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Medalius · Codex de Personalidades · Arquelau de Carrhae
Arquelau de Carrhae
🏛 Padre da Igreja
Lugar
Carchar (Carrhae), Mesopotâmia romana
Escola
Patrística / Polêmica antimaniqueia
Idioma principal
Grego (transmitida em tradução latina; possível original siríaco)
· Padre da Igreja

Arquelau de Carrhae

Bispo de Carrhae (protagonista da Acta Archelai) Padre da Igreja

Arquelau é o bispo cristão de Carchar (Carrhae), na Mesopotâmia romana, apresentado como protagonista da Acta Archelai (Acta disputationis Archelai et Manetis), a mais antiga e mais importante obra polêmica contra o maniqueísmo. Na obra, Arquelau debate com Mani (Maniqueu), fundador do maniqueísmo, e o derrota em duas disputas públicas — uma em Carchar e outra na aldeia de Diodóris. A autoria real é atribuída a Hegemônio, autor cristão do séc. IV; o texto foi escrito em grego (alguns supõem um original siríaco) entre c. 300 e 350 e sobreviveu sobretudo numa tradução latina, com fragmentos gregos preservados no Panarion de Epifânio. A crítica considera que tanto Arquelau quanto a disputa são provavelmente fictícios — um recurso literário —, mas a obra continua sendo uma fonte de primeira ordem sobre o sistema maniqueu.

Biografia

Quem é Arquelau e a Acta Archelai

Arquelau (em latim, Archelaus) é apresentado como o bispo cristão ortodoxo de Carchar (também grafado Caschar ou Charcar; identificado por alguns com Carrhae/Harran ou com Kashkar, no Tigre), na Mesopotâmia romana. Ele é o protagonista da Acta Archelai (Acta disputationis Archelai et Manetis haeresiarchae), descrita pelos estudiosos como “a mais antiga e mais significativa obra polêmica antimaniqueia”. Toda a notícia sobre Arquelau provém dessa obra: não há registro histórico independente de sua existência.


A disputa com Mani

O enredo apresenta um debate público entre o bispo Arquelau e Mani (Manes/Maniqueu), fundador do maniqueísmo. A ação começa quando Marcelo, um cidadão rico e piedoso de Carchar, recebe uma carta de Mani e o convida a expor sua doutrina pessoalmente. Marcelo organiza a disputa e nomeia quatro juízes pagãos — Manipo, Egialeu, Cláudio e Cleóbulo — para arbitrar com imparcialidade. No primeiro debate, em Carchar, Arquelau refuta Mani; a multidão enfurecida tenta linchar Mani, que foge para a aldeia vizinha de Diodóris, supondo não encontrar ali quem o enfrentasse. Mas Arquelau reaparece em Diodóris e o derrota uma segunda vez. Mani acaba derrotado e em fuga.


Autoria, língua e transmissão

A autoria real não é de Arquelau, mas de Hegemônio (Hegemonius), autor cristão do séc. IV — atribuição feita por Heracliano de Calcedônia e registrada por Fócio (Bibliotheca, cód. 85). A obra foi composta em grego na primeira metade do séc. IV (alguns autores antigos, como Jerônimo, supuseram um original siríaco) e sobreviveu sobretudo numa tradução latina quase contemporânea; uma parte substancial do texto grego preservou-se no Panarion de Epifânio (Haer. 66). A primeira menção conhecida à obra está na 6.ª Catequese Batismal de Cirilo de Jerusalém, de 348.


Historicidade: figura provavelmente fictícia

A crítica considera que tanto o bispo Arquelau quanto a disputa são provavelmente fictícios. Como resume o Dictionary of Christian Biography de Wace, “a disputa e o próprio Arquelau parecem ser fictícios; mas a obra fornece informações valiosas a respeito do sistema maniqueu”. A Catholic Encyclopedia concorda: o texto “contém uma disputa imaginária entre Arquelau, bispo de Charcar, e o próprio Mani… A disputa é apenas um recurso literário, mas a obra figura como autoridade de primeira ordem sobre o maniqueísmo”. Assim, Arquelau não é venerado como santo nem condenado como herege: é a figura literária do bispo ortodoxo que personifica a refutação cristã do maniqueísmo.

Contexto

O contexto em que viveu

A Acta Archelai situa-se na Mesopotâmia romana, região de fronteira entre o Império Romano e a Pérsia sassânida, num período em que o cristianismo e o recém-surgido maniqueísmo competiam pela adesão das populações.


O maniqueísmo fora fundado pelo profeta persa Mani (m. c. 277), que pregava um dualismo radical de dois princípios coeternos e opostos — a Luz (o Bem) e as Trevas (o Mal/a matéria) — e rejeitava o Antigo Testamento e o Deus criador. Após a morte de Mani sob o rei sassânida, a religião expandiu-se rapidamente para o oeste, suscitando forte reação tanto do Estado romano (édito antimaniqueu atribuído a Diocleciano, 297/302) quanto dos escritores cristãos.


