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Medalius · Codex de Personalidades · Efrém da Síria
Efrém da Síria
✦ Doutor da Igreja
Período
306–373 (67 anos)
Lugar
Nísibis e Edessa
Estado canônico
Santo · Doutor da Igreja
Escola
Patrística siríaca
Idioma principal
Siríaco
Santo · Doutor da Igreja · Padre da Igreja

Efrém da Síria

306–373
Harpa do Espírito Santo Doutor da Igreja Padre da Igreja

Santo Efrém da Síria (c. 306–373), também chamado Efrém, o Sírio, ou Mar Aprem, foi diácono, poeta, hinógrafo e teólogo, o mais importante representante da cristandade siríaca do século IV. Nascido em Nísibis, na Mesopotâmia, formou-se ao lado de São Tiago (Jacó) de Nísibis e foi ordenado diácono, estado que manteve por toda a vida, abraçando a virgindade e a pobreza. Sua produção mais abundante foram os hinos (madrāšê), pelos quais difundia a doutrina e combatia heresias como as de Bardesanes, Marcião, Mani e os arianos, fazendo-os cantar inclusive por coros de mulheres consagradas. Após a queda de Nísibis aos persas em 363, mudou-se para Edessa, onde ensinou e pregou até morrer em 9 de junho de 373, vítima da peste contraída ao cuidar dos doentes durante a fome. Único Doutor da Igreja de língua siríaca, foi proclamado Doutor da Igreja universal pelo Papa Bento XV em 1920 e é honrado pela tradição cristã com o título de “Harpa do Espírito Santo”.

Biografia

Infância, formação e Nísibis

Santo Efrém nasceu em uma família cristã em Nísibis, na Mesopotâmia (hoje Nusaybin, no sudeste da Turquia), por volta de 306. Foi educado e cresceu ao lado de São Tiago (Jacó), bispo de Nísibis (303–338), com quem, segundo a tradição, esteve ligado à célebre escola teológica e de exegese bíblica da cidade. Recebeu o batismo na juventude — as fontes antigas variam quanto à idade exata — e foi ordenado diácono. Permaneceu diácono por toda a vida, abraçando a virgindade e a pobreza, e dedicou-se intensamente ao ensino da Sagrada Escritura, à pregação e à vida da comunidade cristã local.


Vida adulta e missão: poeta, hinógrafo e mestre

A produção mais abundante de Efrém foram os hinos — em siríaco, madrāšê —, nos quais teologia e poesia convergem: ele “produz teologia em forma poética”, valendo-se de paradoxos, símbolos e imagens contrastantes para exprimir o mistério de Deus. Por ocasião das festas litúrgicas, servia-se desses hinos para difundir a doutrina da Igreja, compondo cantos ao mesmo tempo teológicos e próprios para o canto litúrgico. A tradição siríaca atribui-lhe a formação de coros de mulheres consagradas — as chamadas “Filhas da Aliança” (Bnāt Qyāmā) — para cantar seus hinos doutrinais, contrapondo-se à difusão das heresias, que também se valiam do canto. Por toda essa obra ficou conhecido como “Harpa do Espírito Santo” e “Doutor dos sírios”.


De Nísibis a Edessa; lutas contra as heresias

Após a malograda campanha persa do imperador Juliano, o Apóstata, e a morte deste, Nísibis foi cedida aos persas em 363. Efrém, com grande parte da população cristã, preferiu permanecer em território romano e emigrou para Edessa (hoje Şanlıurfa), onde prosseguiu sua atividade de mestre e pregador. Ali combateu vigorosamente diversas correntes heréticas, em especial o gnosticismo de Bardesanes (Bardaisan) e de Marcião, o maniqueísmo de Mani e o arianismo, usando como arma principal seus próprios hinos e poemas ortodoxos. Diz a tradição que, por volta de 370, teria viajado à Cesareia da Capadócia e encontrado São Basílio Magno, que admirou suas obras — episódio (assim como uma suposta viagem ao Egito) que os estudiosos consideram de valor histórico discutido e tratam como tradição piedosa.


