Comodiano
Comodiano (Commodianus) foi um poeta cristão de língua latina, provável leigo convertido do paganismo pela leitura da Bíblia, que num acróstico se intitulou "mendicus Christi" ("mendigo de Cristo"). Autor das Instructiones e do Carmen apologeticum, é figura de datação e origem muito incertas — tradicionalmente situado em meados do século III, embora parte da crítica o coloque no século V — e sua teologia, marcada pelo milenarismo, foi tida por heterodoxa.
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O que se sabe
Origem, identidade e conversão
Comodiano (em latim Commodianus) é um dos mais antigos poetas cristãos de língua latina, mas quase tudo sobre sua pessoa é incerto. Seu nome civil real é desconhecido, e a tradição manuscrita não preserva dados biográficos seguros. A partir de duas passagens dos manuscritos supôs-se que viesse de Gaza, na Palestina, leitura hoje tida como provável erro de copista; a maioria dos estudiosos, a partir da língua e das afinidades com Cipriano, inclina-se por uma origem no norte da África, ainda que uma origem oriental também tenha sido sugerida.
Ele próprio se apresenta como pagão convertido. Segundo a notícia antiga de Genádio de Marselha (séc. V), Comodiano, enquanto se ocupava da literatura profana, leu também os escritos cristãos e, achando ocasião, abraçou a fé. A Catholic Encyclopedia resume que ele adotou o cristianismo, tendo-se convertido pela leitura da Bíblia.
Atividade literária e missão
Comodiano declara não ser um "doctor", o que levou à convicção de que era leigo, e não clérigo. Num acróstico — a última composição do segundo livro das Instructiones, cujas letras iniciais, lidas de baixo para cima, formam Commodianus mendicus Christi — intitula-se "mendigo de Cristo".
Compôs duas obras conservadas: as Instructiones, coleção de oitenta breves poemas didáticos (acrósticos ou abecedários, à exceção de um), divididos em dois livros e dirigidos contra os pagãos e os judeus e à instrução dos cristãos; e o Carmen apologeticum (também chamado Carmen de duobus populis), poema de cerca de 1060 versos. Genádio observa que sua obra era mais hábil em refutar os pagãos do que em expor a doutrina cristã, e que ele inculcava o amor voluntário à pobreza.
Pontos doutrinários discutidos
A teologia de Comodiano foi considerada pouco segura. Além do milenarismo (quiliasmo) — a expectativa de um reinado terreno de Cristo —, atribui-se-lhe terem aflorado o monarquianismo e o patripassianismo, posições tidas por heterodoxas a respeito da Trindade. Por isso suas obras seriam mais tarde elencadas entre os escritos rejeitados.
Datação incerta e legado
A datação é objeto de longa controvérsia. Tradicionalmente situa-se Comodiano em meados do século III, ou entre o fim da perseguição de Diocleciano e o edito de Maxêncio (305–311); afirmou-se também que teria vivido sob Juliano ou mesmo em meados do século V. A tese de H. Brewer (Kommodian von Gaza, 1906), que o fazia poeta leigo de Arles em meados do século V, é considerada muito incerta e foi refutada por K. Thraede, que reafirma o século III. Latinista de língua tosca e alheio às regras da prosódia clássica, Comodiano é precioso testemunho do latim cristão popular do período em que as línguas românicas começavam a despontar. Suas obras, perdidas de vista por séculos, só foram redescobertas na era moderna a partir de um manuscrito achado por Sirmond e impressas pela primeira vez por N. Rigault em Toul, em 1650.
O contexto
Comodiano pertence ao mundo do cristianismo pré-niceno do Império Romano, num tempo em que a fé era ainda religião não reconhecida e sujeita a perseguições — como as de Décio (250) e de Diocleciano (a partir de 303) — antes da paz constantiniana de 313. É a época em que se formava a primeira literatura cristã em latim, na esteira de autores como Tertuliano, Cipriano e Lactâncio, e em que floresciam vivas expectativas escatológicas e milenaristas sobre o fim do mundo, o Anticristo e o juízo final, temas centrais em sua poesia.
Sua língua reflete o latim cristão primitivo de feição popular, num momento de transição em que o latim clássico já se modificava rumo às línguas românicas. Caso prevaleça a datação tardia proposta por parte da crítica, seu pano de fundo seria antes a Gália do século V — a região de Arles —, então marcada pelas invasões e pela reorganização da Igreja no Ocidente em desagregação do Império.
Período histórico
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