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Medalius · Codex de Personalidades · Eusébio de Cesareia
Eusébio de Cesareia
🏛 Padre da Igreja
Período
263–339 (76 anos)
Lugar
Cesareia Marítima
Escola
Patrística / Origenismo (Escola de Cesareia)
Idioma principal
Grego
· Padre da Igreja

Eusébio de Cesareia

263–339
Pai da História Eclesiástica Padre da Igreja

Eusébio de Cesareia (c. 260–265 – c. 339 d.C.), bispo de Cesareia Marítima e herdeiro intelectual da escola fundada por Orígenes e Pânfilo de Cesareia, é universalmente conhecido como o "Pai da História Eclesiástica" por sua monumental Historia Ecclesiastica, obra que preservou documentos e testemunhos insubstituíveis da Igreja primitiva. Escritor eclesiástico prolífico — não reconhecido como Padre da Igreja em sentido estrito, em razão de suas simpatias com posições arianas —, foi figura central do Concílio de Niceia (325) e testemunha indispensável da passagem da Igreja da perseguição ao favor imperial.

Biografia

Origem, formação e a Biblioteca de Cesareia

Eusébio nasceu por volta de 260 d.C., provavelmente na Palestina, e recebeu instrução religiosa em Cesareia Marítima, cidade onde foi batizado. Ainda jovem, tornou-se discípulo de Pânfilo, homem de nobre origem que presidia uma escola em Cesareia e fundou a grande biblioteca que se tornaria, por vários séculos, a maior glória intelectual da Igreja local. Pânfilo dedicava-se à preparação de cópias acuradas das Escrituras e das obras de Orígenes, tendo depositado na biblioteca o exemplar original da Hexapla — o monumental estudo hexacolunar das versões do Antigo Testamento — que o próprio Orígenes provavelmente ali deixara. Eusébio herdou este imenso acervo e trabalhou sobre ele, reproduzindo edições da Septuaginta a partir dos manuscritos de Orígenes e elaborando um sistema de referência cruzada dos quatro Evangelhos: os chamados Cânones Eusebianos, dez tabelas que permitem localizar passagens paralelas entre os Evangelistas, dividindo cada Evangelho em seções numeradas continuamente.


A grande perseguição e o episcopado

A perseguição de Diocleciano, a mais violenta sofrida pelos cristãos até então, irrompeu em 303 d.C. e varreria o Império por anos. Eusébio percorreu Tiro e o Egito testemunhando numerosos martírios e foi ele próprio preso por algum tempo. O golpe mais pesado veio no final de 307, quando Pânfilo foi preso, torturado e lançado ao cárcere; no início de 309, Pânfilo e vários de seus discípulos foram decapitados. Por devoção à memória do mestre martirizado, Eusébio adotou daí em diante o cognome Pamphili ("de Pânfilo"), pelo qual ficaria conhecido. Cessadas as perseguições, ascendeu ao episcopado de Cesareia por volta de 313/314, cargo que exerceria até a morte; em 315 já presidia, como bispo, a dedicação de uma nova basílica em Tiro.


A controvérsia ariana e o Concílio de Niceia

Quando Ário foi excomungado por Alexandre de Alexandria por volta de 319/320, encontrou simpatia e refúgio em Cesareia; Eusébio chegou a escrever ao bispo Alexandre acusando-o de deturpar o ensinamento dos arianos, e participou de um sínodo de bispos que votou pela reintegração de Ário. Em janeiro de 325, um sínodo fortemente anti-ariano realizado em Antioquia excomungou provisoriamente Eusébio e dois aliados por posições favoráveis aos arianos. Convocado o Concílio de Niceia (325), Eusébio precisou justificar-se diante dos bispos reunidos e foi exonerado com a aprovação explícita do imperador Constantino, a cujo lado se sentou no lugar de honra à direita durante a sessão inaugural. Após alguma hesitação, subscreveu o Credo elaborado pelo concílio, deixando claro, na carta que em seguida enviou à sua comunidade, que o aceitava em sentido não-literal — revelando sua resistência ao termo homoousios ("consubstancial"). Manteve laços estreitos com Constantino ao longo do reinado e, em 335, tomou parte na campanha contra Santo Atanásio de Alexandria nos sínodos de Cesareia e de Tiro.


