Santo Irineu de Lyon
Santo Irineu de Lyon (em latim, Irenaeus Lugdunensis) foi bispo, Padre da Igreja e teólogo de origem grega, nascido na Ásia Menor por volta de 130/140 e falecido em Lyon por volta de 202. Discípulo de São Policarpo de Esmirna, que por sua vez fora discípulo do apóstolo São João, Irineu representa um elo vivo entre a era apostólica e a Igreja do século II. Sacerdote e depois bispo de Lugdunum (a atual Lyon, na Gália romana), sucedeu ao mártir Santo Potino após a perseguição de 177. Sua principal obra, o Adversus Haereses (Contra as Heresias), é a grande refutação do gnosticismo e a defesa da fé apostólica fundada na sucessão dos bispos e na "regra de fé". Pacificador na controvérsia quartodecimana sobre a data da Páscoa, foi declarado Doutor da Igreja com o título de "Doutor da Unidade" pelo Papa Francisco em 21 de janeiro de 2022. A Igreja celebra a sua memória em 28 de junho.
Biografia
Origem na Ásia e o discipulado de Policarpo
Irineu nasceu na Ásia Menor, provavelmente em Esmirna (atual Izmir, na Turquia), por volta de 130/140, de família grega. Ainda muito jovem, conheceu e ouviu o santo bispo Policarpo de Esmirna (martirizado em 155), que havia sido discípulo do apóstolo São João. Esse vínculo direto fazia de Irineu um elo vivo com a era apostólica: dele recebeu não apenas a doutrina, mas a memória viva da pregação dos que conheceram o Senhor. Formado nessa tradição oriental, levaria consigo para o Ocidente a fidelidade ao ensino recebido dos Apóstolos.
Sacerdote e bispo de Lyon
Irineu transferiu-se para a Gália e tornou-se sacerdote da Igreja de Lugdunum (Lyon). Durante a sangrenta perseguição de 177, sob Marco Aurélio, em que pereceram os mártires de Lyon — entre eles a escrava Blandina e o idoso bispo Potino —, o clero de Lyon, com muitos dos seus na prisão, enviou Irineu a Roma com uma carta ao Papa Eleutério. Os confessores o recomendaram como zeloso pela aliança de Cristo. De regresso à Gália, Irineu sucedeu ao mártir Potino como bispo de Lyon.
O combate ao gnosticismo e a defesa da fé apostólica
Como bispo, Irineu empenhou-se na refutação das seitas gnósticas, sobretudo os valentinianos e o marcionismo, que negavam a bondade da criação e propunham um conhecimento secreto reservado a poucos. Por volta de 180, redigiu a sua obra-prima em cinco livros, Adversus Haereses (Contra as Heresias). Nela, contra o segredo gnóstico, afirmou que a fé verdadeira é pública, una e transmitida pela sucessão apostólica dos bispos e pela "regra de fé". Defendeu a santidade da matéria e da carne e ensinou que "onde está a Igreja, ali está o Espírito de Deus; e onde está o Espírito de Deus, ali está a Igreja". É considerado o primeiro grande teólogo sistemático da Igreja.
O pacificador e o legado de Doutor da Unidade
Por volta de 190, quando o Papa Vítor I ameaçou excomungar as Igrejas da Ásia Menor por celebrarem a Páscoa no dia 14 do mês lunar (a controvérsia quartodecimana), Irineu escreveu-lhe e a outros bispos pedindo paz, lembrando que a diversidade de práticas não devia romper a comunhão. Eusébio observa que Irineu fez jus ao seu nome, fazendo-se artífice da paz. Segundo a tradição, morreu mártir em Lyon por volta de 202, na perseguição de Septímio Severo, embora isso não seja historicamente certo. Em 21 de janeiro de 2022, o Papa Francisco declarou-o Doutor da Igreja com o título de "Doutor da Unidade" (Doctor unitatis), reconhecendo-o como ponte entre o Oriente e o Ocidente.
O contexto em que viveu
Irineu viveu no fim do que os historiadores chamam de era sub-apostólica e no início da época patrística, quando a geração que conhecera os Apóstolos se extinguia e a Igreja precisava fixar critérios seguros para distinguir a fé autêntica das doutrinas estranhas. Foi o tempo em que a tradição oral cedia lugar à teologia escrita, e Irineu, ligado a João pela cadeia João → Policarpo → Irineu, encarnou essa passagem.
