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Medalius · Codex de Personalidades · Máximo, o Confessor
Máximo, o Confessor

Iconografia bizantina, autor desconhecido (séc. X–XI) · fonte · PD

🏛 Padre da Igreja
Período
580–662 (82 anos)
Lugar
Constantinopla, Cartago e Roma
Estado canônico
Santo
Escola
Patrística grega / Teologia bizantina
Idioma principal
Grego
Santo · Padre da Igreja

Máximo, o Confessor

580–662
o Confessor Padre da Igreja

São Máximo, o Confessor (c. 580 – 13 de agosto de 662), foi um monge e teólogo bizantino, um dos maiores mestres da patrística grega sobre o mistério da Encarnação. Antigo primeiro-secretário do imperador Heráclio, deixou a corte para a vida monástica e tornou-se o principal arquiteto teológico da defesa do diotelismo — a doutrina das duas vontades em Cristo, humana e divina — contra a heresia monotelista então favorecida pelos imperadores. Foi a alma do Concílio de Latrão de 649, convocado pelo Papa São Martinho I, que condenou o monotelismo. Preso e julgado por “traição” e heresia, recusou-se até o fim a calar a fé ortodoxa: aos cerca de 82 anos teve a língua e a mão direita decepadas, os dois instrumentos com que combatera o erro, e morreu no exílio em Lázica (atual Geórgia). Sua doutrina foi solenemente vindicada no VI Concílio Ecumênico (Constantinopla III, 680–681), e ele é venerado como um dos últimos Padres da Igreja reconhecidos em comum por católicos e ortodoxos.

Biografia

Infância, formação e vida monástica

A origem de São Máximo é objeto de duas tradições distintas, e nenhuma pode ser apresentada como certeza histórica única. A Vida grega, mais difundida, afirma que ele nasceu por volta de 580 em Constantinopla, no seio de uma família nobre; tendo recebido excelente formação filosófica, tornou-se primeiro-secretário (protoasekretis) do imperador Heráclio, que muito o prezava. Renunciando ao mundo, abraçou a vida monástica no mosteiro de Crisópolis, em frente a Constantinopla, do qual veio a ser abade.


Uma segunda tradição, conservada na Vida siríaca atribuída a Jorge de Resh’aina — texto hostil a Máximo, mas mais antigo e hoje considerado por muitos estudiosos como de maior valor histórico —, dá-lhe origem palestina: teria nascido em Hesfin, nas colinas do Golã, e sido criado desde menino na Lavra de São Caritão, no deserto da Judeia. A erudição moderna tende a favorecer essa narrativa palestina sobre a constantinopolitana. Em ambas as tradições, contudo, o jovem Máximo destaca-se pela renúncia ao mundo, pela dedicação à oração, à ascese e ao estudo profundo das Escrituras e dos Padres.


Vida adulta e missão: a defesa da ortodoxia

Por volta de 626, a invasão persa forçou Máximo a abandonar seu mosteiro e a refugiar-se, depois de passar por Cízico, no norte da África, fixando-se na região de Cartago (c. 628–630). Ali aprofundou o vínculo com o asceta palestino São Sofrônio, futuro Patriarca de Jerusalém, a quem chama de seu mestre, pai e preceptor. Foi nesse cenário que eclodiu a controvérsia que marcaria o resto de sua vida: a difusão do monotelismo, doutrina que admitia em Cristo duas naturezas, mas uma só vontade, a divina.


Máximo combateu o erro com vigor. Argumentava que a vontade pertence à natureza, de modo que Cristo, sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, possui duas vontades — uma humana e uma divina —, pois um homem sem vontade não é homem completo, e sem isso o mistério da salvação ficaria destruído. Em julho de 645, em Cartago, travou um célebre debate público com Pirro, ex-patriarca de Constantinopla, ao fim do qual este reconheceu a posição ortodoxa e foi reconciliar-se em Roma. Convocado depois a Roma, Máximo tornou-se o arquiteto teológico do grande Concílio de Latrão de 649, reunido pelo Papa São Martinho I, que condenou solenemente o monotelismo. Dessa época é seu testemunho da primazia romana: “As extremidades da terra e todos os que em toda parte confessam pura e retamente o Senhor olham diretamente para a santíssima Igreja Romana e para a sua confissão e fé, como para um sol de luz inextinguível.”