Últimos anos e legado

Após a morte de Constantino em 337, Eusébio dedicou-se à redação da Vita Constantini (Vida de Constantino), obra em quatro livros de valor especial pelo relato que oferece do Concílio de Niceia e dos primeiros anos do reinado cristão. Morreu antes do verão de 341, provavelmente em 339, em Cesareia. Seu legado é imenso: a Historia Ecclesiastica — dez livros que narram a história da Igreja desde as origens até a vitória de Constantino sobre Licínio (324) — inaugurou o gênero historiográfico eclesiástico, fazendo dele o "Pai da História Eclesiástica". A obra preservou inúmeros documentos, cartas e fragmentos de autores hoje perdidos, tornando-se fonte insubstituível para o estudo dos primeiros três séculos do Cristianismo. Sua ortodoxia permanece objeto de debate: nunca foi formalmente condenado, mas suas simpatias arianas e sua relutância ao homoousios projetaram uma sombra duradoura sobre sua memória teológica.

Contexto

O contexto em que viveu

Eusébio de Cesareia viveu no período de maior turbulência e transformação da história cristã antiga. O Império Romano havia perseguido os cristãos em ondas sucessivas, culminando na chamada Grande Perseguição de Diocleciano, iniciada em 303 d.C. com uma série de éditos que ordenavam a destruição de igrejas, a confiscação das Escrituras e a prisão do clero. Foi neste cenário que Pânfilo, mestre de Eusébio, encontrou o martírio em 309, e que a comunidade cristã de Cesareia, como tantas outras, experimentou em carne própria o preço da fé.

A virada veio com Constantino I, que após vencer Maxêncio na Batalha da Ponte Mílvia (312) e consolidar o poder no Ocidente, promulgou com Licínio o Edito de Milão em 313, garantindo liberdade religiosa a todos os habitantes do Império e devolvendo bens confiscados aos cristãos. A ascensão de Constantino transformou radicalmente a posição da Igreja: de perseguida, ela passou a receber o patrocínio imperial, e bispos como Eusébio tornaram-se interlocutores privilegiados do poder. Foi Constantino quem convocou e presidiu o Concílio de Niceia (325), primeira assembleia ecumênica da história, na qual se definiu o dogma da consubstancialidade do Filho com o Pai contra a heresia ariana.

A crise ariana, que ocupou grande parte da vida episcopal de Eusébio, nasceu das especulações de Ário sobre a relação entre o Pai e o Filho: para Ário, o Filho era uma criatura, o primogênito da criação, não eterno como o Pai. O debate trinitário sacudiu o século IV inteiro, dividindo bispos, imperadores e comunidades, e Cesareia Marítima encontrava-se no epicentro dessas tensões — herdeira da escola teológica de Orígenes, cidade de uma das maiores bibliotecas cristãs da Antiguidade e sede de um bispo cujas simpatias ambíguas espelhavam as dificuldades do Oriente grego em assimilar o vocabulário filosófico que se firmava.

Cesareia Marítima era, no século IV, um dos maiores centros intelectuais do Mediterrâneo cristão. A biblioteca fundada por Pânfilo e enriquecida por Eusébio guardava os manuscritos de Orígenes — o maior erudito cristão do século III —, incluindo a Hexapla, edição crítica das versões do Antigo Testamento. Desta biblioteca saíram as cinquenta cópias das Escrituras que Constantino encomendou a Eusébio para as igrejas de Constantinopla, símbolo de como o saber patrístico e o poder imperial se entrelaçavam naquele momento decisivo da história da Igreja.

Fatos contextuais
Nascimento em Cesareia Marítima
Eusébio nasce na Palestina, provavelmente entre 260 e 265 d.C. Pouco se sabe de...
Discipulado com Pânfilo e a Biblioteca de Cesareia
Por volta dos seus vinte anos, Eusébio torna-se discípulo do presbítero Pânfilo...
Início da Grande Perseguição de Diocleciano
Em 23 de fevereiro de 303, Diocleciano emite o primeiro édito ordenando a destru...
Prisão de Pânfilo e encarceramento de Eusébio
No final de 307, Pânfilo é preso e torturado. Eusébio também sofre encarcerament...
Martírio de Pânfilo
Em 16 de fevereiro de 309, Pânfilo e vários companheiros são decapitados em Cesa...