O Império Romano era então governado por Marco Aurélio (161-180) e, depois, por seu filho Cômodo (180-192). A Gália romana e sua próspera capital, Lugdunum (Lyon), no encontro dos rios Ródano e Saône, eram um importante centro comercial e administrativo, com uma comunidade cristã jovem e em parte oriunda do Oriente grego.
Em 177 estourou em Lyon uma violenta perseguição, narrada na célebre carta das Igrejas de Lyon e Viena conservada por Eusébio. Nela morreram os mártires de Lyon, entre os quais a jovem escrava Blandina e o bispo nonagenário Potino, morto na prisão depois de espancado. Foi nesse contexto de sangue que Irineu, então sacerdote, foi poupado por estar em missão e sucedeu a Potino na sé de Lyon.
O século II foi também marcado pela explosão do gnosticismo — sobretudo os sistemas valentinianos — e do marcionismo, que ofereciam mitologias complexas, um deus criador inferior e a salvação por um conhecimento secreto. Diante disso, a Igreja precisou formular com clareza a "regra de fé" e o princípio da sucessão apostólica, tarefa em que Irineu foi pioneiro.
No fim do século, a unidade da Igreja foi posta à prova pela controvérsia quartodecimana: as Igrejas da Ásia celebravam a Páscoa no dia 14 de Nisã, enquanto Roma e o Ocidente a fixavam no domingo. Quando o Papa Vítor I (c. 189-199) ameaçou cortar a comunhão com os asiáticos, foi um bispo da Gália, fiel a Roma mas zeloso da concórdia, quem intercedeu pela paz — selando a vocação de Irineu como pacificador que séculos depois lhe valeria o título de Doutor da Unidade.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
O coração da obra de Irineu é a defesa da regra de fé (regula fidei): contra os gnósticos, que diziam possuir uma sabedoria secreta, ele sustenta que a verdadeira doutrina é pública, una e recebida dos Apóstolos. Essa fé é garantida pela Tradição apostólica, transmitida pela sucessão dos bispos em cada Igreja desde os Apóstolos, e não por revelações ocultas.
Irineu afirma a unidade de Deus: há um só Deus, ao mesmo tempo Criador do mundo e Pai de Jesus Cristo. Com isso refuta o dualismo gnóstico e Marcião, que separavam o Deus criador (o demiurgo inferior, autor da matéria) do Deus bom do Evangelho. Para Irineu, o mesmo e único Deus criou todas as coisas por seu Verbo e seu Espírito, que chama as "duas mãos de Deus".
Decorre daí a bondade da criação e da carne: a matéria e o corpo não são maus nem desprezíveis, mas obra boa de Deus, destinados à salvação e à ressurreição. Contra o desprezo gnóstico pelo mundo material, Irineu defende a santidade originária da carne tanto quanto a do espírito.
Sua grande síntese é a recapitulação (recapitulatio / anakephalaiosis) em Cristo: o Verbo encarnado "re-capitula" e refaz em si toda a história humana, reconduzindo a humanidade a Deus. Cristo é o novo Adão que, pela obediência na árvore da Cruz, desfaz a desobediência de Adão na árvore do paraíso e restaura o homem.
A esse paralelo Adão-Cristo corresponde o paralelo Maria, nova Eva: pela obediência da Virgem desfaz-se o nó da desobediência de Eva, de modo que Maria se torna cooperadora da salvação.
Irineu é a primeira testemunha clara do cânon dos quatro Evangelhos: ensina que os Evangelhos não podem ser nem mais nem menos do que quatro, comparando-os às quatro regiões do mundo e aos quatro ventos, e ligando-os aos quatro seres viventes que sustentam a Igreja.
Tudo isso se ordena na economia da salvação (oikonomia): a história única de Deus com o homem, conduzida em etapas pelo Verbo e pelo Espírito, em que o homem é criado imaturo e amadurece progressivamente rumo à comunhão com Deus. Daí a célebre intuição irineana de que a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem está em ver a Deus.
