Papias de Hierápolis
Papias de Hierápolis (c. 60 – c. 130/140 d.C.) foi bispo de Hierápolis, na Frígia (Ásia Menor, atual Turquia), e um dos Padres Apostólicos. Segundo Santo Ireneu, foi “ouvinte de João e companheiro de Policarpo”, pertencendo à geração imediatamente posterior aos Apóstolos. Escreveu uma obra em cinco livros, a “Exposição dos Oráculos do Senhor”, hoje perdida e conhecida apenas por fragmentos citados por Ireneu e por Eusébio de Cesareia; esses fragmentos preservam alguns dos mais antigos testemunhos sobre a origem dos Evangelhos de Marcos e de Mateus. É venerado como santo, com festa em 22 de fevereiro.
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O que se sabe
Quem foi e seu tempo
Papias (em grego, Παπίας) foi bispo de Hierápolis, cidade da Frígia situada no vale do Lico, perto de Laodiceia e de Colossos, na Ásia Menor (atual Turquia). Pertence ao grupo dos Padres Apostólicos, isto é, à geração cristã imediatamente posterior aos Apóstolos. Eusébio de Cesareia registra que ele “se tornou conhecido” pela mesma época que Santo Inácio de Antioquia, situando-o na passagem do século I para o II. Da sua vida pessoal quase nada se conhece com segurança: não há dados confiáveis sobre seu nascimento, sua família ou as circunstâncias de sua morte, e as datas são apenas aproximadas (nasceu por volta de 60/70 e morreu por volta de 130/140 d.C.).
Discípulo de quem? (João e Policarpo)
Santo Ireneu de Lião o descreve como “ouvinte de João e companheiro de Policarpo, um homem dos tempos antigos”, ligando-o assim diretamente à tradição apostólica de São João e ao mártir São Policarpo de Esmirna. No prefácio de sua obra, conservado por Eusébio, o próprio Papias conta que recolhia com cuidado o que aprendera “dos presbíteros” e dos que os haviam seguido, perguntando “o que disseram André, ou Pedro, ou Filipe, ou Tomé, ou Tiago, ou João, ou Mateus”, e o que diziam “Aristião e o presbítero João, os discípulos do Senhor”. A partir desse texto, Eusébio levantou a célebre questão sobre qual João teria sido o mestre de Papias, distinguindo o Apóstolo João de um suposto “presbítero João”. O debate permanece em aberto entre os estudiosos: muitos autores católicos identificam esse João com o próprio Apóstolo, ao passo que outros admitem dois personagens distintos. Convém, portanto, tratar o ponto com prudência, sem afirmar mais do que as fontes permitem.
A obra: Exposição dos Oráculos do Senhor
Papias escreveu, já em idade avançada (a obra costuma ser datada entre c. 95 e 140), um tratado em cinco livros intitulado Exposição (ou Interpretação) dos Oráculos do Senhor. Seu método era valorizar mais a tradição oral viva do que os livros: dizia preferir “a voz viva e permanente” às palavras tiradas dos livros, recolhendo o que os presbíteros transmitiam dos Apóstolos. A obra perdeu-se quase por completo e só sobrevive em fragmentos citados por Ireneu e por Eusébio. Apesar de pequenos, esses fragmentos são preciosíssimos: preservam os mais antigos testemunhos sobre a composição dos Evangelhos — o relato de que Marcos, “intérprete de Pedro”, escreveu com exatidão, embora não em ordem, o que Pedro pregava; e a notícia de que Mateus “compôs os oráculos em língua hebraica, e cada um os interpretava como podia”.
Milenarismo, morte e veneração
Papias foi milenarista (quiliasta): ensinava que, após a ressurreição dos mortos, haveria um reino terreno de Cristo por mil anos. Trata-se de uma opinião característica de vários autores antigos — Eusébio a atribui também a Santo Ireneu —, e foi objeto de controvérsia histórica, e não de uma condenação formal de Papias: ele jamais foi declarado herege e é venerado como santo. A tradição sobre seu martírio é incerta e não pode ser afirmada com segurança. A data e o modo de sua morte permanecem desconhecidos; estima-se que tenha falecido por volta de 130/140 d.C. A Igreja celebra sua memória em 22 de fevereiro, recordando-o, nas palavras do Martirológio Romano, como o bispo de Hierápolis que ouviu João, foi companheiro de Policarpo e expôs as palavras do Senhor.
O contexto
Papias de Hierápolis pertence à geração dos chamados Padres Apostólicos, aqueles cristãos que viveram na fronteira entre a era das testemunhas oculares de Cristo e a Igreja que já não conhecera os Apóstolos em pessoa. Floresceu no fim do século I e início do século II, na época sub-apostólica, quando a memória viva da pregação dos Doze começava a ceder lugar à tradição escrita. Ele mesmo confessava preferir, às palavras dos livros, “a voz viva e permanente” dos discípulos dos presbíteros que o visitavam, sinal de uma Igreja que ainda se nutria do testemunho oral transmitido de geração em geração.
Seu campo de ação foi a Ásia Menor cristã, mais precisamente Hierápolis, na Frígia, cidade do vale do Lico, vizinha de Laodiceia e de Colossos, comunidades já evangelizadas no tempo de São Paulo (cf. Cl 4,13). Era uma região marcada pela presença apostólica e profética: ali, segundo a tradição recolhida por Eusébio e por Policrates de Éfeso, repousava o apóstolo Filipe com suas filhas, dotadas do dom de profecia, das quais o próprio Papias dizia ter ouvido relatos admiráveis. A poucas léguas dali, em Éfeso e Esmirna, a tradição situava o apóstolo João, que ali teria permanecido até o tempo de Trajano.
Foi um tempo de transmissão e de transição. Papias era contemporâneo e companheiro de Policarpo de Esmirna, discípulo dos apóstolos, e de Inácio de Antioquia, segundo bispo daquela sé. Ambos selariam com o sangue o testemunho da fé: Inácio foi conduzido ao martírio em Roma sob Trajano, e Policarpo viria a morrer queimado em Esmirna por volta do ano 155. Era a época das primeiras perseguições imperiais, da pressão sobre os cristãos sob Domiciano, que exilara o apóstolo João em Patmos, e sob Trajano, cujo rescrito a Plínio fixou a política romana diante dos fiéis. Sobre esse pano de fundo, a poucas décadas da destruição do Templo de Jerusalém no ano 70, a Igreja consolidava o cânon e a doutrina.
É nesse ambiente que Papias compôs sua obra em cinco livros, a “Exposição dos Oráculos do Senhor”, espécie de comentário entrelaçado de tradições recebidas dos presbíteros. Dela restam apenas fragmentos, citados sobretudo por Santo Ireneu e por Eusébio de Cesareia, que preservou seu precioso prefácio e seus testemunhos sobre a origem dos Evangelhos de Marcos e de Mateus. Papias professava também o milenarismo, isto é, a expectativa de um reino terreno de mil anos de Cristo após a ressurreição, ideia que partilhava com São Justino e Santo Ireneu e que, embora depois abandonada pela teologia comum, jamais foi tida como heresia condenada.
Período histórico
Obra atribuída
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