É nesse contexto de reação cristã ao avanço maniqueu, ao longo dos séculos III e IV, que se compõe a Acta Archelai (c. 300–350): uma obra que dramatiza, na forma de uma disputa pública entre um bispo e o próprio Mani, a vitória da ortodoxia cristã sobre o dualismo maniqueu.

Fatos contextuais
Nascimento de Mani na Mesopotâmia
Mani (Maniqueu), futuro fundador do maniqueísmo e antagonista da Acta, nasce c....
Morte de Mani na Pérsia
Mani morre c. 274–277, preso e condenado pelo rei sassânida Bahram I. A Acta nar...
Édito antimaniqueu de Diocleciano
Diocleciano emite (c. 297) o rescrito ao procônsul Juliano da África condenando...
Hegemônio compõe a Acta Archelai
Entre c. 300 e 350 (antes de 348), Hegemônio — não Arquelau — compõe a Acta Arch...
A disputa em Carchar (no enredo da Acta)
Evento do relato da Acta, tido pela crítica como ficção literária: organiza-se e...

Suas contribuições à teologia

A unidade de Deus contra o dualismo dos dois princípios

O argumento central atribuído a Arquelau é a defesa de um único Deus, criador tanto do corpo quanto da alma, contra a tese maniqueia de dois princípios primeiros, coeternos e opostos (o Deus bom e a matéria/as trevas como princípio do mal). Arquelau sustenta que o homem foi produzido completo pelo Deus único, em quem corpo e alma se harmonizam.


A impossibilidade lógica de dois princípios não-gerados

Arquelau argumenta que dois princípios não-gerados e opostos não poderiam coexistir nem ter qualquer contato sem um terceiro, maior, que os delimitasse — pois nenhum objeto pode separar duas substâncias, exceto um que seja maior do que ambas. O dualismo, portanto, refuta-se a si mesmo.


O mal como escolha, não como substância

Contra a ideia maniqueia do mal como substância eterna, Arquelau sustenta que o mal procede do livre-arbítrio, não de uma natureza má independente: é possível que aquele que é adversário, não por natureza, mas por determinação da vontade, se torne amigo e deixe de ser adversário.


A continuidade entre o Antigo e o Novo Testamento

Por fim, Arquelau defende a unidade das Escrituras contra a rejeição maniqueia do Antigo Testamento e da Lei, argumentando pela continuidade — e não pela oposição — entre a Lei e os profetas e o Evangelho.

"É perfeitamente possível que alguém que é adversário, não por natureza, mas por determinação da vontade, venha a tornar-se amigo e deixe de ser adversário. Isto indica que as criaturas racionais foram dotadas de livre-arbítrio, em virtude do qual também admitem conversões; e, por consequência, não pode haver duas naturezas não-geradas." Acta Archelai, cap. XV (ANF vol. 6) — fala do personagem Arquelau (obra de Hegemônio)
Influência

Quem ele influenciou

A Acta Archelai exerceu enorme influência sobre toda a literatura antimaniqueia posterior, na Antiguidade tardia e na Idade Média. Sua exposição da doutrina e, sobretudo, sua “biografia” polêmica de Mani moldaram a imagem do heresiarca por séculos: foi usada e citada por autores como Cirilo de Jerusalém (que a menciona já em 348), Epifânio de Salamina (que preservou trechos gregos no Panarion), o historiador Sócrates e numerosos polemistas do Ocidente medieval.Por meio dessa recepção, a figura literária de Arquelau — o bispo que vence Mani em debate — tornou-se o modelo paradigmático da refutação cristã do maniqueísmo, e a obra firmou-se como a fonte cristã antiga de referência sobre essa heresia.

Debates

Debates e controvérsias

Arquelau existiu? A disputa aconteceu?

A controvérsia central em torno de Arquelau é a de sua historicidade. O consenso erudito é que tanto o bispo quanto a disputa são provavelmente fictícios — um recurso literário do autor para expor e refutar o maniqueísmo. O Dictionary of Christian Biography de Wace afirma textualmente que “a disputa e o próprio Arquelau parecem ser fictícios; mas a obra fornece informações valiosas a respeito do sistema maniqueu”. A Catholic Encyclopedia qualifica o debate de “disputa imaginária” e “mero recurso literário”. Não há, fora da Acta, qualquer testemunho independente de um bispo Arquelau de Carchar.


Onde ficava Carchar?

A própria localização de Carchar (Caschar/Charcar) é incerta e disputada. Alguns identificam-na com Carrhae (Harran), na Mesopotâmia romana — forma adotada no título desta ficha; outros, com Kashkar, no Tigre. A ambiguidade da cidade reforça o caráter literário, e não estritamente histórico, do cenário da obra.


Autoria e língua original

Houve também debate antigo sobre quem redigiu a obra e em que língua. Epifânio e Jerônimo atribuíram-na ao próprio Arquelau; Heracliano de Calcedônia (citado por Fócio) atribuiu-a a Hegemônio, hoje tido pela crítica como o verdadeiro autor. Jerônimo julgava que o original fosse siríaco, traduzido depois para o grego; o consenso moderno é que foi composta em grego, na primeira metade do séc. IV.

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