"A glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem consiste na visão de Deus." Adversus Haereses IV, 20, 7
Quem ele influenciou
Irineu é considerado o primeiro grande teólogo sistemático da Igreja e, em boa medida, o fundador da teologia dogmática e antiheresiológica católica: a sua Adversus Haereses (Contra as Heresias, em cinco livros, c. 180) organiza pela primeira vez de modo amplo a refutação do erro a partir da fé recebida.A sua doutrina da sucessão apostólica e da regra de fé tornou-se pilar permanente da eclesiologia: a verdade é garantida pela Tradição pública transmitida pelos bispos desde os Apóstolos. No livro III (Adv. Haer. III,3,2) está um dos mais antigos e citados testemunhos sobre a Igreja de Roma, "fundada e organizada pelos dois gloriosíssimos apóstolos Pedro e Paulo", com a qual "é necessário que toda Igreja concorde" por causa da sua preeminente autoridade (potiorem principalitatem).Irineu foi decisivo na fixação do cânon: é a primeira testemunha explícita do Evangelho quádruplo (quatro e só quatro Evangelhos) e fonte antiga de peso sobre o Evangelho de João e a Eucaristia. A sua teologia da recapitulação em Cristo influenciou amplamente a tradição posterior, oriental e ocidental.As suas obras são também a principal fonte primária para o conhecimento do gnosticismo do século II (valentinianos e outros), antes da descoberta dos textos de Nag Hammadi. Em 21 de janeiro de 2022 foi declarado Doutor da Igreja, com o título de "Doutor da Unidade", pelo Papa Francisco — o 37.º Doutor.
Debates e controvérsias
Combate ao gnosticismo, ao valentinianismo e a Marcião
Toda a Adversus Haereses é dirigida contra a "falsa gnose": Irineu expõe e refuta minuciosamente os sistemas gnósticos, sobretudo o de Valentino, e a doutrina de Marcião, que mutilava as Escrituras e separava o Deus criador do Deus do Evangelho. Opõe-lhes o único Deus criador, a bondade da criação e da carne, a unidade das Escrituras e a regra de fé recebida pela sucessão apostólica.
A controvérsia quartodecimana e a intervenção junto a Vítor I
Quando o Papa Vítor I (c. 190-191) ameaçou excomungar as comunidades da Ásia que celebravam a Páscoa no dia 14 de Nisã (quartodecimanos), Irineu intercedeu junto ao Papa, exortando-o à paz e à tolerância e lembrando que a diversidade de costumes não devia romper a comunhão na fé — atuação que fez jus ao seu nome, "o pacífico".
A carta de 177 e o montanismo
Em 177, durante a perseguição de Lyon, o clero local enviou Irineu a Roma com uma carta ao Papa Eleutério; a questão montanista é mencionada nessa correspondência das Igrejas da Gália. As fontes registram o envolvimento das comunidades da Gália nesse debate, mas o teor exato da posição pessoal de Irineu sobre o montanismo não é plenamente documentado.
A idade de Cristo
Em Adv. Haer. II,22, Irineu sustentou, a partir de Jo 8,57 ("ainda não tens cinquenta anos"), que Jesus teria ultrapassado os quarenta anos, aproximando-se dos cinquenta, antes da sua paixão — tese hoje considerada um equívoco exegético seu, contrário à cronologia comum dos cerca de trinta e três anos.
Fontes e referências
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070328.html
- vatican.va/content/francesco/en/events/event.dir.html/content/vaticanevents/en/2022/1/21/decreto-santireneo.html
- press.vatican.va/content/salastampa/en/bollettino/pubblico/2022/01/21/220121b.html
- christianunity.va/content/unitacristiani/en/news/2022/2022-01-24-sant-iteneo-di-lione-doctor-unitatis.html
- newadvent.org/cathen/08130b.htm
- newadvent.org/fathers/0103110.htm
- newadvent.org/fathers/0103303.htm
- newadvent.org/fathers/0103311.htm
- newadvent.org/fathers/0103322.htm
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- newadvent.org/fathers/0103420.htm
- newadvent.org/fathers/0103500.htm
- newadvent.org/fathers/0103519.htm
- newadvent.org/fathers/0103222.htm
- newadvent.org/fathers/250105.htm
- en.wikisource.org/wiki/Nicene_and_Post-Nicene_Fathers:_Series_II/Volume_I/Church_History_of_Eusebius/Book_V/Chapter_26
- tertullian.org/fathers/irenaeus_01_proof_intro.htm
- britannica.com/biography/Saint-Irenaeus
- catholicworldreport.com/2022/01/24/st-irenaeus-of-lyon-getting-to-know-the-new-doctor-of-the-church/
- catholicculture.org/culture/liturgicalyear/calendar/day.cfm?date=2024-06-28
- en.wikipedia.org/wiki/Irenaeus
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