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Medalius · Codex de Personalidades · Santo Irineu de Lyon
Santo Irineu de Lyon
✦ Doutor da Igreja
Período
130–202 (72 anos)
Lugar
Lyon
Estado canônico
Santo · Doutor da Igreja
Escola
Patrística
Idioma principal
Grego
Santo · Doutor da Igreja · Padre da Igreja

Santo Irineu de Lyon

130–202
Doutor da Unidade (Doctor unitatis) Doutor da Igreja Padre da Igreja

Santo Irineu de Lyon (em latim, Irenaeus Lugdunensis) foi bispo, Padre da Igreja e teólogo de origem grega, nascido na Ásia Menor por volta de 130/140 e falecido em Lyon por volta de 202. Discípulo de São Policarpo de Esmirna, que por sua vez fora discípulo do apóstolo São João, Irineu representa um elo vivo entre a era apostólica e a Igreja do século II. Sacerdote e depois bispo de Lugdunum (a atual Lyon, na Gália romana), sucedeu ao mártir Santo Potino após a perseguição de 177. Sua principal obra, o Adversus Haereses (Contra as Heresias), é a grande refutação do gnosticismo e a defesa da fé apostólica fundada na sucessão dos bispos e na "regra de fé". Pacificador na controvérsia quartodecimana sobre a data da Páscoa, foi declarado Doutor da Igreja com o título de "Doutor da Unidade" pelo Papa Francisco em 21 de janeiro de 2022. A Igreja celebra a sua memória em 28 de junho.

Biografia

Origem na Ásia e o discipulado de Policarpo

Irineu nasceu na Ásia Menor, provavelmente em Esmirna (atual Izmir, na Turquia), por volta de 130/140, de família grega. Ainda muito jovem, conheceu e ouviu o santo bispo Policarpo de Esmirna (martirizado em 155), que havia sido discípulo do apóstolo São João. Esse vínculo direto fazia de Irineu um elo vivo com a era apostólica: dele recebeu não apenas a doutrina, mas a memória viva da pregação dos que conheceram o Senhor. Formado nessa tradição oriental, levaria consigo para o Ocidente a fidelidade ao ensino recebido dos Apóstolos.


Sacerdote e bispo de Lyon

Irineu transferiu-se para a Gália e tornou-se sacerdote da Igreja de Lugdunum (Lyon). Durante a sangrenta perseguição de 177, sob Marco Aurélio, em que pereceram os mártires de Lyon — entre eles a escrava Blandina e o idoso bispo Potino —, o clero de Lyon, com muitos dos seus na prisão, enviou Irineu a Roma com uma carta ao Papa Eleutério. Os confessores o recomendaram como zeloso pela aliança de Cristo. De regresso à Gália, Irineu sucedeu ao mártir Potino como bispo de Lyon.


O combate ao gnosticismo e a defesa da fé apostólica

Como bispo, Irineu empenhou-se na refutação das seitas gnósticas, sobretudo os valentinianos e o marcionismo, que negavam a bondade da criação e propunham um conhecimento secreto reservado a poucos. Por volta de 180, redigiu a sua obra-prima em cinco livros, Adversus Haereses (Contra as Heresias). Nela, contra o segredo gnóstico, afirmou que a fé verdadeira é pública, una e transmitida pela sucessão apostólica dos bispos e pela "regra de fé". Defendeu a santidade da matéria e da carne e ensinou que "onde está a Igreja, ali está o Espírito de Deus; e onde está o Espírito de Deus, ali está a Igreja". É considerado o primeiro grande teólogo sistemático da Igreja.


O pacificador e o legado de Doutor da Unidade

Por volta de 190, quando o Papa Vítor I ameaçou excomungar as Igrejas da Ásia Menor por celebrarem a Páscoa no dia 14 do mês lunar (a controvérsia quartodecimana), Irineu escreveu-lhe e a outros bispos pedindo paz, lembrando que a diversidade de práticas não devia romper a comunhão. Eusébio observa que Irineu fez jus ao seu nome, fazendo-se artífice da paz. Segundo a tradição, morreu mártir em Lyon por volta de 202, na perseguição de Septímio Severo, embora isso não seja historicamente certo. Em 21 de janeiro de 2022, o Papa Francisco declarou-o Doutor da Igreja com o título de "Doutor da Unidade" (Doctor unitatis), reconhecendo-o como ponte entre o Oriente e o Ocidente.