Suas contribuições à teologia

O pensamento de Eusébio de Cesareia é inseparável da herança origenista: como Orígenes, ele parte da monarchia absoluta de Deus — a soberania única e irredutível do Pai — e a partir daí concebe o Logos-Filho como ser gerado e intermediário. Eusébio distingue o Filho do Pai à maneira de um raio que é distinto do sol que o origina: real e luminoso, mas dependente da fonte. Essa teologia subordinacionista coloca o Filho em segundo lugar na ordem do ser divino, funcionando como mediador entre o Deus transcendente e o mundo criado. Quando a crise ariana eclodiu, Eusébio inclinou-se para o lado de Ário — um sínodo episcopal chegou a pronunciá-lo inocente — e aceitou o homoousios de Niceia (325) apenas com reservas, numa fórmula que seus contemporâneos descreveram como deliberadamente ambígua.


Na sua vasta obra apologética — a Praeparatio Evangelica (Preparação para o Evangelho, 15 livros) e a Demonstratio Evangelica (Demonstração do Evangelho, 20 livros) — Eusébio argumenta que o cristão está justificado em rejeitar a religião e a filosofia dos gregos em favor da dos hebreus, e igualmente justificado em não seguir o modo de vida judaico. O raciocínio é que os gregos tomaram o que de melhor tinham — sobretudo o platonismo — da teologia e da filosofia dos hebreus mais antigos, e que o Evangelho é o cumprimento e a superação tanto da filosofia grega quanto do Antigo Testamento. A Praeparatio constitui uma verdadeira suma das referências filosóficas antigas: ela cita Platão e uma ampla gama de obras dos platonistas médios, preservando fragmentos de pensadores hoje perdidos.


O aspecto mais original do pensamento eusebiano é a sua teologia política: elaborada sobretudo no De laudibus Constantini (discurso pelos trinta anos de reinado) e na Vita Constantini, ela apresenta o imperador como enviado de Deus e imitador de Deus na terra, cuja monarquia terrena reflete e corresponde à monarquia divina do Logos. O Império cristão unificado sob um único governante é, nessa visão, o análogo histórico da soberania única do único Deus sobre o cosmos. Eusébio foi o primeiro a articular sistematicamente essa correspondência entre ordem imperial e ordem divina, inaugurando uma tradição de teologia política que moldaria o pensamento bizantino por séculos.

"Proponho-me escrever um relato das linhas de sucessão dos santos apóstolos, bem como dos tempos que decorreram desde os dias de nosso Salvador até os nossos; e narrar os muitos acontecimentos importantes que se diz terem ocorrido na história da Igreja; e mencionar os que, em cada geração, proclamaram a palavra divina oralmente ou por escrito." História Eclesiástica I, 1, 1
Influência

Quem ele influenciou

Eusébio de Cesareia é unanimemente reconhecido como o pai da história eclesiástica: sua Historia Ecclesiastica foi a primeira narrativa de extensão plena da história escrita de um ponto de vista cristão e estabeleceu o gênero e o método que os historiadores eclesiásticos posteriores seguiriam. O impacto imediato foi a criação de uma tradição de continuadores: Sócrates Escolástico, Sozômeno e Teodoreto de Ciro retomaram a obra onde Eusébio a deixara e escreveram as suas próprias histórias eclesiásticas, fixando a convenção dos continuadores como forma canônica de fazer história da Igreja.No Ocidente latino, Rufino de Aquileia traduziu a Historia Ecclesiastica a pedido do bispo Cromácio de Aquileia (publicada em 402/403); além de traduzir, Rufino retocou a narrativa em vários pontos, suprimiu grande parte do décimo livro e acrescentou dois livros próprios, estendendo o relato até a morte de Teodósio o Grande (395). Por essa via a obra de Eusébio tornou-se acessível ao mundo latino medieval. De modo análogo, Jerônimo traduziu para o latim o Chronicon eusebiano e o continuou, levando a cronologia universal até o seu próprio tempo e tornando-se o modelo de toda a cronografia medieval ocidental.Dois legados técnicos merecem destaque especial. Primeiro, os Cânones Eusebianos: dez tabelas de concordância dos Evangelhos, nas quais Eusébio numerou continuamente as seções de cada Evangelho e organizou tabelas para mostrar quais passagens são comuns a dois, três ou quatro evangelistas; esse sistema permaneceu em uso por toda a Idade Média, gravado nas margens dos manuscritos e exibido em ricas arcadas iluminadas no início dos evangeliários. Segundo, a preservação de fontes: o método de Eusébio consistia em citar documentos primários extensamente — atas de mártires, cartas, listas episcopais, extratos de escritores cristãos anteriores —, e graças a esse procedimento inúmeros textos hoje perdidos chegaram até nós apenas por meio das suas citações. Sua influência na teologia política bizantina também foi duradoura: a correspondência entre monarquia divina e monarquia imperial que ele formulou tornou-se um dos pilares ideológicos do pensamento político do Império Romano do Oriente.