Últimos anos, morte e legado

Nos últimos anos em Edessa, Efrém destacou-se pela caridade: durante uma grave fome e peste (c. 372–373), organizou socorro aos famintos e assistiu pessoalmente aos doentes. Morreu em 9 de junho de 373, vítima da doença que contraíra ao cuidar dos atingidos pela peste, e foi sepultado sem pompa. São Jerônimo, cerca de vinte anos depois, já o louvava como autor cujos escritos eram “lidos publicamente em algumas igrejas depois das Sagradas Escrituras”. Único Doutor da Igreja de língua siríaca, foi proclamado Doutor da Igreja universal pelo Papa Bento XV em 1920, pela encíclica Principi Apostolorum Petro. A tradição cristã o consagrou definitivamente como a “Harpa do Espírito Santo”.

Contexto

O contexto em que viveu

Santo Efrém viveu no século IV no Oriente cristão de língua siríaca, numa região fronteiriça disputada entre o Império Romano e o Império Sassânida (Pérsia). Sua cidade natal, Nísibis (hoje Nusaybin, na Turquia), era então uma fortaleza romana avançada na Mesopotâmia, na linha de frente contra a Pérsia — posição que marcaria toda a sua vida.


O cristianismo siríaco, distinto do mundo grego e latino, florescia em centros como Nísibis e Edessa, com língua, liturgia e poesia próprias. Efrém cresceu ao lado de São Tiago (Jacó), bispo de Nísibis (c. 303–338), e ajudou a consolidar a escola teológica da cidade. Tiago participou do Concílio de Niceia (325), que condenou o arianismo e definiu a divindade do Filho — crise doutrinal que seria pano de fundo de boa parte da produção de Efrém.


Sob o rei persa Sapor II (Shapur II), Nísibis foi sitiada três vezes — em 338, 346 e 350 — e resistiu em todas. A defesa da cidade tornou-se quase lendária, associada às orações do bispo Tiago. Nesses anos, o Império era governado por Constâncio II, filho de Constantino (morto em 337), que manteve Nísibis em mãos romanas durante todo o seu reinado.


A virada veio com o imperador Juliano, o Apóstata, que tentou restaurar o paganismo e lançou uma grande campanha contra a Pérsia em 363. Juliano foi ferido de morte em combate (Batalha de Samarra, 26 de junho de 363); seu sucessor, Joviano, assinou um tratado humilhante que cedeu à Pérsia Nísibis e cinco províncias além do Tigre. A perda de Nísibis (363) forçou o êxodo da população cristã — entre ela Efrém —, que se refugiou em território romano.


Efrém estabeleceu-se então em Edessa (hoje Şanlıurfa), antigo centro cristão de língua siríaca, ligado à célebre tradição do rei Abgar (que, segundo a lenda, teria trocado cartas com Cristo). Edessa, porém, fervilhava de correntes religiosas: ali atuavam discípulos de Bardesanes (Bardaisan), de Marcião e de Mani (maniqueísmo). Efrém combateu vigorosamente essas seitas, sobretudo com hinos compostos para fixar a fé ortodoxa no povo. Foi nesses dez últimos anos, marcados ainda por uma fome e uma peste (c. 372–373) em que se dedicou aos doentes, que produziu grande parte de sua obra, até a morte em 373.

Fatos contextuais
Nascimento em Nísibis
Efrém nasce por volta de 306 em Nísibis (atual Nusaybin), então fortaleza romana...
Concílio de Niceia
O primeiro Concílio Ecumênico condena o arianismo e define a divindade do Filho....
Morte de Constantino e guerra com a Pérsia
Morre o imperador Constantino; seus filhos dividem o Império. Sapor II ataca a M...
Discípulo e diácono junto a São Tiago de Nísibis
Formado por São Tiago, bispo de Nísibis (c. 303–338), Efrém ajuda a consolidar a...
Primeiro cerco de Nísibis por Sapor II
Sapor II (Shapur II) cerca a fortaleza de Nísibis pela primeira vez e é repelido...