Contexto

O contexto em que viveu

Irineu viveu no fim do que os historiadores chamam de era sub-apostólica e no início da época patrística, quando a geração que conhecera os Apóstolos se extinguia e a Igreja precisava fixar critérios seguros para distinguir a fé autêntica das doutrinas estranhas. Foi o tempo em que a tradição oral cedia lugar à teologia escrita, e Irineu, ligado a João pela cadeia João → Policarpo → Irineu, encarnou essa passagem.


O Império Romano era então governado por Marco Aurélio (161-180) e, depois, por seu filho Cômodo (180-192). A Gália romana e sua próspera capital, Lugdunum (Lyon), no encontro dos rios Ródano e Saône, eram um importante centro comercial e administrativo, com uma comunidade cristã jovem e em parte oriunda do Oriente grego.


Em 177 estourou em Lyon uma violenta perseguição, narrada na célebre carta das Igrejas de Lyon e Viena conservada por Eusébio. Nela morreram os mártires de Lyon, entre os quais a jovem escrava Blandina e o bispo nonagenário Potino, morto na prisão depois de espancado. Foi nesse contexto de sangue que Irineu, então sacerdote, foi poupado por estar em missão e sucedeu a Potino na sé de Lyon.


O século II foi também marcado pela explosão do gnosticismo — sobretudo os sistemas valentinianos — e do marcionismo, que ofereciam mitologias complexas, um deus criador inferior e a salvação por um conhecimento secreto. Diante disso, a Igreja precisou formular com clareza a "regra de fé" e o princípio da sucessão apostólica, tarefa em que Irineu foi pioneiro.


No fim do século, a unidade da Igreja foi posta à prova pela controvérsia quartodecimana: as Igrejas da Ásia celebravam a Páscoa no dia 14 de Nisã, enquanto Roma e o Ocidente a fixavam no domingo. Quando o Papa Vítor I (c. 189-199) ameaçou cortar a comunhão com os asiáticos, foi um bispo da Gália, fiel a Roma mas zeloso da concórdia, quem intercedeu pela paz — selando a vocação de Irineu como pacificador que séculos depois lhe valeria o título de Doutor da Unidade.

Fatos contextuais
Nascimento na Ásia Menor
Irineu nasce por volta de 130/140 na Ásia Menor, provavelmente em Esmirna, de fa...
Discipulado de Policarpo de Esmirna
Ainda jovem, Irineu vê e ouve o bispo São Policarpo de Esmirna (martirizado em 1...
Marco Aurélio torna-se imperador
Marco Aurélio assume o governo do Império Romano (161-180); sob o seu reinado oc...
Perseguição e mártires de Lyon
Violenta perseguição em Lugdunum (Lyon): morrem os mártires de Lyon, entre eles...
Missão a Roma com carta ao Papa Eleutério
O clero de Lyon, com muitos na prisão, envia Irineu a Roma com uma carta ao Papa...

Suas contribuições à teologia

O coração da obra de Irineu é a defesa da regra de fé (regula fidei): contra os gnósticos, que diziam possuir uma sabedoria secreta, ele sustenta que a verdadeira doutrina é pública, una e recebida dos Apóstolos. Essa fé é garantida pela Tradição apostólica, transmitida pela sucessão dos bispos em cada Igreja desde os Apóstolos, e não por revelações ocultas.


Irineu afirma a unidade de Deus: há um só Deus, ao mesmo tempo Criador do mundo e Pai de Jesus Cristo. Com isso refuta o dualismo gnóstico e Marcião, que separavam o Deus criador (o demiurgo inferior, autor da matéria) do Deus bom do Evangelho. Para Irineu, o mesmo e único Deus criou todas as coisas por seu Verbo e seu Espírito, que chama as "duas mãos de Deus".


Decorre daí a bondade da criação e da carne: a matéria e o corpo não são maus nem desprezíveis, mas obra boa de Deus, destinados à salvação e à ressurreição. Contra o desprezo gnóstico pelo mundo material, Irineu defende a santidade originária da carne tanto quanto a do espírito.


Sua grande síntese é a recapitulação (recapitulatio / anakephalaiosis) em Cristo: o Verbo encarnado "re-capitula" e refaz em si toda a história humana, reconduzindo a humanidade a Deus. Cristo é o novo Adão que, pela obediência na árvore da Cruz, desfaz a desobediência de Adão na árvore do paraíso e restaura o homem.


