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Medalius · Codex de Personalidades · Papa São Gregório I, Magno
Papa São Gregório I, Magno
✦ Doutor da Igreja
Período
540–604 (64 anos)
Lugar
Roma
Estado canônico
Santo · Doutor da Igreja
Escola
Patrística latina
Idioma principal
Latim
Santo · Doutor da Igreja · Padre da Igreja

Papa São Gregório I, Magno

540–604
Magno (o Grande) Doutor da Igreja Padre da Igreja

São Gregório Magno (Roma, c. 540 — Roma, 12 de março de 604) foi o 64.º papa, eleito em 590, Padre e Doutor da Igreja, e um dos raríssimos pontífices a receber o epíteto “Magno” (“o Grande”) — que, popularmente, só ele e São Leão I carregam. Nascido em rica família patrícia romana (filho de Gordiano e de Santa Sílvia, sobrinho das santas Tarsila e Emiliana), foi prefeito de Roma por volta de 572-573; em seguida vendeu seus bens, fundou seis mosteiros na Sicília e converteu sua casa no monte Célio no mosteiro de Santo André, onde se fez monge. Ordenado um dos sete diáconos de Roma, serviu cerca de seis anos (c. 579-585/586) como apocrisiário, isto é, legado papal na corte imperial de Constantinopla. Eleito papa com relutância em 590, após Pelágio II morrer de peste, governou a Igreja em meio às invasões lombardas, à fome e à peste, cuidando dos pobres com o patrimônio de São Pedro e defendendo Roma de Agilulfo. Foi o primeiro a fazer do título “servo dos servos de Deus” (servus servorum Dei) divisa do seu pontificado e enviou Santo Agostinho de Cantuária e seus monges para evangelizar os anglo-saxões da Inglaterra (596/597). Deixou obras de enorme influência — os Morais sobre Jó (Moralia in Iob), a Regra Pastoral, os Diálogos, homilias sobre Ezequiel e os Evangelhos e um Registro com mais de 800 cartas — e a tradição associou seu nome ao canto litúrgico (canto gregoriano). Atormentado pela gota nos últimos anos, morreu em 12 de março de 604 e foi sepultado na basílica de São Pedro.

Biografia

Origens, formação e vida monástica

Gregório nasceu em Roma por volta de 540, no seio de uma rica família patrícia (a tradição liga-o à gens Anicia). Seu pai foi o senador Gordiano e sua mãe, venerada como Santa Sílvia; duas irmãs de seu pai, Tarsila e Emiliana, são também honradas como santas. Por volta de 572-573, com pouco mais de trinta anos, ocupou o alto cargo de prefeito da cidade de Roma.


Cerca de 574, porém, abandonou a carreira civil para abraçar a vida monástica: deu seus bens da Sicília à fundação de seis mosteiros e converteu a casa paterna, no monte Célio, em um sétimo mosteiro sob o patrocínio de Santo André, onde ele próprio se fez monge. Aquele que percorrera a cidade vestido de seda e joias passou a servir o altar do Senhor com hábito humilde.


Diaconato e missão em Constantinopla

Arrancado do claustro, foi ordenado pelo papa Pelágio II — bem contra a sua vontade — como um dos sete diáconos (regionários) de Roma. Por volta de 579 foi enviado a Constantinopla como apocrisiário, ou seja, embaixador permanente do papa junto à corte imperial bizantina, missão que durou cerca de seis anos (até 585/586).


A esse período costuma associar-se o célebre episódio narrado por São Beda: vendo no mercado de Roma alguns jovens à venda, de pele clara e belos cabelos, Gregório perguntou de onde vinham e ouviu que eram Angli (anglos) e pagãos. Comovido, respondeu que tinham rosto de anjos e mereciam ser co-herdeiros dos anjos no céu — jogo de palavras que a tradição fixou como “não anglos, mas anjos”. Quis ir ele mesmo pregar-lhes, mas o povo de Roma não consentiu que partisse.


Pontificado (590–604): governo, missão e reforma

Em fevereiro de 590, a peste levou o papa Pelágio II, e o clero, o senado e o povo elegeram unanimemente Gregório, então abade de Santo André. Ele recuou diante da dignidade, ciente de que aceitá-la era despedir-se para sempre da vida de claustro que amava; consagrado bispo de Roma em 3 de setembro de 590, governou a Igreja com extraordinária capacidade de trabalho. Administrou com mãos firmes o patrimônio de São Pedro, comprando e distribuindo trigo e socorrendo os necessitados, e defendeu Roma da pressão dos lombardos, chegando a tratar a paz com o rei Agilulfo, em parte por meio da rainha católica Teodelinda.