Lutas, prisão e martírio

A defesa da ortodoxia chocava-se com a política imperial. Heráclio publicara a Ekthesis em 638, impondo a fórmula de uma só vontade; seu sucessor, Constante II, substituiu-a em 648 pelo Typos, que proibia discutir o assunto. Para Máximo, proibir a expressão da verdade equivalia a negá-la. O Papa Martinho I foi arrastado de Roma em 653 e morreu maltratado no exílio, em 655. Máximo, reconhecido como líder dos ortodoxos do Oriente, foi levado a Constantinopla e julgado, acusado de “traição” — de ter conspirado com o usurpador Gregório e de ter causado a perda do Egito e da África ao império — e de heresia. Recusando comungar com uma Sé que se condenara a si mesma, foi exilado em Bizia, na Trácia, onde sofreu frio e fome, sempre firme em sua recusa de aceitar o Typos.


Em 662, já com cerca de 82 anos, Máximo e seus dois discípulos, ambos chamados Anastácio, foram trazidos de novo a julgamento em Constantinopla e anatematizados. A sentença foi cruel: mandaram cortar-lhe a língua e decepar-lhe a mão direita — os dois instrumentos pelos quais, pela palavra e pela escrita, combatera o erro —, exibi-lo assim mutilado pela cidade e enviá-lo ao exílio perpétuo. Mutilado, mas com a fé intacta, o velho monge foi desterrado para a longínqua região de Lázica (Cólquida), no Cáucaso.


Morte e legado

Esgotado pelos tormentos, São Máximo morreu em 13 de agosto de 662, na fortaleza de Schemaris, em Lázica (na atual Geórgia, perto de Tsageri). Segundo o relato de Anastácio Bibliotecário, ele previra em visão o dia de sua morte, e luzes prodigiosas teriam aparecido sobre o seu túmulo. Apenas dezenove anos depois, sua doutrina foi solenemente vindicada: o VI Concílio Ecumênico — Constantinopla III (680–681) — definiu a fé nas duas vontades e duas operações de Cristo, condenando o monotelismo como heresia e confirmando aquilo por que Máximo dera a vida.


São Máximo é tido como um dos maiores teólogos da Igreja grega, merecedor do título honroso de Teólogo; pode-se dizer que completa e encerra a série dos escritos patrísticos sobre a Encarnação, sintetizados depois por São João Damasceno. Mestre da teologia da Encarnação e da divinização do homem (theosis), autor de obras como os Ambigua, a Mistagogia e os Capítulos sobre a Caridade, sua influência atravessou os séculos, do Oriente bizantino ao Ocidente latino através de João Escoto Erígena. É venerado como um dos últimos Padres da Igreja reconhecidos em comum por católicos e ortodoxos.

Contexto

O contexto em que viveu

São Máximo, o Confessor, viveu num dos séculos mais convulsionados da história do Império Bizantino. Sob os imperadores Heráclio (610–641) e seu neto Constante II (641–668), o Oriente cristão atravessou guerras devastadoras. Em 614, os exércitos persas sassânidas de Cosroes II tomaram a Síria e a Palestina, saquearam Jerusalém e levaram para a Pérsia a relíquia da Vera Cruz. Só depois de uma longa contraofensiva, com a vitória decisiva de Heráclio perto de Nínive (627), a Cruz foi restituída e o próprio imperador a reconduziu solenemente a Jerusalém, por volta de 629–630.


O triunfo, porém, foi efêmero. Logo após o esgotamento de duas potências exauridas por décadas de guerra, irrompeu a súbita expansão árabe-islâmica. Os árabes invadiram a Síria em 634, derrotaram os bizantinos de forma esmagadora no rio Yarmuk (636) e, em poucos anos, ocuparam a Palestina — Jerusalém capitulou em 638 — e o Egito, com a queda de Alexandria por volta de 640. A perda de províncias inteiras, muitas delas habitadas por cristãos não calcedônios, agravou a urgência imperial de costurar a unidade religiosa do que restava do Império.


Foi nesse cenário que nasceu a grande crise teológica do tempo de Máximo. Buscando reconciliar os calcedônios com os miafisitas (chamados monofisitas) do Egito e da Síria, o Patriarca Sérgio de Constantinopla e o imperador Heráclio promoveram primeiro o monoenergismo — a tese de uma só “operação” (energeia) em Cristo — e, em seguida, o monotelismo, que afirmava nele uma só vontade. A fórmula foi consagrada no documento imperial chamado Ekthesis (638), redigido por Sérgio e autorizado por Heráclio, que proibia falar tanto de “uma” quanto de “duas operações” e confessava uma única vontade. Sob Constante II, a Ekthesis foi substituída pelo Typos (648), edito ainda mais drástico que proibia, sob pena de exílio e castigo, toda discussão sobre o número de vontades e operações em Cristo.


