Alexandre de Licópolis
Alexandre de Licópolis (em grego, Ἀλέξανδρος ὁ Λυκοπολίτης) foi um filósofo platônico — provavelmente neoplatônico e, ao que tudo indica, pagão — ativo em Licópolis, no Egito romano, por volta do ano 300. É lembrado por ter escrito um dos primeiros tratados de refutação do maniqueísmo, em grego, defendendo a visão de mundo platônica contra o dualismo de Mani. A tradição que o transformou em "bispo cristão de Licópolis" remonta a uma identificação posterior de Fócio (séc. IX), hoje rejeitada pela crítica acadêmica: nada no texto indica um autor cristão, e ele fala da "filosofia dos cristãos" como observador externo.
Biografia
Quem foi e quando viveu
Alexandre de Licópolis foi um filósofo de língua grega ativo em Licópolis (a atual Assiut/Asyut), no Egito romano, na Tebaida. As datas exatas de nascimento e morte são desconhecidas; estima-se que tenha florescido por volta do ano 300. Como ele menciona a morte de Mani (c. 277) mas parece desconhecer a perseguição aos maniqueus iniciada sob Diocleciano (297), seu tratado costuma ser datado entre 277 e 297. Provavelmente recebeu formação filosófica em Alexandria, regressando depois à sua região, onde teria atuado como professor de filosofia.
O tratado contra os maniqueus
Sua única obra conhecida — e o único testemunho de sua existência — é um curto tratado em vinte e seis capítulos, escrito em grego, hoje conhecido como Contra as doutrinas de Mani (Pros tas Manichaíou dóxas). É o mais antigo escrito polêmico conhecido contra o maniqueísmo. Alexandre afirma ter colhido seu conhecimento do ensino de Mani de um próximo do próprio Mani (cap. 2, apò tôn gnōrímōn). O texto resume a cosmogonia maniqueia — o combate entre o princípio do bem (Deus) e a matéria (o mal) — e em seguida a refuta filosoficamente, mostrando que o autor estava bem informado sobre a doutrina que combatia. A obra é valiosa tanto como fonte sobre o maniqueísmo primitivo quanto para a história do neoplatonismo.
Pagão ou cristão? O problema da identidade
A religião de Alexandre é incerta, mas a pesquisa moderna conclui que ele não era nem maniqueu nem cristão, e sim um filósofo pagão de orientação platônica (com influência do médio-platonismo). No início do tratado ele fala da "filosofia dos cristãos" de fora, qualificando-a de "simples", e descreve Jesus não como salvador, mas como um louvável mestre de virtude para lavradores e artesãos — um enquadramento de observador externo, não de fiel. Já em 1697 o historiador Le Nain de Tillemont concluíra que o autor era pagão e platônico; Bardenhewer e a crítica posterior confirmaram. Alguns trechos do texto transmitido parecem ter sido retocados por um cristão posterior.
Por que foi tido por bispo (e por que isso é duvidoso)
No século IX, o patriarca Fócio de Constantinopla (Contra os Maniqueus I, 11) afirmou que Alexandre teria sido bispo de Licópolis. Essa identificação — provavelmente equivocada — concedeu autoridade teológica a um antigo platônico pagão e persistiu durante séculos: como o tratado foi impresso entre os Padres da Igreja (e na Patrologia Graeca de Migne, vol. XVIII), presumiu-se que fosse obra de um bispo cristão. A crítica moderna rejeita a atribuição: não há qualquer evidência de um "bispo Alexandre de Licópolis", e o conteúdo e o tom do tratado são os de um filósofo pagão. Boa parte da fama "cristã" provém ainda de uma confusão com o homônimo Alexandre de Alexandria, o bispo anti-ariano — pessoa distinta.
O contexto em que viveu
Alexandre viveu no Egito romano do fim do século III e início do IV, na cidade de Licópolis ("cidade dos lobos"), atual Assiut/Asyut, na região da Tebaida, no Alto Egito. Era uma época de efervescência filosófica marcada pelo neoplatonismo, então em formação a partir de mestres como Amônio Sacas e seus discípulos Plotino (m. 270) e Porfírio.
Foi também o momento em que o maniqueísmo, religião dualista fundada na Pérsia sassânida pelo profeta Mani (m. c. 277), se expandiu para o oeste e chegou ao Egito por meio de missionários. Alexandre escreve poucas décadas depois dessa chegada, reagindo à infiltração de pregadores maniqueus em seu próprio círculo de discípulos.
Sua obra é em geral datada entre 277 (que ele cita como morte de Mani) e 297, pois ele parece ainda desconhecer a perseguição imperial aos maniqueus: por um édito (rescrito a Juliano, procônsul da África) atribuído a Diocleciano em 31 de março de 297 (alguns o datam de 302), o maniqueísmo foi reprimido com dureza no Império, com queima dos líderes e de seus escritos.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
Uma crítica filosófica (platônica) ao dualismo de Mani
O único escrito de Alexandre, o tratado Contra as doutrinas de Mani (c. 277–297), é uma refutação filosófica — não teológica — do dualismo maniqueu. Alexandre, um platônico, ataca o ponto central de Mani: a existência de dois primeiros princípios coiguais e opostos, o Deus bom e a matéria concebida como princípio do mal, em guerra perpétua. Para Alexandre a matéria não é um princípio mau independente: ela também deriva do divino e não deve ser tida por má.