Debates

Debates e controvérsias

Simpatias arianas e teologia subordinacionista

Eusébio foi o mais influente bispo-erudito do Oriente no século IV, mas sua relação com o arianismo sempre suscitou suspeita. Sua cristologia do Logos era de matriz origeniana: o Filho é distinto do Pai e por ele gerado, mas de modo subordinado — "como um raio também é distinto de sua fonte, o sol". Essa postura subordinacionista, sem chegar às fórmulas extremas de Ário, situava-o numa zona intermediária entre o arianismo pleno e a ortodoxia nicena.

Quando Ário foi excomungado pelo bispo Alexandre de Alexandria (c. 320), encontrou simpatia e refúgio em Cesareia. Um sínodo de bispos reunido na região declarou-se favorável à reintegração de Ário, e Eusébio chegou a escrever ao próprio Alexandre acusando-o de deturpar o ensinamento dos arianos. A Catholic Encyclopedia resume a situação: os arianos logo perceberam que, para todos os efeitos práticos, Eusébio estava do lado deles.


Sínodo de Antioquia (c. 325): excomunhão provisória

Poucos meses antes do Concílio de Niceia, um sínodo regional fortemente anti-ariano reuniu-se em Antioquia (por volta de janeiro de 325) e excomungou provisoriamente Eusébio de Cesareia, junto com Teodoto de Laodiceia e Narciso de Neronias, por se recusarem a condenar Ário. A medida foi cautelar e suspensiva: não uma sentença definitiva, mas uma advertência que lhes deixava a possibilidade de retratar-se no concílio geral então convocado.


Concílio de Niceia (325): assinatura com reservas

No Concílio de Niceia, Eusébio ocupou o primeiro assento à direita do imperador e pronunciou o discurso inaugural — sinal de seu enorme prestígio. Apresentou o credo batismal de sua diocese como base para o debate, mas a fórmula finalmente aprovada incorporou o termo homoousios ("consubstancial", "da mesma essência"), que ele relutava em aceitar. Depois de alguma hesitação, subscreveu o Credo; na carta que então enviou à sua própria Igreja — preservada por Sócrates Escolástico e por Atanásio — explicou que o aceitava em sentido não-literal, esclarecendo que o homoousios não devia ser entendido "no sentido das afecções dos corpos", nem como se o Filho subsistisse do Pai por divisão. Sua adesão foi, portanto, intelectualmente condicionada.


Sínodo de Tiro (335): a deposição de Santo Atanásio

Em 334 e 335, Eusébio tomou parte ativa na campanha contra Atanásio de Alexandria, o grande defensor do homoousios, participando dos sínodos de Cesareia e de Tiro que culminaram na deposição e no exílio do bispo alexandrino. No sínodo de Tiro teve papel de destaque entre os bispos reunidos. O episódio mostra Eusébio no centro da política eclesiástica pró-imperial e em oposição ao campeão da ortodoxia nicena.


Conflito com Marcelo de Ancira

Depois de Niceia, Eusébio escreveu dois tratados polêmicos contra Marcelo de Ancira — o Contra Marcellum e a De ecclesiastica theologia. Marcelo era um defensor exaltado do homoousios que, segundo Eusébio, havia caído no modalismo (sabelianismo). A querela revela que Eusébio continuou a combater o que considerava desvios opostos ao seu subordinacionismo mesmo depois do concílio.


O debate posterior sobre sua ortodoxia

A memória teológica de Eusébio permaneceu marcada pela suspeita. No II Concílio de Niceia (787), reunido contra o iconoclasmo, foram lidos escritos seus — entre eles uma carta, de autenticidade discutida, à imperatriz Constância, na qual recusava enviar-lhe uma imagem de Cristo — e o concílio observou que ele se mostrara da mesma mente e opinião dos que seguiam a superstição ariana. Importa notar, contudo, que nenhum concílio ecumênico emitiu um anátema formal contra a pessoa de Eusébio: ele nunca foi condenado solenemente como herege e morreu em comunhão com a Igreja de seu tempo.

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