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Medalius · Codex de Personalidades · Isidoro de Sevilha
Isidoro de Sevilha

Bartolomé Esteban Murillo (1617–1682) · fonte · PD

✦ Doutor da Igreja
Período
560–636 (76 anos)
Lugar
Sevilha
Estado canônico
Santo · Doutor da Igreja
Escola
Patrística
Idioma principal
Latim
Santo · Doutor da Igreja · Padre da Igreja

Isidoro de Sevilha

560–636
O último Padre da Igreja latina Doutor da Igreja Padre da Igreja

Santo Isidoro de Sevilha (c. 560–636) foi arcebispo de Sevilha, Doutor da Igreja e o maior sábio do seu tempo, tido como o último dos Padres latinos do Ocidente. Membro de uma notável família de santos, sucedeu seu irmão Leandro na sé hispalense e governou-a por cerca de três décadas, presidindo concílios decisivos e reformando a educação e a liturgia da Igreja na Espanha visigótica. É autor das Etymologiae, vasta enciclopédia que preservou o saber da Antiguidade e formou gerações ao longo de toda a Idade Média.

Biografia

Infância, formação e família

Isidoro nasceu por volta do ano 560, filho de Severiano e Teodora, numa nobre família hispano-romana de fé católica originária de Cartagena, depois estabelecida em Sevilha. Foi o mais novo de quatro irmãos, todos venerados como santos: Leandro, arcebispo de Sevilha; Fulgêncio, bispo de Astigi (Écija); e Florentina, religiosa que, segundo a tradição, dirigiu numerosos mosteiros de virgens.


Órfão ainda jovem, Isidoro foi criado e instruído por seu irmão mais velho, Leandro. Educou-se na escola da catedral de Sevilha — a primeira de seu gênero na Espanha —, onde se ensinavam o trívio e o quadrívio. Dotado de inteligência viva, dedicou-se com afinco ao estudo das letras sagradas e profanas, dominando o latim, o grego e o hebraico.


Vida adulta e missão principal

À morte de seu irmão Leandro, por volta do ano 600, Isidoro foi escolhido para sucedê-lo como arcebispo de Sevilha. Governou a sé hispalense por cerca de três décadas, num tempo de transição entre o mundo antigo e a nova Espanha visigótica, empenhando-se em consolidar a unidade católica e em erradicar o arianismo, que havia lançado profundas raízes entre os visigodos.


Como pastor e organizador da Igreja, presidiu importantes assembleias conciliares:

  1. O II Concílio de Sevilha, iniciado em 13 de novembro de 619, no reinado de Sisebuto, que expôs a verdadeira doutrina sobre a natureza de Cristo contra erros heréticos.
  2. O IV Concílio de Toledo, iniciado em 5 de dezembro de 633, com a presença de todos os bispos da Espanha, cujas deliberações dirigiu e cujos decretos em grande parte inspirou — entre eles a obrigação de cada bispo manter uma escola episcopal, nos moldes da que já existia em Sevilha.


Trabalhou ainda pela reforma da educação eclesiástica e pela organização da liturgia, contribuindo para a fixação do rito hispânico (moçárabe).


Obra intelectual e legado escrito

Isidoro foi tido como o homem mais sábio de sua época e o último dos grandes Padres latinos do Ocidente. Sua obra mais célebre são as Etymologiae (ou Origines), enciclopédia em vinte livros na qual reuniu e ordenou o saber da Antiguidade — gramática, retórica, medicina, direito, história, geografia, teologia e muito mais. Concebida como um compêndio de todo o conhecimento humano e divino, a obra preservou para a posteridade grande parte da cultura antiga e tornou-se um dos manuais essenciais de toda a Idade Média, valendo-lhe a fama de mestre dos séculos medievais. Escreveu também histórias dos godos e uma crônica universal, além de obras teológicas e ascéticas.


Últimos anos e morte

Nos últimos meses de vida, Isidoro intensificou de tal modo as suas esmolas que os pobres acorriam de toda parte. Poucos dias antes de morrer, chamou dois bispos, João e Eparquio, e dirigiu-se com eles à igreja, seguido do clero e do povo. Ali, em pública penitência, foi coberto com cilício e cinza; de mãos erguidas ao céu, pediu perdão dos seus pecados e encomendou-se às orações dos presentes. Recebeu então o Corpo e o Sangue de Cristo, perdoou as dívidas de seus devedores e distribuiu aos pobres o que lhe restava. De volta à sua casa, expirou serenamente em 4 de abril de 636, em Sevilha, sendo sepultado junto a seus irmãos Leandro e Florentina.


