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Medalius · Codex de Personalidades · Teófilo de Antioquia
Teófilo de Antioquia

William Cave (1637–1713), gravura (ed. 1677) — via Pitts Theology Library, Emory University · fonte · PD

🏛 Padre da Igreja
Período
130–184 (54 anos)
Lugar
Antioquia
Estado canônico
Santo
Escola
Apologistas gregos do século II / Patrística pré-nicena
Idioma principal
Grego
Santo · Padre da Igreja

Teófilo de Antioquia

130–184
Bispo de Antioquia, Apologista Padre da Igreja

Teófilo de Antioquia foi um bispo e apologista cristão de língua grega do século II, considerado Padre da Igreja pré-niceno. Convertido do paganismo pela leitura das Sagradas Escrituras, tornou-se o sexto bispo de Antioquia por volta do ano 169, no reinado de Marco Aurélio. É autor da obra apologética Aos Autólico (Ad Autolycum), em três livros, dirigida a um amigo pagão. Foi o primeiro escritor cristão a empregar a palavra grega Trías (Trindade) para falar de Deus, de seu Verbo e de sua Sabedoria. Morreu por volta de 183-185, sob o imperador Cômodo, e é venerado como santo, com festa em 13 de outubro.

Biografia

Origem, conversão e contexto

Teófilo nasceu por volta do início do século II, na região da Mesopotâmia, perto dos rios Tigre e Eufrates, e foi educado na cultura grega de seu tempo. Em sua obra Aos Autólico (Ad Autolycum), ele mesmo se apresenta como um convertido do paganismo: relata que, cético quanto à ressurreição, mudou de ideia ao encontrar as Sagradas Escrituras dos santos profetas, que pelo Espírito de Deus haviam predito acontecimentos que de fato se cumpriram.

O estudo das Escrituras, sobretudo dos livros proféticos, foi o caminho de sua conversão à fé cristã (Ad Autolycum I, 14).


Bispo de Antioquia

Teófilo tornou-se bispo de Antioquia por volta de 169, no reinado do imperador Marco Aurélio. Segundo Eusébio de Cesareia, ele foi o sexto bispo na sucessão de Antioquia, sucedendo a Eros, que por sua vez sucedera a Cornélio e este a Hero (História Eclesiástica IV, 20).

São Jerônimo o confirma como o sexto bispo da igreja de Antioquia, situando seu episcopado sob Marco Aurélio (De viris illustribus 25). Eusébio, em sua Crônica, registra sua chegada ao episcopado no nono ano de Marco Aurélio, ano que corresponde a 169.


O apologista e escritor

A única obra de Teófilo que chegou íntegra até nós é Aos Autólico, uma apologia do cristianismo em três livros, dirigida a um amigo pagão chamado Autólico, que zombava da fé cristã. Nela, Teófilo expõe a ideia cristã de Deus, comenta o relato bíblico das origens do mundo e do homem em comparação com os mitos pagãos e defende a verdade das Escrituras.

Além dessa obra, as fontes antigas mencionam escritos hoje perdidos: um tratado contra a heresia de Hermógenes, no qual fazia uso de testemunhos do Apocalipse de João, e um escrito contra Marcião, além de livros catequéticos (Eusébio, HE IV, 24). São Jerônimo acrescenta comentários ao Evangelho e ao livro dos Provérbios (De viris illustribus 25).


Doutrina, morte e legado

Teófilo é o primeiro autor cristão conhecido a empregar a palavra grega Trías (Tríade/Trindade) ao falar de Deus. Em Aos Autólico II, 15, ele afirma que os três primeiros dias da criação, anteriores aos luzeiros, são tipos da Trindade: de Deus, de seu Verbo (Logos) e de sua Sabedoria.

Sua teologia desenvolve a doutrina do Logos, o Verbo que sempre existe junto de Deus, gerado e por meio do qual todas as coisas foram feitas. Teófilo morreu por volta de 183-185, sob o imperador Cômodo. É venerado como santo e contado entre os Padres da Igreja pré-nicenos, com festa em 13 de outubro.

Contexto

O contexto em que viveu

Teófilo viveu no segundo século, sob a dinastia dos Antoninos, quando o Império Romano alcançava seu apogeu territorial e cultural mas o cristianismo ainda era religião ilícita. Foi bispo de Antioquia por volta de 169, no reinado de Marco Aurélio (161–180), e ainda estava vivo depois da morte deste imperador, já sob Cômodo — sua obra Ad Autolycum, no terceiro livro, estende a cronologia até a morte de Marco Aurélio, em 180.


