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Medalius · Codex de Personalidades · Ambrósio de Milão
Ambrósio de Milão
✦ Doutor da Igreja
Período
340–397 (57 anos)
Lugar
Milão
Estado canônico
Santo · Doutor da Igreja
Escola
Patrística latina
Idioma principal
Latim
Santo · Doutor da Igreja · Padre da Igreja

Ambrósio de Milão

340–397
O grande Bispo de Milão Doutor da Igreja Padre da Igreja

Santo Ambrósio (Aurélio Ambrósio, c. 339/340–397) foi bispo de Milão, Padre e Doutor da Igreja, um dos quatro grandes Doutores latinos ao lado de Santo Agostinho, São Jerônimo e São Gregório Magno. Nascido em Tréveris numa família cristã da nobreza romana, era governador da Ligúria e Emília, com sede em Milão, quando em 374 foi aclamado bispo pelo povo, ainda catecúmeno e não batizado, sendo batizado e consagrado em poucos dias. Combateu vigorosamente o arianismo, enfrentou a imperatriz Justina pela posse das basílicas, opôs-se à restauração do altar da Vitória pedida por Símaco e exigiu penitência pública do imperador Teodósio I após o massacre de Tessalônica. Catequista incansável, batizou Santo Agostinho na Vigília Pascal de 387 e é considerado pai da hinódia latina, do canto ambrosiano e do rito ambrosiano. É padroeiro de Milão, dos apicultores e dos fabricantes de velas.

Biografia

Infância, formação e ascensão civil


  1. Nasceu por volta de 339/340 em Tréveris (Augusta Treverorum, atual Trier, Alemanha), numa nobre família cristã romana; seu pai, também chamado Ambrósio, foi prefeito do pretório das Gálias, governando um vasto território que abrangia Gália, Britânia, Espanha e África.


  1. Tendo perdido o pai cedo, foi criado em Roma com a mãe viúva e os irmãos: a irmã Marcelina, consagrada virgem, e o irmão Sátiro; recebeu sólida formação literária e jurídica, com domínio do grego.


  1. Distinguiu-se como advogado pela eloquência e, por volta de 370, foi nomeado governador consular da Ligúria e Emília, com residência em Milão, então sede imperial no Ocidente.


Eleição episcopal e ministério


  1. Em 374, ao apaziguar como governador a disputa entre católicos e arianos pela sucessão do bispado de Milão, foi inesperadamente aclamado bispo pelo povo — embora fosse ainda catecúmeno não batizado.


  1. Recebeu o batismo e, em poucos dias, percorrendo todos os graus, foi consagrado bispo em 7 de dezembro de 374 — data hoje celebrada como sua festa.


  1. Distribuiu seus bens aos pobres e entregou suas propriedades à Igreja, dedicando-se ao estudo da Escritura e dos Padres; tornou-se pregador, catequista e pastor incansável.


  1. Sua pregação e o testemunho de sua comunidade orante conduziram à conversão de Santo Agostinho, a quem batizou na Vigília Pascal, na noite de 24 para 25 de abril de 387, em Milão, juntamente com o filho de Agostinho, Adeodato, e o amigo Alípio.


Lutas e enfrentamentos


  1. Combateu firmemente o arianismo, presidindo o Concílio de Aquileia (381), que depôs bispos arianos.


  1. Entre 385 e 386, recusou-se a entregar as basílicas de Milão aos arianos, apesar das exigências da imperatriz Justina e da corte de Valentiniano II; sitiado pelas tropas imperiais, manteve com o povo a ocupação do templo, sustentando os fiéis com o canto de salmos e hinos antifônicos.


  1. Em 384, opôs-se com sucesso, em suas Cartas 17 e 18 a Valentiniano II, à restauração do altar da Vitória no Senado romano, pedida pelo prefeito pagão Quinto Aurélio Símaco.


  1. Após o massacre de Tessalônica (390), ordenado pelo imperador Teodósio I, exigiu dele penitência pública, vedando-lhe a comunhão até que se reconciliasse — episódio célebre da firmeza da autoridade moral da Igreja diante do poder imperial.


Últimos anos e legado


  1. Morreu em Milão ao amanhecer do Sábado Santo, na noite de 3 para 4 de abril de 397 (vigília de Páscoa), tendo recebido a Eucaristia das mãos de Honorato, bispo de Vercelli.


  1. Suas relíquias repousam na cripta sob o altar-mor da Basílica de Santo Ambrósio (Basilica di Sant'Ambrogio), em Milão, ladeadas pelos mártires Gervásio e Protásio, cujos corpos ele mesmo descobrira e transladara.