Diante dessa política imperial, a Sé de Roma tornou-se o baluarte da fé calcedônia. O Papa Honório I (625–638) chegara a responder ambiguamente a Sérgio, falando de “uma só vontade” — frase que tornaria seu nome objeto de controvérsia secular, culminando em sua condenação pelo Terceiro Concílio de Constantinopla, o Sexto Concílio Ecumênico (680–681). Mas seus sucessores — Severino, João IV, Teodoro I e sobretudo Martinho I — reagiram com firmeza. Em outubro de 649, Martinho I reuniu no Latrão um concílio de cerca de 105 bispos que condenou solenemente o monoenergismo, o monotelismo, a Ekthesis e o Typos. A represália imperial foi brutal: Martinho I foi preso, deportado e morreu mártir; Máximo, principal arquiteto teológico daquele concílio, foi julgado, mutilado e exilado.


Esse mundo era também herdeiro de uma riquíssima tradição teológica grega. O monaquismo oriental — no qual Máximo se formou após deixar a corte imperial — guardava e transmitia a herança dos Padres Capadócios, especialmente São Gregório Nazianzeno, e os escritos atribuídos a Dionísio Areopagita (o Pseudo-Dionísio), que circulavam desde fins do século V e exerciam enorme influência na espiritualidade mística bizantina. Foi precisamente desse arsenal patrístico que Máximo se serviu, comentando o Areopagita em escólios que asseguraram sua leitura ortodoxa, para defender que em Cristo coexistem, sem confusão, a vontade e a operação divinas e as humanas — afirmando assim a integridade plena da natureza humana assumida pelo Verbo.

Fatos contextuais
Nascimento (c. 580)
São Máximo nasce por volta de 580. A origem é disputada: a Vida grega o coloca e...
Heráclio torna-se imperador
Em outubro de 610, Heráclio depõe o tirano Focas e é coroado imperador de Bizânc...
Faz-se monge em Crisópolis (c. 613/614)
Deixa a vida secular — segundo a Vida grega, depois de ter sido primeiro-secretá...
Persas tomam Jerusalém e levam a Vera Cruz
Em 614 os persas sassânidas conquistam a Síria e a Palestina, saqueiam Jerusalém...
Transfere-se para Cízico
Por volta de 625 muda-se para um mosteiro em Cízico, levando consigo seu discípu...

Suas contribuições à teologia

Cristo, o Logos: duas naturezas, duas operações, duas vontades

No coração do pensamento de Máximo está a defesa intrépida da integridade da humanidade de Cristo. Contra o monotelismo — que admitia em Cristo uma só vontade, a divina —, Máximo sustentou que, possuindo o Verbo encarnado duas naturezas, tem também duas energias (operações) e duas vontades, a divina e a humana. Sua razão é soteriológica: uma humanidade sem vontade, um homem sem vontade, não é um homem verdadeiro; se Cristo não tivesse vontade humana, não teria assumido nem redimido aquilo que mais nos define. A vontade humana de Cristo é plenamente real e, ao mesmo tempo, livremente conformada à vontade do Pai.


Vontade natural e vontade gnômica: a liberdade do “sim”

Máximo distingue a vontade natural (thelema physikon) — o desejo racional e vital do que é conforme à natureza, comum a todo ser humano — da vontade gnômica (gnome), o impulso deliberativo, marcado pela hesitação, pela opinião e pela escolha entre opostos, próprio da condição decaída. Em Cristo há vontade humana natural, mas não há vontade gnômica de deliberação vacilante: sua vontade humana, deificada pela união hipostática, adere desde sempre ao bem. No Getsêmani — “não a minha vontade, mas a tua” — Máximo lê não um conflito, mas a vontade humana plenamente conformada à divina: para ele, o máximo da liberdade é o “sim”, a conformidade com a vontade de Deus.