Suas contribuições à teologia

Teologia cantada, não esquadrinhada

Efrém é, antes de tudo, um teólogo que pensa em forma de poema. Sua obra mais abundante são os hinos (madrāšê), em que, como resume Bento XVI, ele “faz teologia de forma poética”: a poesia permite-lhe “aprofundar a reflexão teológica através de paradoxos e imagens”, de modo que “a sua teologia torna-se liturgia, torna-se música”. Frente ao racionalismo dos arianos, que pretendiam medir e definir a geração eterna do Filho, Efrém ensina que o mistério divino não se deixa esquadrinhar: privilegia as imagens contrapostas justamente “porque lhe servem para ressaltar o mistério de Deus”.


A teologia dos símbolos: a natureza e a Escritura, duas testemunhas

No centro do seu pensamento está a convicção de que toda a criação está semeada de símbolos (em siríaco, rāzê) que apontam para a realidade divina. Como diz Bento XVI, “na criação nada está isolado, e o mundo é, ao lado da Sagrada Escritura, uma Bíblia de Deus”. A natureza e a Escritura são como dois livros, duas testemunhas que se iluminam mutuamente; e a fé é o “olho luminoso” (a expressão consagrada por Sebastian Brock) que capacita o coração a ver o divino nos símbolos. Sua reflexão teológica exprime-se “com imagens e símbolos tirados da natureza, da vida quotidiana e da Bíblia”.


Cristo e a Eucaristia: o carvão em brasa e a pérola

Para falar do mistério de Cristo, Efrém recorre a uma vasta gama de imagens. Liga Adão (no Paraíso) a Cristo (na Eucaristia): “as árvores do Éden foram dadas como alimento à primazia de Adão; para nós, o jardineiro do Jardim em pessoa fez-se alimento para as nossas almas”. Da Eucaristia fala pelo carvão em brasa de Isaías (“no teu pão esconde-se o Espírito que não pode ser consumado; no teu vinho há o fogo que não se pode beber”) e pela pérola, símbolo da fé: “é a busca do Filho, imperscrutável, porque ela é toda luz”. Sua linguagem antecipa, “de certo modo, a própria linguagem das grandes definições dos Concílios do século V”.


Maria, a dignidade da mulher e o Paraíso

Bento XVI apresenta-o como poeta mariano. Para Efrém, “assim como não há Redenção sem Jesus, também não há Encarnação sem Maria”, e “a habitação de Jesus no seio de Maria elevou em grande medida a dignidade da mulher”. Ele canta a pureza de Maria e desenvolve a tipologia Eva–Maria, em que a nova Eva desfaz a desobediência da primeira. O Paraíso é outro grande tema: nos Hinos sobre o Paraíso descreve o Éden perdido em Adão e reaberto em Cristo, pois, “agora que a espada foi tirada” pela Cruz, “nós podemos ali voltar”.

"O Senhor vem a ela / para se fazer servo. / O verbo veio a ela / para descer no seu seio. / O relâmpago veio a ela / para não fazer barulho algum. / O pastor veio a ela / e eis o Anjo nascido, que humildemente chora. / Dado que o seio de Maria / inverteu os papéis: / Aquele que criou todas as coisas / entrou em sua posse, mas pobre. / O Altíssimo veio a ela (Maria), / mas entrou humilde. / O esplendor veio a ela, / mas revestido de humildes vestes. / Aquele que prodigaliza todas as coisas / conheceu a fome. / Aquele que dessedenta todos / conheceu a sede. / Nu e despojado saiu dela, ele que reveste (de beleza) todas as coisas." Hinos sobre a Natividade (De Nativitate) 11, 6-8 — citado por Bento XVI, Audiência Geral de 28/11/2007
Influência