Era um tempo de perseguição. O cristianismo permanecia fora da lei, exposto a hostilidades locais e a martírios: Policarpo, bispo de Esmirna e discípulo do apóstolo João, foi martirizado em meados do século (tradicionalmente em 155); o filósofo e apologista Justino selou com o sangue a sua defesa da fé, condenado em Roma pelo prefeito Rústico por volta de 165; e em 177, no décimo sétimo ano de Marco Aurélio, a perseguição irrompeu com violência sobre as comunidades de Lyon e Viena, na Gália.


Foi também a época dos Apologistas gregos, autores que, dirigindo-se aos imperadores e aos pagãos cultos, procuravam mostrar a verdade e a razoabilidade do cristianismo e a falsidade do paganismo. Teófilo é um deles, ao lado de Justino, Taciano, Atenágoras de Atenas e Melitão de Sardes. Sua Ad Autolycum, em três livros, dirige-se ao amigo pagão Autólico para convencê-lo da autoridade divina da fé cristã — e nela aparece, pela primeira vez na literatura cristã, a palavra grega triás (Trindade) aplicada a Deus.


Antioquia, onde Teófilo presidia, era uma das grandes sedes da cristandade: ali, segundo os Atos dos Apóstolos (At 11,26), os discípulos foram chamados “cristãos” pela primeira vez, e dali vinha a herança de Inácio de Antioquia. Teófilo é contado como o sexto bispo daquela igreja desde os apóstolos, sucessor de Eros e antecessor de Maximino.


A Igreja do século II combatia ainda as grandes heresias do período: o dualismo de Marcião, que rejeitava o Deus do Antigo Testamento; o gnosticismo de mestres como Valentino; e os erros de Hermógenes sobre a matéria. Teófilo escreveu refutações contra Marcião e contra Hermógenes, hoje perdidas. Tudo isso se passava antes que a Igreja contasse com a linguagem precisa dos grandes concílios: faltava ainda mais de um século e meio para Niceia (325), e a fé era defendida e transmitida pela pregação dos pastores e pela pena dos apologistas.

Fatos contextuais
Marco Aurélio torna-se imperador
Marco Aurélio assume o governo do Império Romano (161–180); é sob seu reinado qu...
Martírio de São Justino, em Roma
O filósofo e apologista Justino é condenado à morte pelo prefeito Rústico, por v...
Teófilo, bispo de Antioquia
Teófilo torna-se o sexto bispo de Antioquia desde os apóstolos, sucedendo a Eros...
Mártires de Lyon e Viena, na Gália
No décimo sétimo ano de Marco Aurélio (177), a perseguição irrompe com violência...
Santo Ireneu, bispo de Lyon
Após o martírio de Potino, Ireneu sucede-lhe no episcopado de Lyon; pouco depois...

Suas contribuições à teologia

O conhecimento de Deus e a pureza do coração

Para Teófilo, o Deus verdadeiro é invisível aos olhos do corpo, mas se deixa ver pelos que têm a alma purificada. À provocação “Mostra-me o teu Deus”, ele responde: “Mostra-me o teu homem, e eu te mostrarei o meu Deus”. Como num espelho enferrujado não se vê o rosto, assim a alma manchada pelo pecado não consegue contemplar a Deus; só os limpos de coração O percebem.


Ainda assim, Deus não fica oculto: assim como pela vista de um navio em rota se reconhece o piloto, também “Deus não pode ser visto por olhos humanos, mas é contemplado e percebido pela sua providência e pelas suas obras”. A criação inteira anuncia o seu Autor.


O Verbo (Logos): interior e proferido

No centro do pensamento de Teófilo está o Verbo. Deus, “tendo o seu próprio Verbo interior nas suas entranhas, gerou-o, emitindo-o juntamente com a sua Sabedoria antes de todas as coisas”. Distingue assim o Verbo que sempre existiu, imanente em Deus (o Logos interior), do Verbo gerado e proferido para criar: “por Ele fez todas as coisas”, tendo-O como auxiliar em tudo o que foi criado.


Era esse mesmo Verbo, “por quem fez todas as coisas, sendo a sua potência e a sua sabedoria”, que, assumindo a pessoa do Pai e Senhor de tudo, “veio ao jardim na pessoa de Deus e conversou com Adão”. A “voz” que se ouvia no Éden era o Verbo de Deus.


A Trindade (Trías): a primeira vez

Teófilo é o primeiro autor cristão a nomear o mistério com a palavra grega Trías (Trindade). Lendo o relato da criação, ensina que “os três dias que precederam os luminares são tipos da Trindade: de Deus, do seu Verbo e da sua Sabedoria” — e o quarto dia, tipo do homem, que precisa da luz. É a mais antiga formulação cristã conhecida da Trindade.