O mal não é uma substância; a "matéria" maniqueia é incoerente
Alexandre mostra que a definição maniqueia de matéria como "movimento desordenado" (átaktos kínēsis) difere por completo das noções de matéria em Platão ("aquilo que se torna todas as coisas ao receber qualidade e forma") e em Aristóteles ("o elemento em relação ao qual ocorrem forma e privação"). Argumenta que todo "movimento desordenado" pressupõe algo que se move — logo, algo anterior à própria matéria — e que toda mudança real procede segundo uma lei, de modo que uma mudança "desordenada" seria impossível. Demonstra também que dois princípios sem um terceiro mediador não poderiam ter contato algum.
Método sóbrio de filósofo, não a invectiva da polêmica
O tratado é "um protesto calmo, mas vigoroso, do intelecto científico treinado contra o vago dogmatismo das teosofias orientais". Alexandre adota um método deliberadamente cauteloso. Abre a obra com observações sobre "a filosofia dos cristãos", que qualifica de "simples" — uma doutrina trivial, mas útil, adequada às mentes comuns — e vê em Jesus não um salvador, mas um louvável mestre de virtude para lavradores e artesãos. Não há na obra invectiva religiosa: é a apreciação distanciada de um pagão platônico.
Uma das fontes mais antigas e valiosas sobre a doutrina de Mani
Alexandre conhecia os maniqueus de perto: missionários maniqueus infiltraram-se em seu círculo de alunos e converteram alguns deles, o que o levou a escrever; ele mesmo diz (cap. 2) ter tido por instrutor na doutrina um certo Papus e, depois dele, Tomás. Por isso seu resumo da cosmogonia e da soteriologia maniqueias (luta entre o princípio do bem e a matéria; alma enviada à matéria e nela aprisionada; o Demiurgo; sol e lua ligados à alma; Jesus como "intelecto" libertador; vegetarianismo e abstenção da procriação) é tido como fonte primária preciosa, em parte confirmada por textos maniqueus descobertos depois.
"A filosofia dos cristãos é dita simples. Mas ela dedica grande atenção à formação dos costumes, insinuando enigmaticamente palavras de verdade mais certa a respeito de Deus." Contra as doutrinas de Mani (Of the Manichaeans), cap. 1
Quem ele influenciou
O tratado de Alexandre tem importância dupla. É a mais antiga obra polêmica conhecida contra o maniqueísmo (anterior ou contemporânea às refutações cristãs, como as de Tito de Bostra e, mais tarde, Agostinho), redigida ainda no fim do século III, poucas décadas após a morte de Mani. E, por Alexandre ter conhecido maniqueus de perto e se valer de informação aparentemente autêntica, sua exposição é uma fonte primária preciosa sobre a doutrina maniqueia primitiva, em parte confirmada por textos maniqueus achados posteriormente. Hoje é estudado por historiadores do maniqueísmo e do neoplatonismo como testemunho tanto da doutrina de Mani quanto do modo como pagãos cultos percebiam o cristianismo e suas dissidências.
Debates e controvérsias
A controvérsia central é de identidade: pagão ou cristão?
O grande debate histórico em torno de Alexandre não é doutrinal, mas sobre quem ele era. A crítica moderna o tem por filósofo pagão platônico — nem maniqueu, nem cristão, nem bispo. Não há nada no texto que sugira um autor cristão; é a obra de um platônico reagindo à infiltração de maniqueus em suas próprias aulas. O próprio tratado é o único testemunho da existência de Alexandre.
A lenda do "bispo de Licópolis"
A tradição que fez de Alexandre um bispo cristão de Licópolis nasceu da autoridade de Fócio (Contra os Maniqueus I, 11), que no século IX afirmou que ele teria sido bispo de Licópolis, na Tebaida egípcia — visão repetida pelos editores da obra e que sobreviveu até o século XIX. Contribuiu para o equívoco a leitura do título do manuscrito ("Alexandre de Licópolis, convertido dos pagãos, contra a doutrina dos maniqueus"), que o primeiro editor, François Combefis, tomou como se descrevesse um pagão convertido ao cristianismo e depois sagrado bispo. Já em 1697 Tillemont concluíra que o autor era pagão e platônico; Bardenhewer (Patrologie, p. 234) sustentou o mesmo, e a erudição posterior consolidou esse consenso.
A confusão com Alexandre de Alexandria
Como o tratado foi impresso entre os Padres da Igreja, presumiu-se de modo geral que fosse de "Alexandre, bispo de Licópolis", sem que jamais surgisse prova disso — confusão favorecida pela semelhança com o nome do contemporâneo Alexandre de Alexandria (bispo, adversário de Ário). É dessa confusão que provêm as atribuições falsas de um Alexandre bispo, anti-ariano e ligado aos concílios de Niceia e Constantinopla — que NÃO pertencem ao filósofo de Licópolis.
Fontes e referências
- newadvent.org/cathen/01299a.htm
- newadvent.org/fathers/0618.htm
- en.wikipedia.org/wiki/Alexander_of_Lycopolis
- roger-pearse.com/weblog/2020/02/01/a-pagan-philosopher-writes-against-manichaeism-alexander-of-lycopolis-and-his-against-the-manichaeans/
- ccel.org/ccel/alexander_lyc/manichaeans/anf06
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