A esse paralelo Adão-Cristo corresponde o paralelo Maria, nova Eva: pela obediência da Virgem desfaz-se o nó da desobediência de Eva, de modo que Maria se torna cooperadora da salvação.


Irineu é a primeira testemunha clara do cânon dos quatro Evangelhos: ensina que os Evangelhos não podem ser nem mais nem menos do que quatro, comparando-os às quatro regiões do mundo e aos quatro ventos, e ligando-os aos quatro seres viventes que sustentam a Igreja.


Tudo isso se ordena na economia da salvação (oikonomia): a história única de Deus com o homem, conduzida em etapas pelo Verbo e pelo Espírito, em que o homem é criado imaturo e amadurece progressivamente rumo à comunhão com Deus. Daí a célebre intuição irineana de que a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem está em ver a Deus.

"A glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem consiste na visão de Deus." Adversus Haereses IV, 20, 7
Influência

Quem ele influenciou

Irineu é considerado o primeiro grande teólogo sistemático da Igreja e, em boa medida, o fundador da teologia dogmática e antiheresiológica católica: a sua Adversus Haereses (Contra as Heresias, em cinco livros, c. 180) organiza pela primeira vez de modo amplo a refutação do erro a partir da fé recebida.A sua doutrina da sucessão apostólica e da regra de fé tornou-se pilar permanente da eclesiologia: a verdade é garantida pela Tradição pública transmitida pelos bispos desde os Apóstolos. No livro III (Adv. Haer. III,3,2) está um dos mais antigos e citados testemunhos sobre a Igreja de Roma, "fundada e organizada pelos dois gloriosíssimos apóstolos Pedro e Paulo", com a qual "é necessário que toda Igreja concorde" por causa da sua preeminente autoridade (potiorem principalitatem).Irineu foi decisivo na fixação do cânon: é a primeira testemunha explícita do Evangelho quádruplo (quatro e só quatro Evangelhos) e fonte antiga de peso sobre o Evangelho de João e a Eucaristia. A sua teologia da recapitulação em Cristo influenciou amplamente a tradição posterior, oriental e ocidental.As suas obras são também a principal fonte primária para o conhecimento do gnosticismo do século II (valentinianos e outros), antes da descoberta dos textos de Nag Hammadi. Em 21 de janeiro de 2022 foi declarado Doutor da Igreja, com o título de "Doutor da Unidade", pelo Papa Francisco — o 37.º Doutor.

Debates

Debates e controvérsias

Combate ao gnosticismo, ao valentinianismo e a Marcião

Toda a Adversus Haereses é dirigida contra a "falsa gnose": Irineu expõe e refuta minuciosamente os sistemas gnósticos, sobretudo o de Valentino, e a doutrina de Marcião, que mutilava as Escrituras e separava o Deus criador do Deus do Evangelho. Opõe-lhes o único Deus criador, a bondade da criação e da carne, a unidade das Escrituras e a regra de fé recebida pela sucessão apostólica.

A controvérsia quartodecimana e a intervenção junto a Vítor I

Quando o Papa Vítor I (c. 190-191) ameaçou excomungar as comunidades da Ásia que celebravam a Páscoa no dia 14 de Nisã (quartodecimanos), Irineu intercedeu junto ao Papa, exortando-o à paz e à tolerância e lembrando que a diversidade de costumes não devia romper a comunhão na fé — atuação que fez jus ao seu nome, "o pacífico".

A carta de 177 e o montanismo

Em 177, durante a perseguição de Lyon, o clero local enviou Irineu a Roma com uma carta ao Papa Eleutério; a questão montanista é mencionada nessa correspondência das Igrejas da Gália. As fontes registram o envolvimento das comunidades da Gália nesse debate, mas o teor exato da posição pessoal de Irineu sobre o montanismo não é plenamente documentado.

A idade de Cristo

Em Adv. Haer. II,22, Irineu sustentou, a partir de Jo 8,57 ("ainda não tens cinquenta anos"), que Jesus teria ultrapassado os quarenta anos, aproximando-se dos cinquenta, antes da sua paixão — tese hoje considerada um equívoco exegético seu, contrário à cronologia comum dos cerca de trinta e três anos.

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