Quem ele influenciou

Pai da himnografia cristãEfrém deu aos seus hinos um caráter didático e catequético — “hinos teológicos e ao mesmo tempo adequados para a recitação ou o cântico litúrgico” — e por ocasião das festas litúrgicas servia-se deles para difundir a doutrina da Igreja, revelando-se “um meio catequético extremamente eficaz”. É considerado um dos pais da himnografia cristã: o ritmo métrico que popularizou propagou-se, segundo Bento XV, amplamente tanto entre os gregos como entre os latinos, a ponto de o costume do ritmo oriental ter tocado o catecúmeno Agostinho. Sua poesia siríaca floresceu na liturgia siríaca e influenciou a himnografia bizantina.Doutor da Igreja e fonte da mariologiaJá São Jerônimo registrava que os escritos de Efrém eram “lidos publicamente em algumas igrejas depois das Sagradas Escrituras”. A tradição honrou-o como “Sol dos sírios”, “coluna da Igreja” e “Harpa do Espírito Santo”. Em 5 de outubro de 1920, pela encíclica Principi Apostolorum Petro, o Papa Bento XV conferiu-lhe “o título e as honras de Doutor da Igreja Universal” — o chamado Doctor Syrus. Seus testemunhos sobre a maternidade divina, a virgindade e a pureza de Maria fazem dele uma das primeiras grandes fontes patrísticas da mariologia.Ponte ecumênicaEfrém é venerado por católicos, ortodoxos bizantinos e ortodoxos orientais (siríacos, coptas, armênios) — apontado como o único Padre da Igreja anterior aos grandes cismas cuja festa é celebrada em todo o espectro do cristianismo apostólico. Por isso é figura de grande estima ecumênica, ponte entre o Oriente e o Ocidente cristãos.

Debates

Debates e controvérsias

O combate às heresias pela poesia

Efrém viveu numa Edessa onde, segundo a Catholic Encyclopedia, cerca de dez seitas heréticas estavam ativas, e “combateu vigorosamente todas elas, notadamente os discípulos do ilustre filósofo Bardesanes”. Os hereges difundiam os seus erros por meio de canções; Efrém respondeu no mesmo terreno, “com a esperança de vencer a heresia com as suas próprias armas, aperfeiçoadas por ele”. Bento XV resume: “como o jovem Davi que mata o gigante Golias com a sua própria espada, Efrém opôs arte à arte e revestiu a doutrina católica de melodia e ritmo”. Combateu assim o bardesanismo (gnosticismo), o marcionismo, o maniqueísmo e o arianismo — controvérsias já há muito resolvidas.


A autenticidade das obras: o “Ephraem Graecus”

Grande parte do enorme corpus que circula sob o nome de Efrém — sobretudo em grego, mas também em latim, copta e armênio — é pseudo-epigráfica. Os manuscritos gregos atribuídos a “Efrém” são tão numerosos que ele figura entre os Padres gregos mais copiados, mas a maioria nada tem a ver com o Efrém siríaco original: só alguns são traduções de obras autênticas. Esse vasto conjunto, chamado Ephraem Graecus, exige crítica textual cuidadosa. A própria “Oração de Santo Efrém” da Quaresma bizantina, por exemplo, provém desse corpus grego, embora a tradição a atribua firmemente ao santo.


Episódios hagiográficos de historicidade discutida

Alguns relatos tradicionais são historicamente duvidosos. A suposta visita de Efrém a São Basílio Magno, em Cesareia, repousa em fontes de confiabilidade questionável — “alguns bons críticos rejeitam-na, ou ao menos suspendem a adesão” —, e uma alegada viagem ao Egito “é, na melhor das hipóteses, de valor duvidoso”. A própria idade do batismo (dezoito ou vinte e oito anos) é incerta nas fontes.

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