  1. É um dos quatro grandes Doutores da Igreja latina (com Agostinho, Jerônimo e Gregório Magno), assim reconhecido em 1298 pelo papa Bonifácio VIII.


  1. É considerado pai da hinódia latina e do canto ambrosiano, autor de hinos como Aeterne rerum conditor e Deus creator omnium, e dá nome ao rito ambrosiano, ainda vigente na arquidiocese de Milão. É padroeiro de Milão, dos apicultores e dos fabricantes de velas.
Contexto

O contexto em que viveu

Santo Ambrósio viveu no século IV, no apogeu do Império Romano cristão que se consolidava desde a conversão de Constantino. Era um tempo de profunda crise teológica: passadas décadas do I Concílio de Niceia (325), o arianismo — que negava a plena divindade do Filho — ainda dominava amplas regiões e gozava do favor de vários imperadores, de modo que a defesa da fé nicena (a consubstancialidade do Pai e do Filho) era a grande batalha eclesial do período. Milão, e não mais Roma, era então a capital imperial do Ocidente e sede da corte, o que tornava seu bispo uma figura de peso político e doutrinal.

O cenário político foi marcado pela sucessão dos imperadores Valentiniano I, Graciano, o jovem Valentiniano II — sob a regência de sua mãe, a imperatriz Justina, simpática ao arianismo — e Teodósio I, defensor da ortodoxia nicena. Em 27 de fevereiro de 380, o Edito de Tessalônica, promulgado por Teodósio, Graciano e Valentiniano II, declarou o cristianismo niceno religião oficial do Império. No ano seguinte, o I Concílio de Constantinopla (381), segundo concílio ecumênico, reafirmou o Credo de Niceia, condenou o arianismo e proclamou a divindade do Espírito Santo, fixando o Credo niceno-constantinopolitano.

Persistia ainda o paganismo residual no Senado romano, expresso na controvérsia do altar da Vitória: em 384, o prefeito e orador Símaco pediu a restauração do altar pagão na cúria, pedido que Ambrósio combateu e fez rejeitar junto à corte. Nesse mundo de tensões entre fé e poder, entre ortodoxia e heresia, entre cristianismo e paganismo agonizante, Ambrósio tornou-se o modelo do bispo que sustenta a autoridade da Igreja diante dos imperadores.


Fatos contextuais
Nascimento em Tréveris
Ambrósio nasce por volta de 339/340 em Augusta Treverorum (Tréveris), na Gália,...
Governador da Ligúria e Emília em Milão
Após carreira jurídica em Roma, por volta de 372/373 é nomeado governador consul...
Aclamação e ordenação episcopal de Milão
Com a morte do bispo ariano Auxêncio, Ambrósio, ainda apenas catecúmeno não bati...
Edito de Tessalônica
Em 27 de fevereiro de 380, os imperadores Teodósio I, Graciano e Valentiniano II...
I Concílio de Constantinopla
Convocado por Teodósio I, o segundo concílio ecumênico reafirma o Credo de Nicei...

Suas contribuições à teologia

O pensamento de Santo Ambrósio nasce do encontro entre a tradição grega e o Ocidente latino. Mestre da leitura alegórica e espiritual da Escritura — herdeiro do método de Orígenes, recebido por meio de Hipólito e de São Basílio —, ele busca em cada página, além do sentido literal, um sentido místico mais profundo, fazendo de Cristo a chave de toda a Bíblia (Hexaemeron, comentário a São Lucas e aos Salmos). A esse exegeta soma-se o teólogo trinitário antiariano: na defesa da plena divindade de Cristo (De fide ad Gratianum) e do Espírito Santo (De Spiritu Sancto), Ambrósio fixa no Ocidente a fé de Niceia contra o arianismo. Foi ainda o moralista que, inspirando-se conscientemente no De officiis de Cícero mas substituindo os heróis de Roma pelos santos do Antigo Testamento, escreveu em seu De officiis ministrorum a primeira ética cristã sistemática, voltada sobretudo aos deveres do clero.

Ambrósio é também o doutor da virgindade consagrada e da mariologia: dedica o De virginibus à sua irmã Marcelina e exalta a Virgem Maria como modelo da Igreja. Como pastor da iniciação cristã, deixou na catequese mistagógica do De mysteriis e do De sacramentis a explicação do Batismo, da Confirmação e da Eucaristia, atestando o caráter sacrificial da Missa. Por fim, diante do poder imperial, formulou um princípio decisivo para toda a história cristã: o imperador está dentro da Igreja, não acima dela (Imperator enim intra Ecclesiam, non supra Ecclesiam est), levando o próprio Teodósio à penitência pública após o massacre de Tessalônica.

