speeches/2000/apr-jun/documents/hf_jp-ii_spe_20000520_santa-rita.html
- causesanti.va/it/santi-e-beati/rita-da-cascia.html
- santaritadacascia.org/en/the-saint/vita/
- santaritadacascia.org/en/the-monastery/
- srita.it/santuario/santa-rita/la-santa
- augustinian.org/may-22/
- newadvent.org/cathen/13064a.htm
- treccani.it/enciclopedia/rita-da-cascia-santa_(Dizionario-Biografico)/
- franciscanmedia.org/saint-of-the-day/saint-rita-of-cascia/
- catholicsaints.info/saint-rita-of-cascia/
- chiesacattolica.it/liturgia-del-giorno/santa-rita-da-cascia-religiosa-memoria-facoltativa/
- liturgia.pt/santos/santo_v.php?cod_santo=226
- fondazionesantarita.org/en/what-we-do/projects/beehive-of-saint-rita
- it.wikipedia.org/wiki/Basilica_di_Santa_Rita_da_Cascia
- en.wikipedia.org/wiki/Rita_of_Cascia
- vaticannews.va/pt/santo-do-dia/05/22/s--rita-de-cassia--religiosa-agostiniana.html
- pocketterco.com.br/oracao/oracao-a-santa-rita-de-cassia
- pocketterco.com.br/terco/novena-a-santa-rita-de-cassia-inicia-em-13-de-maio
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