Criação a partir do nada e a verdade dos profetas

Contra os filósofos, Teófilo afirma que “Deus fez todas as coisas a partir do nada; pois nada era coeterno com Deus”, e que “a partir do que não é, Ele faz o que lhe apraz”. Refuta Platão e a sua escola, que sustentavam ser a matéria também não-criada e coeterna a Deus: se a matéria fosse incriada, seria igual a Deus, e Deus já não seria o Criador de tudo. Para Teófilo, a autoridade última são as Escrituras dos santos profetas, inspiradas pelo Espírito de Deus, “mais antigas que todos os autores” e mais verdadeiras que a sabedoria dos gregos.


O homem: nem mortal nem imortal

Quanto à criatura, ensina que o homem não foi feito “nem mortal nem imortal” por natureza, mas capaz de ambos: se inclinasse para as coisas da imortalidade, guardando o mandamento de Deus, dele receberia em recompensa a imortalidade; voltando-se para o mal, ele próprio seria causa da sua morte. A vida eterna ou a morte ficam, assim, suspensas da obediência livre do homem.

"Mas se disseres: “Mostra-me o teu Deus”, eu responderia: “Mostra-me o teu homem, e eu te mostrarei o meu Deus.” Mostra, pois, que os olhos da tua alma são capazes de ver, e os ouvidos do teu coração capazes de ouvir." Ad Autolycum I, 2
Influência

Quem ele influenciou

O pioneiro do termo “Trindade”Teófilo de Antioquia ocupa um lugar singular na história da teologia: é a primeira testemunha documentada do termo grego Trías (Tríade/Trindade) aplicado a Deus, em Ad Autolycum II, 15 — falando da “Tríade de Deus, de seu Verbo e de sua Sabedoria”. Desse vocábulo grego derivaria a forma latina Trinitas, adotada pouco depois por Tertuliano no início do séc. III, palavra que se tornaria definitiva no vocabulário teológico cristão.Sua doutrina do Verbo também marcou a teologia posterior do Logos: Teófilo distingue o Logos endiáthetos (o Verbo imanente, interior a Deus) do Logos prophorikós (o Verbo proferido), gerado pelo Pai em vista da criação (Ad Autolycum II, 10 e II, 22). Essa formulação, de fundo estóico, foi retomada por autores como Tertuliano e está entre os esquemas que a teologia pré-nicena usou para pensar a geração do Verbo. Teófilo afirma ainda com clareza a creatio ex nihilo — Deus fez todas as coisas do nada —, doutrina que se tornaria patrimônio comum da tradição.Difusão e recepção posteriorSeu Ad Autolycum circulou amplamente na Igreja antiga e medieval: foi conhecido e citado por autores posteriores, e Lactâncio o cita expressamente. Eusébio de Cesareia (História Eclesiástica IV, 24) e São Jerônimo (De viris illustribus 25) registram sua obra e seus escritos perdidos, garantindo sua memória. Há também paralelos notáveis entre passagens de Teófilo e de Santo Ireneu (sobretudo o tema do Verbo e da Sabedoria como as “duas mãos de Deus”), embora os eruditos discutam se Ireneu dependeu do Ad Autolycum ou da obra perdida de Teófilo contra Marcião. Como apologista grego do séc. II, ao lado de Justino e Atenágoras, Teófilo é uma das pontes entre a fé apostólica e a teologia que viria.

Debates

Debates e controvérsias

Controvérsias históricas

A atuação de Teófilo esteve ligada ao combate às heresias do séc. II, num período em que a Igreja definia as fronteiras da fé. Embora suas obras polêmicas se tenham perdido, seu conteúdo é conhecido por testemunhos antigos:

  1. Contra Marcião: Eusébio (HE IV, 24) e Jerônimo (De viris ill. 25) atestam que Teófilo escreveu uma obra “de não pequeno mérito” contra Marcião, que negava o Antigo Testamento e o Deus criador.
  2. Contra Hermógenes: escreveu uma refutação da heresia de Hermógenes, que defendia a eternidade da matéria; nela, segundo Eusébio, Teófilo se valeu de testemunhos tirados do Apocalipse de João.


Um ponto que a erudição pede para ler com cuidado é sua cristologia do Logos: sua linguagem do Verbo “interior” e depois “proferido” para a criação (esquema endiáthetos/prophorikós) soa subordinacionista quando lida com as categorias do Concílio de Niceia (325), posterior a ele. Trata-se, porém, de um anacronismo a evitar: Teófilo escreve antes das controvérsias trinitárias do séc. IV, com vocabulário ainda em formação, e não pode ser medido pelos termos de um concílio que não conheceu.

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