Canonizado pelo papa Clemente VIII em 1598, foi proclamado Doutor da Igreja pelo papa Inocêncio XIII em 1722.

Contexto

O contexto em que viveu

Isidoro de Sevilha viveu na Hispânia visigótica dos séculos VI e VII, num tempo em que, como registra a antiga Enciclopédia Católica, as instituições e o saber clássico do Império Romano desapareciam rapidamente. Após quase dois séculos de domínio godo sobre a península, o reino visigodo consolidava-se com capital em Toledo, e da fusão entre a população hispano-romana e os conquistadores germânicos começava a despontar uma nova civilização.

O obstáculo mais grave a essa unidade era religioso: os visigodos professavam o arianismo, heresia que negava a plena divindade do Filho, enquanto a população hispano-romana era católica. A superação dessa divisão deu-se no reinado de Recaredo, que abjurou o arianismo e abraçou a fé católica. Esse momento decisivo foi selado no III Concílio de Toledo, reunido em 589, no qual a Espanha visigótica renunciou solenemente ao arianismo e o rei professou publicamente a fé nicena.

Papel central nessa conversão coube a Leandro de Sevilha, irmão mais velho de Isidoro e seu antecessor na sé metropolitana. Tendo influenciado profundamente Recaredo e pregado o sermão de encerramento do concílio de 589, Leandro foi o grande artífice da passagem do povo godo do arianismo ao catolicismo, algo que o próprio Isidoro reconheceu ao escrever que, por sua fé e seu zelo, o povo godo foi convertido do arianismo à fé católica.

Nesse período, os concílios de Toledo tornaram-se o eixo da aliança entre a Igreja e o reino visigótico, regulando ao mesmo tempo a disciplina eclesiástica e a vida do reino. Sucedendo o irmão na sé de Sevilha por volta de 600, Isidoro presidiu, já em idade avançada, o IV Concílio de Toledo, iniciado em dezembro de 633 e reunindo os bispos de toda a Espanha; dele foi o autor da maior parte de suas determinações, entre as quais a exigência de uma escola junto a cada sé episcopal.

Cabe a Isidoro, por fim, a posição singular de elo entre o mundo antigo e a Idade Média. Último dos Padres latinos e tido como o homem mais erudito de seu tempo, reuniu nas Etymologiae e em suas demais obras inúmeros fragmentos do saber clássico que, de outro modo, ter-se-iam perdido irremediavelmente. Seu contemporâneo Bráulio de Zaragoza chegou a dizer que Deus o suscitara para restaurar os monumentos dos antigos, a fim de que não caíssemos por completo na barbárie.

Fatos contextuais
Nascimento de Isidoro
Nasce por volta do ano 560, provavelmente em Cartagena (segundo a tradição) ou e...
Conversão de Recaredo e III Concílio de Toledo
O rei visigodo Recaredo abjura publicamente o arianismo e a Espanha visigótica a...
Sucessão a Leandro na Sé de Sevilha
Com a morte de seu irmão São Leandro (falecido em 13 de março de 600 ou 601), qu...
Morte de São Gregório Magno
Falece em Roma, a 12 de março de 604, o papa São Gregório Magno, doutor da Igrej...
II Concílio de Sevilha
Isidoro preside o Segundo Concílio de Sevilha, iniciado em 13 de novembro de 619...

Suas contribuições à teologia

O traço mais marcante do pensamento de Santo Isidoro de Sevilha é a síntese e a preservação do saber a serviço da fé. Herdeiro do mundo antigo num tempo de colapso cultural após as invasões bárbaras, reuniu numa única obra a cultura clássica pagã e a tradição cristã, movendo-se, como observou Bento XVI, com a maior das facilidades de Marcial a Agostinho, de Cícero a Gregório Magno. Não dominava propriamente a síntese filosófica perfeita, mas possuía o dom da collatio, o de colher e reunir, movido pela preocupação admirável de não perder nada do que o homem havia adquirido nas épocas da antiguidade, fossem elas pagãs, judaicas ou cristãs.

Dessa convicção nasceu a sua obra-prima, as Etymologiae (ou Origines): uma verdadeira enciclopédia como serviço, um vasto depósito no qual se reúne, sistematiza e condensa todo o saber do seu tempo, citando cento e cinquenta e quatro autores cristãos e pagãos. Durante boa parte da Idade Média foi o manual mais usado nas escolas. Para Isidoro, o conhecimento do mundo não competia com a fé: era posto a serviço dela, sempre em sintonia com a fé católica, de modo que cultura e ciência se tornassem instrumentos para compreender a Deus e edificar a Igreja.

