Teodoto de Bizâncio
Teodoto de Bizâncio, dito "o Curtidor" ou "o Sapateiro" (gr. ὁ σκυτεύς), foi um artesão de couro culto e abastado do fim do século II, lembrado não como santo, mas como herege. Preso numa perseguição em Bizâncio, apostatou e negou a Cristo enquanto seus companheiros foram martirizados; refugiou-se em Roma e, para desculpar a queda, passou a ensinar que Jesus fora apenas um homem — nascido da Virgem pela vontade do Pai, sobre quem o "Cristo" desceu em forma de pomba no batismo —, negando a divindade do Senhor (o chamado adopcionismo ou monarquianismo dinâmico). Por isso foi excomungado pelo Papa Vítor I (c. 189–199) e tornou-se o fundador dos teodocianos, conforme atestam Eusébio de Cesareia (que conserva o "Pequeno Labirinto") e Hipólito de Roma.
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O que se sabe
Origem, ofício e formação
Teodoto era natural de Bizâncio (a futura Constantinopla) e exercia o ofício de curtidor ou sapateiro de couro — em grego ho skyteús (ὁ σκυτεύς) —, alcunha pela qual ficou conhecido na tradição. As fontes antigas o descrevem como homem culto e abastado: segundo Hipólito de Roma, a seita que fundou cultivava intensamente o estudo profano, argumentava sobre a Escritura em forma de silogismos e admirava Euclides, Aristóteles e Teofrasto, chegando a venerar Galeno. Floresceu no fim do século II.
A apostasia em Bizâncio e a fuga para Roma
Numa perseguição, Teodoto foi preso em Bizâncio por ser cristão. Enquanto seus companheiros foram martirizados, ele negou a Cristo (apostatou). Conforme relata Hipólito, foi justamente esse fato que deu origem à sua heresia: para se desculpar da queda, Teodoto sustentava que havia negado apenas um homem, e não a Deus. Fugiu então para Roma, onde difundiu sua doutrina.
A heresia adopcionista e a excomunhão pelo Papa Vítor I
Em Roma, Teodoto inventou a heresia segundo a qual Cristo era um mero homem (psilantropismo). Ensinava que Jesus nasceu da Virgem pela vontade do Pai e pela ação do Espírito Santo, viveu como os demais homens e foi sumamente piedoso; só no batismo no Jordão o "Cristo" (ou o Espírito) desceu sobre Ele em forma de pomba, e foi a partir daí que operou milagres — mas não era Deus por natureza. Entre seus seguidores, uns negavam que Jesus jamais tivesse sido feito Deus; outros admitiam que o teria sido depois da ressurreição. Por essa doutrina, que negava a divindade de Cristo, o Papa Vítor I (c. 189–199) excomungou Teodoto — apontado por Eusébio como "o sapateiro, líder e pai dessa apostasia negadora de Deus, e o primeiro a declarar que Cristo é mero homem". Teodoto não se submeteu e, com seus adeptos, formou um partido cismático que perdurou um tempo em Roma: os teodocianos.
Discípulos, difusão e legado
Da seita surgiram discípulos. Teodoto, o Banqueiro (ho trapezítes), homônimo do mestre, e Asclepiodoto levaram o erro adiante: o Banqueiro acrescentou a especulação de que Melquisedeque seria uma potência celeste superior ao próprio Cristo, dando origem aos melquisedequianos. Esses discípulos persuadiram o confessor Natálio a deixar-se eleger bispo da seita mediante salário (cento e cinquenta denários por mês); arrependido após advertências e açoites, Natálio voltou penitente à comunhão sob o Papa Zeferino. Mais tarde, Artemon (Artemas) e Paulo de Samósata retomariam a mesma tese de que o Salvador fora apenas um homem. A heresia foi refutada no "Pequeno Labirinto" — obra anônima conservada por Eusébio e atribuída por Teodoreto a Caio de Roma (provavelmente Hipólito) — e na Refutação de Todas as Heresias de Hipólito. Embora a influência direta de Teodoto não tenha ultrapassado muito a própria geração, sua tese ecoou em formas posteriores de adopcionismo na história da Igreja.
O contexto
Teodoto atuou em Roma no fim do século II, sob o pontificado do Papa Vítor I (c. 189–199). Era uma época em que a comunidade romana, cosmopolita e marcada pela imigração vinda da Ásia Menor, vivia intensa efervescência doutrinal: além da controvérsia sobre a data da Páscoa (a questão quartodecimana, na qual Vítor — tido por São Jerônimo como o primeiro escritor eclesiástico latino, de origem africana — agiu como cabeça da cristandade), multiplicavam-se as escolas heréticas que disputavam a definição correta sobre a pessoa de Cristo.
O erro de Teodoto inscreve-se na controvérsia monarquiana, que, em nome da unicidade absoluta de Deus (a "monarquia"), comprometia o mistério trinitário. Distinguem-se dois ramos: o monarquianismo modalista (patripassianismo de Noeto, Praxeas e, depois, Sabélio), que fundia Pai e Filho numa só Pessoa; e o monarquianismo dinâmico ou adopcionista, de Teodoto, que rebaixava Cristo a um homem sobre quem desceu um poder ou espírito divino. Os antigos chamavam os seguidores de Teodoto, mais propriamente, de teodocianos.
Frente a essas correntes, a Igreja amadurecia a cristologia do Logos — a afirmação, já presente em Justino, Melitão de Sardes e Irineu de Lyon, de que Cristo é o Verbo divino, Deus e homem. Era também o ambiente apologético e antignóstico dos Padres: Hipólito de Roma e o autor do "Pequeno Labirinto" combateram Teodoto mostrando, pela Escritura e pela tradição contínua desde os apóstolos, que a divindade de Cristo não era novidade tardia, mas a fé de sempre — contra a alegação adopcionista de que a verdade só teria sido "corrompida" a partir do sucessor de Vítor, Zeferino.
Período histórico
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