Em 596/597 enviou à Inglaterra Santo Agostinho de Cantuária com cerca de quarenta monges, dando início à conversão dos anglo-saxões, missão que tanto lhe tocava o coração. Opôs-se com vigor ao título de “patriarca ecumênico” assumido pelo patriarca de Constantinopla, João, o Jejuador, vendo nele uma pretensão contrária ao espírito do Evangelho; em contraste, fez sua a humilde divisa servus servorum Dei — “servo dos servos de Deus”. A tradição também lhe atribui reformas litúrgicas e a organização do canto sacro, que veio a chamar-se canto gregoriano.


Últimos anos, morte e legado

De saúde frágil, sofrendo de males do estômago e, na segunda metade do pontificado, atormentado pela gota, Gregório não cessou de governar, pregar e escrever. Legou obras de imensa influência — os Morais sobre Jó (Moralia in Iob), a Regra Pastoral (Regula Pastoralis), os Diálogos, as homilias sobre Ezequiel e sobre os Evangelhos e um vasto Registro de cartas. Morreu em 12 de março de 604 e foi sepultado na basílica de São Pedro. A posteridade chamou-o “Magno”, o Grande — epíteto que, popularmente, só ele e São Leão I carregam — e a Igreja venera-o como Doutor, contado entre os quatro grandes Doutores latinos, ao lado de Ambrósio, Jerônimo e Agostinho.

Contexto

O contexto em que viveu

O pontificado de Gregório transcorreu num dos momentos mais sombrios da história de Roma e da Itália. As longas Guerras Góticas e a reconquista de Justiniano, no século VI, em vez de restaurar a antiga ordem, deixaram a península arrasada, despovoada e empobrecida; o poder imperial romano no Ocidente estava em ruínas.

Em 568, mal terminada essa guerra, os lombardos invadiram a Itália e em poucas décadas dominaram boa parte do território, cercando os domínios bizantinos e ameaçando a própria Roma. A administração imperial, agora exercida a partir do distante exarcado de Ravena, mostrava-se fraca e incapaz de proteger a cidade.

À pressão militar somavam-se calamidades: peste — que matou o próprio papa Pelágio II —, fome e as inundações do Tibre castigavam a população romana. Nesse vácuo de poder civil, o bispo de Roma viu-se compelido a assumir tarefas que cabiam ao Estado: alimentar os famintos, resgatar cativos, pagar soldados e negociar tréguas com os invasores. Foi assim que o papado, sobretudo sob Gregório, começou a preencher o vazio deixado pela autoridade temporal, lançando as bases do papado medieval.

No horizonte oriental, mantinham-se vivas as tensões entre Roma e Constantinopla. A disputa em torno do título de “patriarca ecumênico”, reivindicado pelo patriarca da capital imperial, expôs a delicada relação entre a antiga Sé de Pedro e a Igreja do Oriente, num tempo em que o centro de gravidade político do Império se deslocara definitivamente para o Bósforo.

Fatos contextuais
Nascimento em Roma
Gregório nasce em Roma por volta do ano 540, em rica família patrícia e profunda...
Os lombardos invadem a Itália
Na primavera de 568, os lombardos, liderados pelo rei Alboíno, descem da Panônia...
Prefeito da cidade de Roma
Por volta de 573, com pouco mais de trinta anos, Gregório alcança o ápice da car...
Conversão à vida monástica e fundação de mosteiros
Cerca de 574, Gregório abandona a vida pública e se faz monge. Converte sua casa...
Apocrisiário (legado papal) em Constantinopla
Na primavera de 579, o papa Pelágio II ordena Gregório diácono e o envia a Const...

Suas contribuições à teologia

O coração do pensamento de São Gregório Magno é uma teologia pastoral e espiritual a serviço do governo das almas. Na Regra Pastoral (Regula Pastoralis), escrita logo após sua eleição, ele traça a figura do bispo ideal como pastor e médico das almas, e define o cuidado dos fiéis como a mais alta e exigente das artes: “Ninguém presume ensinar uma arte sem antes a ter aprendido com atenta meditação. Que temeridade é, pois, que os inábeis assumam a autoridade pastoral, sendo o governo das almas a arte das artes!” (ars artium regimen animarum).

Bento XVI resume esse ideal dizendo que Gregório definia o cuidado das almas como a “ars artium, a arte das artes”, exigindo do pastor que conheça o seu rebanho e adapte a palavra à condição de cada pessoa, reconhecendo cada dia a própria indignidade para que o orgulho não anule o bem realizado.