Isidoro foi também grande organizador da vida eclesiástica e litúrgica na Hispânia. À frente dos concílios de Toledo e de Sevilha, ordenou a disciplina da Igreja, unificou a liturgia hispânica (moçárabe) e, no IV Concílio de Toledo (633), promoveu o decreto que obrigava cada bispo a manter uma escola ou seminário em sua cidade catedralícia, com o estudo do grego, do hebraico, das artes liberais, do direito e da medicina, vinculando, assim, formação intelectual e formação dos pastores.

No campo propriamente teológico e espiritual, as suas Sententiae (em três livros) são tidas como a mais antiga suma de doutrina e moral da Igreja latina: um compêndio de teologia dogmática e moral que reúne o ensino dos Padres, sobretudo de Gregório Magno e de Agostinho, sobre a fé e a vida cristã. Nelas, Isidoro liga estreitamente o conhecimento e a virtude, ensinando que aqueles que procuram alcançar o descanso da contemplação devem preparar-se primeiro no estádio da vida ativa, e que o caminho do meio, composto por uma e outra forma de vida, é normalmente mais útil. Tomando Cristo por modelo, conclui que, assim como se deve amar a Deus com a contemplação, também se deve amar o próximo com a ação.

"As letras são os sinais das coisas, os símbolos das palavras, e têm tão grande força que nos transmitem, sem voz, o que disseram os ausentes." Etymologiae I, 3, 1
Influência

Quem ele influenciou

A influência de Isidoro de Sevilha se concentra, sobretudo, em sua obra-prima, as Etymologiae (ou Origines), a primeira tentativa cristã de compilar uma summa de todo o saber universal. Ao longo de boa parte da Idade Média foi o livro didático mais usado nas instituições de ensino, chegando a suplantar o recurso às próprias obras clássicas individuais. Calcula-se que cerca de mil manuscritos medievais das Etymologiae tenham sobrevivido, o que faz dela um dos textos mais copiados de todo o período, e ela foi impressa em pelo menos dez edições entre 1470 e 1530.Citando cerca de cento e cinquenta e quatro autores, cristãos e pagãos, a obra preservou inúmeros fragmentos do saber clássico que, de outro modo, ter-se-iam perdido irremediavelmente, funcionando como ponte entre a Antiguidade greco-romana e a cultura medieval. A fama das Etymologiae deu novo impulso ao gênero enciclopédico, que floresceu nos séculos seguintes, e moldou a educação e a transmissão do conhecimento em toda a cristandade ocidental. Por isso Isidoro é frequentemente chamado o último dos Padres latinos e uma figura-chave na continuidade do saber. Acrescenta-se a esse legado a herança litúrgica hispânica: em seu tratado De ecclesiasticis officiis, Isidoro tratou do culto divino e, em particular, da antiga liturgia espanhola, contribuindo para a tradição litúrgica que viria a ser conhecida como rito hispano-moçárabe.

Debates

Debates e controvérsias

Controvérsias históricas

A figura de Isidoro envolve alguns pontos historicamente debatidos, hoje em geral esclarecidos, que devem ser lidos no contexto do reino visigótico do século VII.


O IV Concílio de Toledo (633) e a questão dos judeus

Isidoro, já idoso, presidiu o IV Concílio de Toledo, iniciado em 5 de dezembro de 633, e foi o autor da maior parte de seus cânones. Vários desses cânones tratavam da situação dos judeus e dos convertidos sob o rei Sisebuto. O cânon 57 condenou os batismos forçados ocorridos no passado e determinou que, dali em diante, nenhum judeu fosse batizado à força; ao mesmo tempo, estabeleceu que os já batizados deveriam permanecer cristãos. Atribui-se a Isidoro o cânon 60, que mandava separar dos pais as crianças de famílias que praticavam o cripto-judaísmo, para serem educadas por cristãos, e o cânon 65, que proibia judeus e cristãos de origem judaica de exercer cargos públicos. Tais medidas, severas e marcadas pela mentalidade da época, são objeto de estudo histórico e devem ser compreendidas no contexto da relação entre Igreja e Estado no reino visigótico, sem anacronismo.


Canonização e título de Doutor

Houve discussão erudita sobre quando e por quem Isidoro foi formalmente reconhecido como santo: seu culto é antiquíssimo, e a tradição registra sua canonização por iniciativa do papa Clemente VIII, por volta de 1598. Posteriormente, em 1722, o papa Inocêncio XIII o proclamou Doutor da Igreja.


Local de nascimento

O lugar exato de seu nascimento é discutido: fontes tradicionais, como a antiga Enciclopédia Católica, indicam Cartagena, enquanto outras referências apontam Cartagena ou Sevilha como possibilidades, sem consenso definitivo.

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