Os logoi: a criação como teofania ordenada a Cristo

Máximo ensina que cada criatura possui o seu logos — a razão, intenção ou “vontade” divina que a constitui — e que todos esses logoi preexistem e estão enraizados no único Logos divino, o Verbo pelo qual tudo foi feito. A criação inteira é assim uma teofania ordenada: um cosmos em que os seres se relacionam entre si e convergem para a sua fonte. Contemplar os logoi das coisas é um caminho para contemplar Deus e participar dele, tendo Cristo, o Logos encarnado, como centro e fim de todo o real.


Liturgia cósmica, o homem mediador e a deificação (theosis)

O homem é microcosmo e mediador: chamado a unir em si as grandes divisões do ser (incriado e criado, inteligível e sensível, céu e terra, paraíso e mundo habitado, masculino e feminino) e a reconduzir o cosmos a Deus. Onde Adão falhou, Cristo realiza definitivamente essa unificação, e o universo é convocado a tornar-se liturgia, glória de Deus — a “liturgia cósmica” que Hans Urs von Balthasar tomaria como chave da obra maximiana. O fim de tudo é a theosis, a deificação: o homem feito “deus por graça”, participando da vida divina.


A primazia da caridade e a síntese

Toda essa arquitetura desemboca na caridade. Nos Capítulos sobre a Caridade, Máximo apresenta o amor como o vértice da vida espiritual, que une o homem a Deus e aos irmãos e coroa o caminho ascético. Sua genialidade está justamente em sintetizar ascese, contemplação e dogma numa só visão, fazendo da ortodoxia trinitária e cristológica não especulação abstrata, mas o fundamento de toda a vida em Cristo.

"A caridade é uma boa disposição da alma, segundo a qual nada se prefere ao conhecimento de Deus." Centúrias sobre a Caridade, I, 1
Influência

Quem ele influenciou

O alicerce da ortodoxia bizantinaA influência de São Máximo na teologia cristã é imensa. Sua defesa intransigente do diotelismo — a doutrina das duas vontades (divina e humana) em Cristo — forneceu o fundamento teológico que o VI Concílio Ecumênico (III de Constantinopla, 680–681) definiu como dogma, condenando o monotelismo. Não por acaso é chamado por muitos de “verdadeiro pai da teologia bizantina”, por ter tecido as muitas ideias de seus predecessores numa síntese coerente.Peso no Oriente e redescoberta no OcidenteSeu pensamento moldou toda a teologia bizantina posterior: São João Damasceno depende de suas categorias cristológicas, e sua herança chega até o Palamismo hesicasta. No Ocidente, foi João Escoto Erígena quem, no século IX, traduziu para o latim a Ambigua ad Iohannem e as Quaestiones ad Thalassium, num encontro que se mostrou decisivo não só para o próprio Erígena, mas para a história intelectual da Europa Ocidental.Relevância moderna e ecumênicaNa era contemporânea, foi sobretudo Hans Urs von Balthasar, com sua obra Liturgia Cósmica (Kosmische Liturgie), quem reabilitou Máximo, resgatando-o de uma relativa obscuridade nos manuais de patrologia e revelando-o como um dos grandes teólogos cristãos. Venerado tanto por católicos quanto por ortodoxos, São Máximo é hoje uma das figuras de maior peso no diálogo ecumênico.

Debates

Debates e controvérsias

O processo político por “traição”

A condenação de São Máximo não foi enquadrada apenas como questão teológica, mas revestida de um crime político de traição. No julgamento em Constantinopla (655), seus acusadores o responsabilizaram pela perda ao Império do Egito, de Alexandria, da Pentápolis e da África para os exércitos árabes. Foi acusado de conspirar com o usurpador Gregório, exarca da África — segundo a tradição, teria até divulgado um sonho profético favorável à revolta de Gregório contra o imperador Constante II.


A questão do Papa Honório I

Outra grande controvérsia histórica é a do Papa Honório I. Em suas cartas a Sérgio de Constantinopla, Honório havia escrito imprudentemente que se devia confessar “uma só vontade” em Cristo. Por isso, o próprio VI Concílio Ecumênico que vindicou Máximo anatematizou Honório — não como monotelita formal, mas por ter favorecido com sua ambiguidade a política de Sérgio. Curiosamente, o próprio Máximo havia antes procurado defender a ortodoxia de Honório.


Máximo e a primazia romana

Toda essa controvérsia se deu no contexto da firme adesão de Máximo à primazia da Sé de Roma como baluarte da ortodoxia contra a ingerência imperial de Constantinopla — um dos motivos pelos quais foi preso junto com o Papa São Martinho I.

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