Nos Comentários Morais sobre Jó (Moralia in Iob), uma das maiores obras patrísticas, Gregório constrói um vasto tratado de teologia moral e espiritual: examina a Escritura em três dimensões — literal, alegórica e moral — dando clara prioridade ao sentido moral, voltado à conversão do coração, à compunção e ao combate espiritual contra os vícios em favor das virtudes.

Sua espiritualidade une intimamente contemplação e ação: o desejo de Deus e a oração alimentam o serviço pastoral, numa “harmoniosa integração entre palavra e ação, pensamento e compromisso”. Como observa Bento XVI relendo as suas Homílias sobre Ezequiel, a pregação nasce da experiência interior — o pregador deve, por assim dizer, mergulhar a pena no sangue do próprio coração para alcançar o ouvido do próximo. Toda a sua obra é marcada pela humildade, condensada no título que escolheu para si: servo dos servos de Deus.

"O governo das almas é a arte das artes." Regra Pastoral, I, 1
Influência

Quem ele influenciou

São Gregório Magno é comumente reconhecido como o fundador do papado medieval, que exerceria poder tanto espiritual quanto temporal, e moldou profundamente a Igreja latina da Idade Média. É um dos quatro grandes Doutores latinos, ao lado de Agostinho, Ambrósio e Jerônimo.A Regra Pastoral tornou-se o manual dos bispos por séculos — “por séculos os ideais de Gregório foram os do clero do Ocidente”. Foi rapidamente traduzida para o grego e para o anglo-saxão; no fim do século IX o rei Alfredo, o Grande, mandou traduzi-la para o inglês antigo e enviá-la aos seus bispos, dentro de seu programa de reforma educativa. Foi também texto de referência da reforma carolíngia.Os Diálogos, cujo livro II é o único testemunho antigo sobre a vida de São Bento de Núrsia, difundiram por toda a Idade Média o ideal monástico e o culto de São Bento, tornando-se um dos livros mais populares do período. Sua exegese (sobretudo o Moralia in Iob) formou a espiritualidade medieval.O seu nome ficou ligado ao “canto gregoriano” e ao Sacramentário Gregoriano — atribuição tradicional e debatida: as fontes católicas advertem que permanece muita controvérsia quanto à exata extensão das reformas litúrgicas de Gregório, e que apenas pequena parte do chamado canto gregoriano data do seu tempo, embora o tipo de canto tenha sido então fixado para os séculos seguintes. Foi ainda o impulsionador da missão à Inglaterra (envio de Santo Agostinho de Cantuária, c. 596), o que lhe valeu o título de “Apóstolo dos Ingleses”.

Debates

Debates e controvérsias

A disputa sobre o título de “patriarca ecumênico/universal”

O patriarca João, o Jejuador (João IV), de Constantinopla, assumiu num sínodo (588) o título de “bispo ecumênico”. Gregório opôs-se com firmeza, vendo nele um sinal de arrogância. Numa carta ao imperador Maurício (Registro, Livro VII, carta 33) escreveu: “Afirmo confiadamente que todo aquele que se chama, ou deseja ser chamado, Sacerdote Universal é, na sua soberba, o precursor do Anticristo, porque, orgulhosamente, se põe acima dos demais.” Em contraponto, Gregório adotou para si o título humilde de servus servorum Dei (“servo dos servos de Deus”) — segundo João Diácono, como lição de humildade a João, o Jejuador —, título que permaneceu nos seus sucessores.


Relações com o imperador Maurício e as cartas a Focas (602)

Gregório teve relações por vezes tensas com o imperador Maurício, sobretudo quanto à política para com os lombardos e à Igreja. Quando, em 602, o usurpador Focas tomou o trono e mandou matar Maurício e sua família, Gregório enviou-lhe cartas de felicitação pela ascensão. Esse episódio é um conhecido ponto controverso entre os historiadores: as cartas foram criticadas como elogio excessivo a um usurpador sanguinário, enquanto outros estudiosos as leem à luz das tensões anteriores com Maurício e da retórica oficial da época. Apresenta-se aqui o fato de modo sóbrio, sem julgar a intenção de Gregório.


A atitude diante da cultura clássica (lenda)

Difundiu-se na Idade Média a tradição de que Gregório desprezava as letras profanas e teria mandado destruir/queimar bibliotecas clássicas (a chamada lenda de “Gregório, destruidor dos ídolos pagãos”, difundida por cronistas como Martinho de Troppau). A historiografia trata isso como lenda largamente exagerada e sem base histórica sólida: Gregório conhecia bem a retórica e os Padres, ainda que, na expectativa do fim iminente do mundo, por vezes relativizasse o estudo das letras seculares.

Para estudar mais

Fontes e referências

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