"O imperador está dentro da Igreja, não acima dela." Sermão contra Auxêncio sobre a entrega das basílicas (Carta 75a / Ep. 21a), 36
Influência

Quem ele influenciou

Santo Ambrósio é, antes de tudo, o bispo que conduziu Santo Agostinho à fé católica: foi sob a sua pregação que Agostinho, então professor de retórica recém-chegado a Milão, se converteu, sendo por ele batizado na Vigília Pascal de 387. Como a teologia de Agostinho moldaria todo o Ocidente latino, a influência de Ambrósio se prolonga, por meio do seu mais célebre convertido, por todos os séculos seguintes.Ambrósio introduziu no Ocidente a hinódia métrica e o canto antifonal, à maneira das Igrejas do Oriente. Durante o cerco às basílicas (385–386), fez o povo cantar salmos e hinos dia e noite — prática que se difundiu rapidamente a partir de Milão. Quatro hinos são unanimemente reconhecidos como genuinamente seus (Aeterne rerum conditor, Deus creator omnium, Iam surgit hora tertia e Veni redemptor gentium), três dos quais o próprio Agostinho cita atribuindo-os a Ambrósio. Por isso é considerado o pai da himnografia latina.O célebre hino Te Deum é, por longa tradição, atribuído a Ambrósio e a Agostinho — que o teriam composto e cantado na noite do batismo de Agostinho. Essa atribuição, porém, é lendária e hoje rejeitada pelos estudiosos; a crítica moderna tende a apontar Niceta de Remesiana como autor mais provável.Seu nome ficou ligado ao Rito Ambrosiano de Milão, uma das poucas liturgias latinas próprias que sobrevivem (ao lado do romano e do moçárabe), ainda usada em grande parte da Arquidiocese de Milão. Embora não haja prova de que Ambrósio o tenha composto, seu nome lhe está associado desde pelo menos o século VIII.No campo das relações entre Igreja e Estado, Ambrósio tornou-se modelo e precursor: estabeleceu a ideia do imperador cristão como filho obediente da Igreja, sujeito ao conselho e à correção do seu bispo. A penitência pública imposta a Teodósio I após o massacre de Tessalônica (390) firmou-se como precedente histórico dessa subordinação moral do poder temporal à autoridade espiritual.Reconhecido como Doutor no Ocidente desde tempos antigos e formalmente declarado Doutor da Igreja por Bonifácio VIII em 1298, Ambrósio é um dos quatro grandes Doutores da Igreja latina, ao lado de Agostinho, Jerônimo e Gregório Magno.

Debates

Debates e controvérsias

O conflito das basílicas com a imperatriz Justina (385–386)

A imperatriz Justina, ariana, exigiu que se entregasse uma das basílicas de Milão ao culto ariano. Ambrósio recusou-se a ceder as igrejas e, com seu povo, ocupou e barricou-se na basílica, mantendo os fiéis ali noite e dia, enquanto fazia cantar salmos e hinos para que não desfalecessem de tristeza. A ordem imperial acabou sendo revogada. Nesse embate, Ambrósio uniu intrepidez nos momentos de perigo a admirável moderação.


O Altar da Vitória e o embate com Símaco (384)

O prefeito de Roma, Quinto Aurélio Símaco, pediu em sua Relatio a Valentiniano II a restauração do Altar da Vitória na sala do Senado romano, removido em 382. Ambrósio respondeu com suas Cartas 17 e 18, opondo-se firmemente, e logrou que o jovem imperador rejeitasse o pedido. O altar permaneceu removido.


A penitência imposta a Teodósio I após o massacre de Tessalônica (390)

Após uma sedição em Tessalônica, Teodósio I ordenou um massacre indiscriminado dos cidadãos, no qual pereceram milhares. Ambrósio exortou-o a reparar o crime com penitência exemplar e vedou-lhe a comunhão até a reconciliação. O imperador submeteu-se com humildade e, despojando-se das insígnias reais, lamentou publicamente o seu pecado na igreja — gesto que se tornou precedente clássico das relações entre a Igreja e o Estado.


O caso da sinagoga de Calínico (388)

Em Calínico, no Eufrates, uma multidão de cristãos, instigada pelo bispo local, incendiou uma sinagoga. Teodósio ordenou que os responsáveis fossem punidos e a sinagoga reconstruída às custas do bispo. Ambrósio interveio (Carta 40), pressionando o imperador a revogar a ordem, que acabou cedendo. O episódio é hoje objeto de leitura crítica pelos historiadores.

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